Kinea compara Brasil ao filme 'Parasita': consumiu como rico sem enriquecer
Em uma das cenas mais marcantes de Parasita, a família Kim acredita ter finalmente alcançado um novo patamar de vida ao se infiltrar no universo luxuoso dos Park. A ascensão parece real — até a estrutura desmoronar. A chuva que alaga o porão onde vivem escancara que aquele pertencimento era mais frágil do que parecia.
É justamente essa metáfora que a gestora Kinea usa em sua nova carta mensal para explicar o mal-estar econômico do Brasil: um país que ampliou o consumo, mas nunca conseguiu consolidar um crescimento estrutural de renda e produtividade.
A análise argumenta que o Brasil passou anos consumindo como se tivesse enriquecido de forma permanente, quando, na prática, o avanço estava apoiado em crédito, expansão fiscal e um cenário externo favorável — e não em ganhos robustos de eficiência econômica.
O Brasil parecia ter subido a colina
Entre os anos 2000 e o início da década passada, milhões de brasileiros passaram a acessar bens antes restritos a uma parcela menor da população.
“Esse ciclo foi impulsionado por uma combinação favorável de alta das commodities, melhora dos termos de troca, avanço real do salário mínimo, expansão do crédito e atuação ativa do setor público por meio de transferências, gasto e crédito direcionado”, diz a carta.
Mas, segundo a Kinea, havia um problema estrutural por trás dessa melhora aparente: o país aumentava o consumo sem elevar sua produtividade na mesma proporção.
“O Brasil teve bons momentos, mas nunca consolidou uma trajetória robusta de produtividade”, afirma a Kinea. Em vez de crescer pela capacidade de produzir mais e melhor, o país avançou “com mais crédito, mais consumo, mais trabalho” e ajuda do setor externo.
Na prática, isso significa que o brasileiro passou a consumir mais sem que a economia tivesse aumentado de forma consistente sua capacidade de gerar renda por trabalhador.
Crescimento baixo virou problema crônico
A carta mostra que o Brasil cresceu, em média, apenas 2,2% ao ano entre 1981 e 2024. Em termos per capita, o avanço foi ainda menor. Enquanto outros emergentes investiram, aumentaram produtividade e transformaram suas estruturas econômicas, o Brasil alternou períodos curtos de expansão com longos momentos de frustração.
A comparação com a Coreia do Sul aparece como um símbolo desse atraso. Décadas atrás, o Brasil tinha renda per capita superior à coreana em alguns critérios. Hoje, os sul-coreanos acumularam ganhos de produtividade e renda muito superiores aos brasileiros.
Numa lista de 28 países emergentes, o crescimento médio PIB per capita ano contra ano, o Brasil aparece em 25º lugar, na frente apenas de México, Argentina e África do Sul. Para a Kinea, a consequência desse modelo aparece agora no bolso das famílias.
“Em uma economia assim, famílias têm dificuldade de planejar o longo prazo, empresas hesitam em investir e o próprio Estado passa a administrar ciclos, em vez de construir continuidade”, comentam.
Emprego melhora, mas famílias seguem sufocadas
Um dos pontos centrais da análise é que, diferentemente de ciclos anteriores, melhora do mercado de trabalho já não é suficiente para aliviar a situação financeira da população. “O desemprego cai, a renda melhora na margem e, ainda assim, os indicadores financeiros seguem pressionados”, diz o relatório.
Na visão da gestora, isso mostra que o problema deixou de ser apenas conjuntural. O custo de manter o padrão de vida subiu mais rápido do que a renda estrutural da população.
O reflexo aparece no endividamento recorde das famílias, no aumento do comprometimento da renda com juros e no avanço da inadimplência mesmo em um cenário de desemprego historicamente baixo.
Segundo a carta, o crédito deixou de funcionar apenas como antecipação de renda futura e passou, em muitos casos, a substituir uma renda que nunca cresceu o suficiente para sustentar o padrão de consumo incorporado pela classe média.
‘Objetivo já não é subir, mas não descer’
A Kinea argumenta que o sentimento de exaustão da classe média nasce justamente da dificuldade crescente de preservar um padrão de vida que parecia mais acessível há uma década. “O brasileiro médio não está apenas tentando subir. Em muitos casos, o objetivo é não descer”, afirma a carta.
De acordo com o relatório, uma classe média funcional pressupõe saneamento adequado, acesso à educação de qualidade, alguma estabilidade de saúde, segurança, capacidade de poupar, resiliência diante de choques e alguma perspectiva de mobilidade intergeracional.
“Em vários desses critérios, o Brasil continua bastante distante do que se observa em economias que efetivamente consolidaram uma sociedade de renda média mais estável”, diz.
O relatório aponta que itens considerados típicos da classe média ficaram muito mais caros em relação à renda: carro popular, plano de saúde, aluguel, escola particular e lazer passaram a consumir uma fatia maior do orçamento familiar.
O exemplo do automóvel é emblemático. Em 2013, um carro popular custava o equivalente a cerca de 17 salários médios. Hoje, são mais de 25 salários.
O mesmo ocorre com eletrônicos. O Brasil aparece em segundo lugar entre os países onde um trabalhador precisa dedicar mais meses de salário para comprar um iPhone, na frente apenas do Egito.
Na conclusão da carta, a Kinea afirma que o Brasil criou um modelo sustentado em expansão de consumo sem enfrentar o principal gargalo econômico do país: a baixa produtividade. “A síntese mais dura é que o problema brasileiro não é de consumo, é de produção”, diz o texto.
Sem aumento consistente de produtividade, a renda cresce pouco. Sem crescimento estrutural da renda, o consumo acaba dependendo de crédito, estímulos fiscais e transferências do governo. E, quando esses impulsos perdem força, reaparece a sensação de regressão econômica.
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