Juros altos e guerra devem testar balanços do 1º trimestre, dizem bancos

Por Clara Assunção 19 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Juros altos e guerra devem testar balanços do 1º trimestre, dizem bancos

A combinação de juros elevados, corte gradual da Selic e turbulência externa com a guerra no Oriente Médio deve marcar a temporada de balanços do primeiro trimestre de 2026, que começa no próximo dia 24 de abril. Na avaliação de grandes bancos, o período tende a reforçar um cenário de maior seletividade, com resultados mais desiguais entre setores.

A safra começa na próxima sexta-feira, 24, com Usiminas, e segue até 15 de maio, com Simpar.

Relatórios de casas como Itaú BBA, BTG Pactual e Safra convergem na avaliação de que o trimestre será heterogêneo entre setores, com bolsões de resiliência, mas também sinais de pressão em margens e qualidade de crédito.

Bancos: ainda sólidos, mas com sinais de alerta

O setor financeiro deve seguir como um dos pilares da temporada, embora com nuances importantes.

O Itaú BBA afirma que "o setor de bancos deve permanecer resiliente, mesmo em um cenário macroeconômico mais desafiador", com "resultados sólidos e margens ainda elevadas nos principais bancos privados".

A instituição destaca que a combinação de juros ainda altos com cortes graduais sustenta o resultado financeiro, enquanto a inadimplência tende a permanecer "majoritariamente estável", com pressões pontuais.

Já o Safra adota um tom mais cauteloso. Para o banco, "a deterioração na qualidade dos empréstimos para indivíduos e empresas deve pesar sobre o setor", e o aumento no custo de risco não deve ser compensado pela margem financeira.

Ainda assim, Itaú e Bradesco aparecem como destaques positivos, enquanto Santander e Banco do Brasil devem sofrer mais com provisões elevadas. No caso do BB, a expectativa é de queda relevante no lucro.

Na temporada de resultados passada, referente ao 4° trimestre e ao consolidado do ano, os bancos Itaú, Bradesco, Santander Brasil e Banco do Brasil encerram 2025 com lucro líquido combinado de R$ 107,8 bilhões.

O valor, no entanto, representou uma queda de 4,4% em relação a 2024 e foi provocado pelo desempenho do BB, cujo lucro líquido ajustado caiu 45,4% no ano passado, para R$ 20,7 bilhões, ainda sob forte impacto da inadimplência no agronegócio.

Commodities: pressão e maior dispersão

O cenário para recursos naturais é menos favorável. Segundo o Itaú BBA, o trimestre deve refletir “commodities mais fracas, custos pressionados e maior dispersão entre companhias”.

Entre os destaques, a Gerdau tende a apresentar melhora sequencial, enquanto empresas ligadas à mineração, como CSN e CSN Mineração, devem sofrer com volumes menores e custos mais altos. No setor de papel e celulose, a leitura é de um trimestre de acomodação.

A Ágora Investimentos, com base em análises do Bradesco BBI, reforça essa visão. A corretora cita que, apesar de preços mais altos da celulose, "a expansão das empresas será limitada por volumes sazonalmente mais fracos e pelo impacto de paradas programadas para manutenção". O resultado é uma compressão de margens e queda sequencial de EBITDA em nomes como Suzano e Klabin.

Petróleo e combustíveis: vento a favor

O segmento de óleo e gás aparece como um dos pontos positivos da temporada. O Itaú BBA destaca que “o primeiro trimestre já deve refletir uma geração de caixa mais robusta”, impulsionada pelo preço mais elevado do petróleo.

Além disso, a defasagem entre preços domésticos e internacionais melhora o ambiente competitivo para distribuidoras, favorecendo ganho de volume e margens mais saudáveis.

"Esse movimento tende a ser amplificado pela alavancagem operacional dessas companhias, com destaque para Petrobras e Prio, que possuem maior sensibilidade às variações do preço do petróleo", afirmou o Itaú BBA.

Varejo e consumo: crescimento abaixo da inflação

O varejo segue pressionado mesmo com a redução dos juros em março. Para o Itaú BBA, o trimestre deve ser "mais desafiador", com crescimento de vendas abaixo da inflação para boa parte das empresas.

Ainda assim, há destaques pontuais. A Riachuelo e a C&A devem apresentar melhora de margens, na avaliação do banco, enquanto o Assaí tende a surpreender positivamente em vendas e geração de caixa. Em contrapartida, empresas como Azzas, Grupo Mateus e Natura devem enfrentar maior pressão.

O Safra reforça esse cenário ao apontar "alto endividamento dos consumidores e concorrência intensa" como fatores limitantes. Ainda assim, vê Renner, Riachuelo e Alpargatas como nomes resilientes, enquanto Azzas e Natura devem reportar resultados mais fracos.

No e-commerce, o banco projeta margens pressionadas, mesmo com crescimento relevante em players como Mercado Livre. Magalu e Casas Bahia devem registrarresultados modestos e prejuízo líquido, segundo a instituição.

Energia: porto seguro

O setor elétrico mantém o perfil defensivo. Segundo o Itaú BBA, o trimestre deve confirmar "estabilidade de resultados e geração de caixa", especialmente entre transmissoras, beneficiadas por receitas previsíveis e reajustes atrelados à inflação.

Agro e frigoríficos: ciclo mais desafiador

No agronegócio, a expectativa é de safra robusta, mas com preços pressionados e custos mais altos, especialmente com fertilizantes, impactados pelo cenário geopolítico.

Já os frigoríficos entram em uma fase mais delicada. O Itaú BBA aponta sinais de mudança no ciclo do gado, com possível redução de oferta no futuro e pressão sobre margens no curto prazo. O segmento de frango, por outro lado, segue em momento favorável.

Saúde: resiliência com divergência

O setor de saúde deve apresentar desempenho resiliente, mas com forte diferenciação. O Itaú BBA projeta melhora operacional para hospitais, sustentada por maior volume, ticket médio e complexidade de procedimentos.

O BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) reforça essa leitura, destacando que “tendências divergentes permanecem”, com empresas como Rede D’Or e Fleury entregando “resultados limpos e resilientes, apoiados por execução consistente”, enquanto outras seguem enfrentando desafios operacionais, com Hapvida como principal exemplo de desempenho mais fraco.

O banco também aponta um ambiente ainda favorável para planos de saúde, com crescimento de beneficiários e melhora gradual de indicadores, embora em ritmo mais lento.

Educação e tecnologia: crescimento com ressalvas

No setor de educação, o Itaú BBA vê um trimestre marcado por captação mais fraca, especialmente no ensino digital, impactado por mudanças regulatórias. Ainda assim, o repasse de preços deve sustentar alguma expansão de receita e geração de caixa positiva, favorecida pela sazonalidade.

Em tecnologia, a expectativa é de resiliência. A Totvs deve manter crescimento consistente, enquanto a Bemobi tende a entregar um trimestre sólido, ainda que com pressão de margens devido a aquisições recentes.

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