Kevin Warsh toma posse hoje: o que esperar do novo presidente do Fed?
Kevin Warsh será empossado nesta sexta-feira, 22, como presidente do Federal Reserve. A cerimônia será conduzida pelo próprio presidente Donald Trump, na Casa Branca, encerrando um processo que se arrastou por mais de um ano e marcou a transição mais turbulenta na liderança do banco central americano em décadas.
Warsh, de 56 anos, torna-se o 17º presidente do Fed desde a sua fundação e uma das pessoas mais ricas a ocupar o cargo, de acordo com as declarações financeiras apresentadas antes da confirmação. Os ativos em nome de Warsh somam entre US$ 135 milhões e US$ 226 milhões.
A confirmação pelo Senado, ocorrida em 13 de maio, com placar de 54 a 45, foi a mais apertada da história para um presidente do banco central, refletindo a polarização do Congresso e o temor dos democratas de que Warsh ceda às pressões de Trump para cortar juros rapidamente.
Um retorno ao Fed em circunstâncias inéditas
Warsh já havia sido membro do Conselho de Governadores do Fed entre 2006 e 2011. Nomeado pelo então presidente George W. Bush, foi o governador mais jovem da história ao assumir o cargo aos 35 anos. Atuou ao lado do presidente Ben Bernanke durante a crise financeira de 2008, quando o Fed tomou decisões emergenciais para estabilizar o sistema bancário americano. Após deixar o Fed em 2011, tornou-se sócio do Duquesne Family Office e professor visitante na Hoover Institution, da Universidade de Stanford.
A volta ao banco central, porém, ocorre em circunstâncias muito mais complicadas. Warsh assume em um momento em que a inflação permanece acima da meta de 2% por mais de cinco anos e sofre pressão adicional de tarifas e da escalada do preço do petróleo em razão do conflito no Oriente Médio.
O que Warsh disse — e o que os mercados esperam
Durante a audiência de confirmação no Senado, em abril, Warsh deixou claro o tom de seu mandato. Em uma de suas frases mais comentadas, afirmou que "a inflação é uma escolha, e o Fed precisa assumir responsabilidade por ela", declaração vista como uma das mais duras já feitas por um indicado ao cargo. Também defendeu abertamente a independência do banco central, mas com nuances. Warsh afirmou que "o Fed deve ficar em sua raia", sinalizando ruptura com o papel ativista que a instituição assumiu no mercado desde o fim dos anos 2000.
Em artigo de opinião publicado no Wall Street Journal em novembro do ano passado, Warsh argumentou que o "balanço inchado" do banco central contribuiu para o mal-estar econômico dos americanos, facilitando o crédito para Wall Street enquanto tornava o acesso ao crédito mais difícil para a Main Street.
A independência em relação à Casa Branca é, talvez, a questão mais sensível. Em entrevista à CNBC no ano passado, Warsh chegou a defender uma "mudança de regime" no banco central. A fala agradou a Trump e fez economistas se questionarem sobre a real disposição do novo chairman de resistir às pressões políticas.
Samuel Tombs, economista-chefe dos EUA na Pantheon Macroeconomics, escreveu que "é razoável assumir que ele disse ao presidente que favorece cortes de juros hoje, do contrário não teria sido indicado. Mas nossos instintos nos dizem que Warsh estará mais preocupado com como a história vai julgar seu legado do que em continuar a servir aos desejos do presidente".
Stephen Brown, vice-economista-chefe para a América do Norte na Capital Economics, descreveu a indicação de Warsh como "um dos melhores resultados para os investidores em comparação com os outros candidatos que estavam na corrida".
Primeira reunião do FOMC com Warsh
A primeira reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) presidida por Warsh está agendada para os dias 16 e 17 de junho, com os mercados futuros e de previsão indicando probabilidade acima de 90% de manutenção das taxas.
A ferramenta CME FedWatch não projeta praticamente nenhuma chance de corte em 2026 e os últimos dados de inflação começam a apontar para a probabilidade de uma alta de juros — algo irônico, dado que Warsh sublinhou durante as audiências a necessidade de reduzir as taxas.
Na reunião do FOMC de abril, a última presidida por Powell, os dirigentes divergiram sobre o tom da comunicação a respeito dos próximos passos da autoridade monetária. "É um lembrete a Warsh de que a letra mais importante no FOMC é a última: C, de comitê", disse Michael Townsend, diretor-executivo de assuntos legislativos e regulatórios da Charles Schwab.
O legado de Powell e o que muda
Jerome Powell, que presidiu o Fed desde 2018 e conduziu o banco central pela pandemia, pela inflação pós-Covid e pelas pressões políticas do governo Trump, permanece como governador do conselho. Ele confirmou que ficará ao menos até o fim de uma investigação do Departamento de Justiça relacionada a depoimentos que prestou ao Congresso sobre custos de reforma na sede do Fed.
A investigação, conduzida pela procuradora Jeanine Pirro, foi formalmente encerrada pelo Departamento de Justiça. Embora Pirro tenha ressalvado que poderia reabri-la se o inspetor-geral do Fed encontrasse evidências de irregularidades. Powell disse que permanecerá no conselho ao menos até ter certeza de que o episódio está definitivamente encerrado
A transição coloca sobre os ombros de Warsh uma das agendas mais complexas da história recente do banco central. Sob seu comando, o Fed terá que domar a inflação sem derrubar o emprego, reduzir um balanço de US$ 6,7 trilhões e reformular a comunicação do Fed com os mercados. Também terá de provar ao mundo que o banco central americano não se tornou um braço da Casa Branca.
*com agências internacionais
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