Keir Starmer: por que premiê britânico perdeu quase todos os ministros
Em meio a uma crise política, a poucas semanas de seu segundo aniversário no poder, Keir Starmer, o premiê do Reino Unido pelo Partido Trabalhista, perde o apoio de seus ministros com uma frequência surpreendente, com cerca de 80 pedindo sua demissão e muitos outros renunciando aos seus postos. Sua taxa de aprovação entre a população britânica é de apenas 19%.
O motivo exato por trás da sua falta de popularidade é, em si, um mistério. Filho de trabalhadores pobres, sua maior controvérsia moral é saber se Starmer teria pago as taxas adequadas para um pequeno campo que abrigasse os quatro jumentos que seus pais têm de estimação. “As críticas mais contundentes a Starmer são que ele é entediante, não é proativo e tem uma voz irritante”, aponta à mídia local Rob Johns, professor de ciência política e especialista em opinião pública da Universidade de Southampton.
Em 2024, tornou-se premiê após uma vitória esmagadora do Partido Trabalhista, que acabou sendo a maior derrota da ala conservadora do Parlamento em 14 anos, consolidando a segunda mais vasta maioria parlamentar desde a Segunda Guerra Mundial. Hoje em dia, estádios de futebol unem fãs de times rivais cantando em oposição a Starmer; seus próprios ministros se voltaram contra ele, e eleições locais recentes refletiram a opinião pública e resultaram em intensas perdas para o premiê e seu partido.
Uma das explicações mais plausíveis é que Starmer, considerado moderado demais, não é um líder adequado em uma era em que o efeito polarizante do Brexit – a famosa votação que resultou na saída do Reino Unido da União Europeia – dividiu a população, transformando o centrismo moderado em uma orientação política pouco desejável.
“Acho que, fundamentalmente, você é uma boa pessoa, que se preocupa com as coisas certas, mas vi em primeira mão que isso não basta”, escreveu a ministra Jess Phillips em sua carta de demissão, entregue na terça-feira. Phillips prosseguiu acusando Starmer de atrasar os planos para implementar soluções tecnológicas que impediriam o abuso sexual infantil online. “Esta é a definição de mudança gradual. Nada de corajoso nisso”, concluiu.
Promessas vazias
Keir Starmer, durante entrevista,em um pódio que diz: "Reconstruindo o Reino Unido para os muitos, não para os poucos"
Problemas menos pessoais também prejudicam o líder, como promessas eleitorais não cumpridas – um problema comum entre chefes de Estado. No caso de Starmer, todavia, a situação nesse aspecto é particularmente preocupante: 29% dos eleitores do Partido Trabalhista mudaram suas orientações, desiludidos, em especial, com os altos custos de vida.
Matthew Torbitt, ex-conselheiro do Partido Trabalhista e comentarista político, disse ao veículo France 24: “9,7 milhões de pessoas votaram em 2024 pela mudança – foi isso que o Partido Trabalhista ofereceu… mas, se você tivesse estado em coma nos últimos dois anos, não notaria nenhuma diferença ao acordar hoje.”
A situação no sistema de saúde – uma das promessas principais de Starmer em 2024, em estado ruim após anos de austeridade decorrentes da crise econômica global de 2008 – segue precária, com listas de espera para atendimento a níveis pré-pandêmicos e burocracia frustrante em muitos serviços, em um setor que não recebe recursos suficientes.
Além disso, a crise global do custo de vida está afetando particularmente o Reino Unido, que apresenta uma desigualdade de renda elevada em comparação com outras nações desenvolvidas. A inflação elevou as taxas de juros a níveis acima da zona do euro, e a alta exposição aos preços do gás também significa que a economia britânica foi mais atingida do que outras pela guerra israelense-americana contra o Irã.
Starmer também é visto como incapaz de lidar com a principal questão política da imigração ilegal – apesar da queda nos números da migração líquida –, o que impulsionou a popularidade do partido conservador e anti-imigração Reform UK.
Resiliência e incertezas
Apesar da insatisfação popular e das amplas demandas de seus antigos aliados pela sua renúncia, Starmer já anunciou que continuará lutando pelo posto em uma decisão que pode parecer prejudicial a si mesmo, ao seu partido e ao seu país (e pouco usual a um líder considerado inativo e pouco audacioso), mas que vem em um momento estratégico – às vésperas do discurso anual do rei, durante o qual o monarca abre uma sessão parlamentar lendo um discurso escrito pelo governo – ainda sob Starmer – oficializando suas políticas.
O evento é importante na política britânica e uma chance para Starmer fazer uma boa impressão e mostrar que seu governo pode ser mais audacioso. Para esse fim, Starmer prometeu avançar "com maior urgência" com um "programa ambicioso" para tornar a Grã-Bretanha "mais forte e mais justa".
Suas propostas incluem aprofundar a relação do Reino Unido com a União Europeia, estatizar totalmente a indústria siderúrgica British Steel, reformar o sistema de asilo no Reino Unido, reduzir a idade mínima de votação para os 16 anos.
Sua determinação em lutar pelo cargo faz com que qualquer substituição antes do fim de seu mandato seja ainda mais difícil. Qualquer desafiante teria de assegurar as nomeações de 81 parlamentares do Partido Trabalhista, o que equivale a um quinto da presença do partido no parlamento, apenas para iniciar uma nova eleição.
Se Starmer decidir concorrer nessa eleição, provavelmente seria reeleito de qualquer maneira, prevê a revista britânica The Economist, em uma narrativa corroborada por um comunicado apurado pela BBC, assinado por mais de 100 parlamentares que diz: “não temos tempo para uma competição para a liderança”, instando urgentemente para que seus colegas “se foquem” em seus trabalhos, a fim de salvar o país da profunda crise política e econômica em que se encontra.
No momento, a única opção para os desafiantes de Starmer, segundo observadores, analistas e parlamentares, é aguardar as próximas eleições gerais, previstas para agosto de 2029, e consolidar sua influência e suas bases eleitorais até lá.
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