Laqus, concorrente da B3, compra fintech para cortar burocracia no mercado financeiro
Antes de uma empresa emitir uma dívida, vender uma cota de fundo ou registrar um ativo no mercado de capitais, existe uma etapa pouco visível para quem está fora do setor: o cadastro. Documentos, validações, assinaturas, regras de prevenção à lavagem de dinheiro e checagens de risco precisam estar em ordem para a operação andar.
É nessa parte do processo que a Laqus decidiu fazer sua nova aquisição. A companhia, uma depositária central especializada em infraestrutura para o mercado de capitais, está comprando 100% da goLiza, fintech que atua em esteiras de cadastro e formalização para o setor financeiro.
A operação envolve pagamento em dinheiro e troca de ações. O valor não foi divulgado. Com a compra, a Laqus passa a integrar uma etapa anterior à emissão dos ativos: a entrada do cliente, dos fundos, das gestoras e dos demais participantes no sistema.
Para Rodrigo Amato, CEO e fundador da Laqus, a aquisição resolve uma dor interna e uma dor dos clientes: evitar que os mesmos dados sejam enviados várias vezes, em sistemas diferentes, para operações parecidas.
“O mercado de capitais ainda opera com camadas muito fragmentadas entre cadastro, formalização e emissão. Nossa estratégia é reduzir essa fricção e aproximar essas etapas dentro de uma infraestrutura mais integrada, segura e eficiente”, afirma Amato.
A compra da goLiza é a segunda aquisição da Laqus no semestre. Em fevereiro, a empresa anunciou a compra da Estar Finance, plataforma de negociação de ativos tokenizados criada pela SMU Investimentos. Com os dois movimentos, a Laqus amplia sua presença em duas frentes: ativos digitais e cadastro para fundos, empresas e instituições financeiras.
O que faz a Laqus
A Laqus atua nos bastidores do mercado de capitais. Em termos simples, ela ajuda empresas, fundos, bancos e fintechs a registrar, guardar, organizar e acompanhar ativos financeiros.
Esses ativos podem ser debêntures, notas comerciais, CRAs, CRIs, cotas de fundos e ativos tokenizados. Em geral, são instrumentos usados por empresas para levantar dinheiro fora do banco.
Quando uma empresa emite uma debênture, por exemplo, ela está vendendo uma promessa de pagamento a investidores. Essa promessa precisa ser registrada, acompanhada e liquidada dentro de uma infraestrutura autorizada. É aí que entra uma empresa como a Laqus.
“A gente é a única depositária de valores mobiliários operacional concorrente com a B3”, afirma Amato.
A B3 é a principal infraestrutura do mercado financeiro brasileiro. A Laqus concorre com ela em parte dessa cadeia, especialmente em registros e serviços ligados a valores mobiliários, nome dado aos títulos e instrumentos usados no mercado de capitais.
A empresa é regulada pela CVM, órgão que fiscaliza o mercado de capitais no Brasil. Essa autorização permite que a Laqus atue como infraestrutura oficial para determinadas operações.
Da casa de software à concorrente da B3
A Laqus nasceu em 2010, em São Paulo, ainda com o nome Mark 2 Market. No começo, era uma casa de software. Vendia sistemas por assinatura para empresas médias e grandes controlarem dívidas, contratos financeiros e operações com derivativos.
Rodrigo Amato, fundador da companhia, é economista pela Universidade de São Paulo. Antes de empreender, trabalhou por cerca de oito anos no mercado financeiro, com passagens por Itaú e Santander. Nesse período, acompanhou por dentro a rotina de tesourarias, bancos e empresas que precisavam registrar contratos financeiros e operações no mercado.
Foi essa experiência que deu origem ao primeiro negócio da Laqus. A empresa começou atendendo tesoureiros e CFOs, sigla usada para diretores financeiros, com sistemas para organizar dívidas e derivativos. Com o tempo, Amato percebeu que os contratos que estavam na ponta das empresas também envolviam bancos, fundos e outros participantes do mercado.
“Esse sistema nos trouxe a bagagem e o conhecimento para lidar com contratos financeiros na ponta da empresa. Na outra ponta, havia um banco, um fundo ou outro participante do mercado”, afirma Amato.
Depois, a Laqus decidiu dar um passo além do software. A empresa passou a buscar receitas ligadas ao volume financeiro que passava por seus sistemas. Na prática, deixou de vender apenas tecnologia e passou a atuar também como infraestrutura de mercado.
