Juros altos e guerra devem testar balanços do 1º trimestre, dizem bancos
A combinação de juros elevados, corte gradual da Selic e turbulência externa com a guerra no Oriente Médio deve marcar a temporada de balanços do primeiro trimestre de 2026, que começa no próximo dia 24 de abril. Na avaliação de grandes bancos, o período tende a reforçar um cenário de maior seletividade, com resultados mais desiguais entre setores.
A safra começa na próxima sexta-feira, 24, com Usiminas, e segue até 15 de maio, com Simpar.
Relatórios de casas como Itaú BBA, BTG Pactual e Safra convergem na avaliação de que o trimestre será heterogêneo entre setores, com bolsões de resiliência, mas também sinais de pressão em margens e qualidade de crédito.
Bancos: ainda sólidos, mas com sinais de alerta
O setor financeiro deve seguir como um dos pilares da temporada, embora com nuances importantes.
O Itaú BBA afirma que "o setor de bancos deve permanecer resiliente, mesmo em um cenário macroeconômico mais desafiador", com "resultados sólidos e margens ainda elevadas nos principais bancos privados".
A instituição destaca que a combinação de juros ainda altos com cortes graduais sustenta o resultado financeiro, enquanto a inadimplência tende a permanecer "majoritariamente estável", com pressões pontuais.
Já o Safra adota um tom mais cauteloso. Para o banco, "a deterioração na qualidade dos empréstimos para indivíduos e empresas deve pesar sobre o setor", e o aumento no custo de risco não deve ser compensado pela margem financeira.
Ainda assim, Itaú e Bradesco aparecem como destaques positivos, enquanto Santander e Banco do Brasil devem sofrer mais com provisões elevadas. No caso do BB, a expectativa é de queda relevante no lucro.
Na temporada de resultados passada, referente ao 4° trimestre e ao consolidado do ano, os bancos Itaú, Bradesco, Santander Brasil e Banco do Brasil encerram 2025 com lucro líquido combinado de R$ 107,8 bilhões.
O valor, no entanto, representou uma queda de 4,4% em relação a 2024 e foi provocado pelo desempenho do BB, cujo lucro líquido ajustado caiu 45,4% no ano passado, para R$ 20,7 bilhões, ainda sob forte impacto da inadimplência no agronegócio.
Commodities: pressão e maior dispersão
O cenário para recursos naturais é menos favorável. Segundo o Itaú BBA, o trimestre deve refletir “commodities mais fracas, custos pressionados e maior dispersão entre companhias”.
Entre os destaques, a Gerdau tende a apresentar melhora sequencial, enquanto empresas ligadas à mineração, como CSN e CSN Mineração, devem sofrer com volumes menores e custos mais altos. No setor de papel e celulose, a leitura é de um trimestre de acomodação.
A Ágora Investimentos, com base em análises do Bradesco BBI, reforça essa visão. A corretora cita que, apesar de preços mais altos da celulose, "a expansão das empresas será limitada por volumes sazonalmente mais fracos e pelo impacto de paradas programadas para manutenção". O resultado é uma compressão de margens e queda sequencial de EBITDA em nomes como Suzano e Klabin.
Petróleo e combustíveis: vento a favor
O segmento de óleo e gás aparece como um dos pontos positivos da temporada. O Itaú BBA destaca que “o primeiro trimestre já deve refletir uma geração de caixa mais robusta”, impulsionada pelo preço mais elevado do petróleo.
Além disso, a defasagem entre preços domésticos e internacionais melhora o ambiente competitivo para distribuidoras, favorecendo ganho de volume e margens mais saudáveis.
"Esse movimento tende a ser amplificado pela alavancagem operacional dessas companhias, com destaque para Petrobras e Prio, que possuem maior sensibilidade às variações do preço do petróleo", afirmou o Itaú BBA.
Varejo e consumo: crescimento abaixo da inflação
O varejo segue pressionado mesmo com a redução dos juros em março. Para o Itaú BBA, o trimestre deve ser "mais desafiador", com crescimento de vendas abaixo da inflação para boa parte das empresas.
Ainda assim, há destaques pontuais. A Riachuelo e a C&A devem apresentar melhora de margens, na avaliação do banco, enquanto o Assaí tende a surpreender positivamente em vendas e geração de caixa. Em contrapartida, empresas como Azzas, Grupo Mateus e Natura devem enfrentar maior pressão.
O Safra reforça esse cenário ao apontar "alto endividamento dos consumidores e concorrência intensa" como fatores limitantes. Ainda assim, vê Renner, Riachuelo e Alpargatas como nomes resilientes, enquanto Azzas e Natura devem reportar resultados mais fracos.
No e-commerce, o banco projeta margens pressionadas, mesmo com crescimento relevante em players como Mercado Livre. Magalu e Casas Bahia devem registrarresultados modestos e prejuízo líquido, segundo a instituição.
Energia: porto seguro
O setor elétrico mantém o perfil defensivo. Segundo o Itaú BBA, o trimestre deve confirmar "estabilidade de resultados e geração de caixa", especialmente entre transmissoras, beneficiadas por receitas previsíveis e reajustes atrelados à inflação.
Agro e frigoríficos: ciclo mais desafiador
No agronegócio, a expectativa é de safra robusta, mas com preços pressionados e custos mais altos, especialmente com fertilizantes, impactados pelo cenário geopolítico.
Já os frigoríficos entram em uma fase mais delicada. O Itaú BBA aponta sinais de mudança no ciclo do gado, com possível redução de oferta no futuro e pressão sobre margens no curto prazo. O segmento de frango, por outro lado, segue em momento favorável.
Saúde: resiliência com divergência
O setor de saúde deve apresentar desempenho resiliente, mas com forte diferenciação. O Itaú BBA projeta melhora operacional para hospitais, sustentada por maior volume, ticket médio e complexidade de procedimentos.
O BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) reforça essa leitura, destacando que “tendências divergentes permanecem”, com empresas como Rede D’Or e Fleury entregando “resultados limpos e resilientes, apoiados por execução consistente”, enquanto outras seguem enfrentando desafios operacionais, com Hapvida como principal exemplo de desempenho mais fraco.
O banco também aponta um ambiente ainda favorável para planos de saúde, com crescimento de beneficiários e melhora gradual de indicadores, embora em ritmo mais lento.
Educação e tecnologia: crescimento com ressalvas
No setor de educação, o Itaú BBA vê um trimestre marcado por captação mais fraca, especialmente no ensino digital, impactado por mudanças regulatórias. Ainda assim, o repasse de preços deve sustentar alguma expansão de receita e geração de caixa positiva, favorecida pela sazonalidade.
Em tecnologia, a expectativa é de resiliência. A Totvs deve manter crescimento consistente, enquanto a Bemobi tende a entregar um trimestre sólido, ainda que com pressão de margens devido a aquisições recentes.
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