Kepler tem queda de 21% no lucro — mas cresce 10 vezes na Argentina em 2025
A Kepler Weber, fabricante de silos e armazenagens, encerrou 2025 com recuo nos principais indicadores financeiros, em um ano marcado por margens pressionadas, crédito restrito e menor apetite de investimento no agronegócio brasileiro. Ainda assim, a companhia encontrou na Argentina um dos principais vetores de crescimento.
No consolidado, a receita líquida fechou o ano próxima de R$ 1,5 bilhão, queda de 7,3% em relação a 2024. O EBITDA somou R$ 232 milhões, recuo de cerca de 29% na comparação anual. Já o lucro líquido foi de R$ 156 milhões, redução de 21,5%, segundo o balanço divulgado nesta quarta-feira, 25.
No quarto trimestre, a receita atingiu R$ 398 milhões, queda de 13,3% ante o mesmo período do ano anterior. O EBITDA ficou em R$ 67 milhões, abaixo dos R$ 82 milhões registrados no quarto trimestre de 2024. O lucro líquido do período somou R$ 64 milhões, alta de 28,5%, impulsionado por efeitos tributários não recorrentes.
“A gente vem tendo uma compressão de margens, principalmente por conta de preço”, afirmou o CFO Renato Arroyo, ao citar a queda nas cotações de commodities como soja e milho, a Selic em 15% ao ano e a escassez de crédito no agronegócio.
Segundo o executivo, o resultado do 4º trimestre de 2025 foi impactado pelo reconhecimento de R$ 11,4 milhões relacionados à exclusão de benefícios de ICMS da base de cálculo do IR e da CSLL. “É um evento não recorrente”, disse.
No acumulado de 2025, o desempenho dos segmentos refletiu o ambiente mais desafiador para o agro. O segmento de Fazendas registrou receita líquida de R$ 469,7 milhões, queda de 9,7%.
Em Agroindústrias, a receita somou R$ 405,2 milhões, recuo de 17,8%. Já Portos e Terminais teve queda de 41%, totalizando R$ 66,9 milhões, em um negócio concentrado em poucos contratos de grande porte.
A exceção foi a área de Reposição e Serviços (RS), que cresceu 10,1% e atingiu R$ 310,9 milhões. O desempenho, segundo a companhia, “reforça o papel estratégico da divisão como fonte de receita recorrente e maior previsibilidade operacional”.
Apesar da retração no Brasil, o braço internacional avançou. O segmento de Negócios Internacionais cresceu 19,4% no acumulado de 2025, com receita líquida de R$ 237,7 milhões — o melhor resultado anual da última década, tanto em valor quanto em volume comercializado, em toneladas.
Dentro dessa frente, a Argentina foi o destaque. O país saiu de praticamente zero em receita em 2023 para R$ 5 milhões em 2024 e alcançou cerca de R$ 50 milhões em 2025 — crescimento de dez vezes em um ano. Com isso, o país vizinho se tornou o segundo mercado mais relevante da operação internacional da Kepler, atrás apenas do Paraguai.
“A Argentina vai seguir sendo importante nos nossos negócios em 2026. Não foi uma ondinha que desapareceu”, afirmou o CEO Bernardo Nogueira, em entrevista a jornalistas.
Segundo o executivo, após cerca de duas décadas de subinvestimento em infraestrutura agrícola, o país vive um processo de reorganização desde a chegada de Javier Milei à presidência, em dezembro de 2023. “A Argentina tem potencial para se tornar o principal mercado externo da Kepler”, disse.
Entre as mudanças em curso estão reformas econômicas e discussões sobre a revisão das “retenciones” — imposto sobre exportações agrícolas cuja redução ou eliminação foi defendida por Milei durante a campanha.
Ao lado do Brasil, a Argentina é um dos principais produtores globais de grãos, como soja, farelo de soja, milho e trigo. Para a safra 2025/26, a Bolsa de Comércio de Rosário (BCR) projeta produção recorde de 154,8 milhões de toneladas, impulsionada por condições climáticas favoráveis.
2026 no agro
Para 2026, a companhia projeta um ambiente ainda desafiador para o produtor rural brasileiro, especialmente no primeiro semestre, o que deve refletir nos números da companhia.
“Hoje não existe uma sinalização de algo muito positivo para o agricultor”, afirmou o CEO Bernardo Nogueira. A empresa já prevê retração relevante no segmento de Fazendas na primeira metade do ano, refletida no backlog.
Embora a carteira total de entrada em 2026 esteja maior em reais e em toneladas na comparação com o início de 2025, há uma mudança importante de mix. “A gente já vê nesse backlog uma redução importante de fazendas”, disse Nogueira.
Segundo o executivo, mesmo uma eventual queda de juros no segundo semestre teria pouco impacto no curto prazo. “Isso não nos impacta positivamente em 2026, isso vai ser algo para impacto em 2027.”
No segmento de Negócios Internacionais, o cenário também exige cautela. A operação enfrenta maior competitividade, com concorrentes tradicionais buscando alternativas ao mercado brasileiro, além de um câmbio menos favorável, que pressiona as margens.
A expectativa para 2026 é de volumes semelhantes aos de 2025, com leve crescimento puxado por agroindústrias e negócios internacionais. Mesmo diante de um ambiente mais duro, a mensagem da Kepler é clara: “A crise é um momento de disciplina e foco, não de retração”, diz o CEO.
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