“Para além da assinatura do software, a gente queria ter receitas transacionais dos volumes financeiros que circulavam no nosso sistema”, afirma Amato.
A decisão colocou a Laqus no caminho de uma disputa com a antiga Cetip, que depois se uniu à BM&FBovespa e deu origem à B3.
“Eu era cliente dos serviços da antiga Cetip. Via um serviço privado, com margens relevantes, e entendia que havia espaço para concorrência”, afirma Amato.
O processo para conseguir autorização como depositária levou três anos e meio. Segundo o executivo, foi um caminho novo também para o regulador.
“Foram três anos e meio para obter a autorização como depositária. Foi uma autorização inédita. A própria B3 é anterior à regulação, então a CVM também precisou construir esse caminho”, afirma Amato.
Quem usa a Laqus
A Laqus atende quatro grupos principais.
O primeiro é formado por empresas que fazem emissões no mercado de capitais. São companhias que querem captar dinheiro por meio de instrumentos como debêntures ou notas comerciais, em vez de pegar crédito direto com bancos.
O segundo grupo é o das tokenizadoras, empresas que transformam ativos em tokens, registros digitais que podem representar partes de dívidas, recebíveis ou outros direitos econômicos. Segundo Amato, esse é um mercado em que a Laqus tem quase 100% de participação.
O terceiro grupo reúne gestoras e fundos de investimento, sobretudo os que operam crédito privado. O quarto é formado por bancos que estruturam ou participam dessas operações.
“A gente atende empresas que fazem emissões no mercado de capitais, tokenizadoras, gestoras, fundos de investimento que operam crédito privado e bancos”, afirma Amato.
A companhia atende desde empresas menores até negócios maiores. Segundo o CEO, há clientes com faturamento a partir de R$ 10 milhões a R$ 20 milhões.
Nos últimos cinco anos, mais de 5.000 empresas fizeram sua primeira emissão de valor mobiliário pela Laqus, segundo Amato. Valor mobiliário é o nome técnico dado a instrumentos financeiros como debêntures, notas comerciais, CRAs, CRIs e cotas de fundos.
“Nos últimos cinco anos, promovemos a estreia no mercado de capitais de mais de 5.000 empresas que fizeram uma emissão de valor mobiliário pela primeira vez”, afirma Amato.
O que muda com a compra da goLiza
A goLiza foi fundada em 2018 pela Fisher Venture Builder e por Sergio Penna. A fintech nasceu para resolver o retrabalho no cadastro de clientes no setor financeiro.
Em muitas operações, um mesmo investidor, fundo ou empresa precisa enviar os mesmos dados e documentos para diferentes instituições. Cada nova operação pode exigir um novo preenchimento, uma nova assinatura e uma nova checagem.
A proposta da goLiza foi criar um pacote de dados controlado pelo próprio cliente. Depois do cadastro inicial, esse pacote pode ser usado em novas operações, com liberação apenas das informações necessárias para cada contraparte.
“O cliente que faz o cadastro é dono do seu pacote de dados. Ele cria esse pacote uma única vez, conecta com quem precisar e libera as informações necessárias para cada operação”, afirma Sergio Penna, fundador da goLiza.
A tecnologia ajuda a reduzir repetição de documentos, automatizar termos de adesão, integrar assinaturas digitais e atualizar dados com bases da CVM.
Para a Laqus, a compra resolve uma parte importante da operação. A companhia passa a tratar cada participante como uma entidade única, o que melhora a visão de risco, a prevenção à lavagem de dinheiro e a checagem de documentos.
O botão que evita repetir documentos
O ganho mais fácil de visualizar está na segunda operação de um cliente.
Se uma empresa já fez uma nota comercial na Laqus e depois quiser fazer outra, com os mesmos participantes, parte do caminho já estará pronta. Os dados foram validados, os documentos já existem e a checagem pode seguir por uma trilha mais curta.
Penna chama esse processo de fast track, ou caminho rápido. Em vez de reiniciar o cadastro, a nova operação usa o pacote de informações já aprovado.
“Uma vez que o participante conclui o onboarding, a segunda transação não precisa repetir tudo aquilo que já foi feito. Ela segue por um fast track”, afirma Penna.
A lógica é reduzir o tempo gasto com a parte administrativa e deixar empresas, fundos e bancos concentrados na operação em si: preço, prazo, garantia, investidor e documentação final.
“Em uma nova operação entre participantes já validados, a formalização pode ser muito mais simples. A base de dados já está pronta, e a transação muda apenas em pontos como data, valor e condições”, afirma Penna.
