Kinea: Guerra com Irã traz roteiro do filme '300' para a realidade
O Irã não precisa vencer os Estados Unidos para mexer com a economia global. Basta controlar o lugar certo no mapa. É com essa comparação, inspirada no filme 300, que a gestora Kinea descreve o risco atual no Estreito de Ormuz — um gargalo por onde passam cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia e que pode alterar preços, inflação, juros e o dólar no mundo inteiro.
Em sua carta mais recente, divulgada nesta quarta-feira, 1, a gestora lembra que o estreito funciona como o principal ponto de transmissão do choque geopolítico recente para a economia global. Assim como na Batalha de Termópilas, retratada no filme de 2006, a geografia é capaz de compensar a diferença de poder entre adversários. Na analogia feita pela Kinea, os Estados Unidos representam a potência dominante, enquanto o Irã assume o papel de quem controla o gargalo estratégico.
A avaliação é que, mesmo sem capacidade bélica para enfrentar diretamente os EUA em um conflito convencional, o Irã consegue exercer influência relevante ao ameaçar a passagem de energia por Ormuz. Pequenas interrupções nesse fluxo já provocam impacto imediato sobre os preços internacionais das commodities.
Os efeitos do conflito já aparecem na logística do transporte marítimo. O aumento do risco elevou custos de seguro e levou parte da frota comercial a evitar a região, ampliando a pressão sobre o mercado de petróleo.
O impacto não se limita à matéria-prima. A Kinea destaca que praticamente toda a exportação de gás natural liquefeito do Catar passa pelo estreito, com destino principalmente a economias asiáticas como Japão, Coreia do Sul, China e Índia.
Outro canal de transmissão envolve fertilizantes produzidos no Golfo Pérsico, especialmente nitrogenados como amônia e ureia. Parte relevante desse comércio depende da rota marítima justamente no período de compra de insumos para o plantio do hemisfério norte, entre março e maio.
Na avaliação da gestora, o choque tende a atingir de forma desigual diferentes economias. Países dependentes de importações de energia e alimentos, sobretudo na Ásia e na Europa, aparecem entre os mais expostos. Já exportadores de commodities como Estados Unidos, Brasil, Canadá e Austrália tendem a se beneficiar relativamente do aumento dos preços globais.
A alta recente do petróleo já começou a aparecer na precificação de ativos financeiros. Segundo a Kinea, as expectativas de inflação de curto prazo subiram nos Estados Unidos e na Europa, movimento que levou o mercado a rever o ritmo esperado de flexibilização monetária. Parte dos cortes de juros anteriormente projetados foi adiada e, em alguns casos, passaram a ser embutidas novas altas nas curvas.
Essa reprecificação ocorreu simultaneamente em diferentes regiões, incluindo Estados Unidos, Europa, Reino Unido, Suécia, Brasil e México, refletindo o impacto global do choque energético sobre as expectativas de política monetária.
Ao mesmo tempo, o dólar voltou a se fortalecer. Segundo a gestora, o movimento reflete tanto a busca por ativos considerados mais seguros em períodos de turbulência quanto a desmontagem de posições vendidas acumuladas anteriormente na moeda americana.
Diferente da Ucrânia
Apesar da comparação inevitável com o choque provocado pela guerra entre Rússia e Ucrânia em 2022, a Kinea avalia que o ponto de partida da economia global hoje é diferente. A inflação parte de níveis mais controlados, não há gargalos relevantes nas cadeias produtivas e os juros já estão em patamares restritivos na maior parte das economias.
Ainda assim, a gestora afirma que existem mecanismos capazes de reduzir parte do impacto de eventuais interrupções no estreito, como rotas alternativas de escoamento no Golfo, uso de reservas estratégicas e o nível elevado de estoques chineses de petróleo, cerca de 400 milhões de barris acima do observado dois a três anos atrás.
Mesmo com esses fatores de compensação, a avaliação é que o Estreito de Ormuz permanece como o principal ponto de atenção para o cenário global no curto prazo.
Pequenas interrupções no fluxo da região podem provocar efeitos relevantes sobre energia, inflação, juros e câmbio ao redor do mundo.
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