A entrada no mercado de fundos
Além do cadastro, a goLiza traz para a Laqus um produto voltado ao mercado de fundos de investimento.
Esse mercado movimenta cerca de R$ 10 trilhões, segundo os dados apresentados pelos executivos. A Laqus já tinha autorização para operar cotas de fundos em sua depositária, mas ainda tinha presença pequena nessa área.
Com a goLiza, a empresa passa a ter uma solução para cadastro, formalização, distribuição e registro de cotas. A aposta é oferecer uma trilha mais integrada para gestoras, administradores, distribuidores e investidores.
“A tecnologia da goLiza cria eficiência na distribuição de fundos e no processo de cadastro. Ao conectar essa solução à depositária, a Laqus passa a oferecer uma experiência melhor e um diferencial em relação à forma fragmentada como esse mercado opera hoje”, afirma Amato.
Para a Laqus, a aquisição também acelera o lançamento de produtos. Em vez de criar a tecnologia e a equipe do zero, a companhia incorpora o time e a plataforma da goLiza.
O time da fintech já foi incorporado à Laqus.
“O time da goLiza já está incorporado. Já estamos trabalhando juntos. Hoje, somos todos Laqus”, afirma Amato.
Como a aproximação começou
A Laqus se aproximou inicialmente da goLiza como possível cliente. Ao conhecer melhor a tecnologia, passou a avaliar uma aquisição.
“A gente se aproximou primeiro com o interesse de ser cliente. Quando conhecemos a solução, vimos que ela poderia resolver uma dor nossa e também acelerar o desenvolvimento de novos produtos”, afirma Amato.
A negociação envolveu também a Fisher Venture Builder, empresa que criou a goLiza junto com Penna. A Fisher trabalha no modelo de venture building, ou construção de startups em série ao lado de cofundadores.
A tese da Fisher era buscar problemas reais dentro de bancos, gestoras e empresas financeiras que pudessem ser resolvidos com tecnologia. A goLiza foi uma dessas apostas.
Desde 2017, a Fisher criou oito startups. Com a goLiza, vendeu quatro delas.
O tamanho da Laqus
A Laqus fatura cerca de R$ 40 milhões por ano. Segundo Amato, a empresa cresceu 10 vezes nos últimos cinco anos e se tornou geradora de caixa em 2024.
A expectativa da companhia é seguir crescendo de 30% a 40% ao ano. O avanço deve vir de crescimento orgânico, com novos clientes e produtos, e de aquisições.
“Hoje, a Laqus é uma companhia de cerca de R$ 40 milhões de faturamento. Nossa expectativa é seguir crescendo em um ritmo de 30% a 40% ao ano”, afirma Amato.
O executivo afirma que o mercado de infraestrutura financeira costuma ter poucos competidores relevantes no mundo todo. Por isso, a Laqus se prepara para uma disputa de longo prazo.
“No mundo inteiro, o mercado de infraestrutura é para poucos players. Como a Laqus já é superavitária e não depende de capital externo para sobreviver, temos condições de atravessar o tempo necessário para estar entre os consolidadores do setor”, afirma Amato.
A convivência com a B3
Apesar de concorrer com a B3, a Laqus não tenta disputar todos os mercados ao mesmo tempo.
A estratégia tem sido entrar primeiro em segmentos novos ou menos atendidos pela estrutura tradicional, como notas comerciais e ativos tokenizados. A nota comercial é um instrumento de dívida mais recente, usado por empresas para levantar dinheiro no mercado.
“A nota comercial é um instrumento novo, criado em 2021. A nossa leitura foi criar uma esteira mais eficiente, com menos etapas e mais agilidade. Isso nos diferenciou e permitiu construir esse mercado desde o início”, afirma Amato.
No caso dos tokens, a Laqus atende empresas que precisam de uma infraestrutura mais próxima da linguagem de tecnologia e de produtos digitais.
“Conseguimos oferecer às tokenizadoras um nível de serviço mais próximo, entendendo a dor desse cliente e falando a linguagem dele”, afirma Amato.
Hoje, segundo o CEO, a convivência com a B3 é boa porque a sobreposição comercial ainda é baixa. Mas a tendência é que a competição aumente conforme a Laqus avance para mercados mais tradicionais.
“Apesar de concorrentes, temos uma boa convivência com a B3, porque há pouca sobreposição comercial. No futuro, o nível de competição deve aumentar, porque a Laqus também vai entrar, aos poucos, no mercado tradicional”, afirma Amato.
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