Lojas Renner tem lucro e margem bruta recordes para um 1º trimestre
A Lojas Renner (LREN3) registrou lucro de R$ 257,3 milhões no primeiro trimestre de 2026, alta de 16,4% sobre o mesmo período do ano anterior. A margem bruta de varejo (receita menos custos de mercadorias vendidas) chegou a 56,7%, o maior nível já registrado pela companhia em um primeiro trimestre, 1,6 ponto percentual acima do resultado de um ano antes. Os três primeiros meses do ano para a varejista teve uma combinação de menos remarcações, estoques mais enxutos e produtos vendidos mais frequentemente a preço cheio.
A receita líquida de varejo somou R$ 2,9 bilhões, crescimento de 4,3% sobre o 1T25, quando havia avançado 12%. A desaceleração era esperada, dado o patamar elevado da base de comparação. Em vestuário, principal negócio da companhia, a receita cresceu 5,1%, para R$ 2,6 bilhões. A Youcom foi a marca com melhor desempenho, com alta de 14,4%, seguida pela Renner, com 4%, e pela Camicado, com 2,2%.
Vendas em Mesmas Lojas
O SSS ficou em 3,2% no varejo consolidado e 3,7% em vestuário, ante 10,8% e 12,2% no 1T25. A queda na comparação reflete, em parte, a base mais difícil. Mas há também um efeito operacional: a transferência de estoques do centro de distribuição do Rio de Janeiro para São Paulo tirou produtos do canal digital por algumas semanas, com impacto estimado de 1 ponto percentual nas vendas do trimestre.
"Em 2025 a gente cresceu cerca de 15% no primeiro semestre e em torno de 4% no segundo. Para este ano, a expectativa é inversa, com aceleração no segundo semestre", afirmou o CEO Fabio Faccio à EXAME.
Houve também queda de fluxo de clientes nas lojas físicas no período. O CFO Daniel Santos atribuiu o movimento parcialmente ao deslocamento do Carnaval no calendário e afirmou que o indicador "não sinaliza nada estrutural."
O que sustentou o SSS positivo foi o aumento do ticket médio, que subiu 4,4%, para R$ 202, e a melhora na taxa de conversão (percentual de visitantes da loja que fazem uma compra de fato).
Vendas Digitais
O GMV digital (valor total de tudo o que foi vendido pelos canais digitais da empresa) cresceu 7,4%, para R$ 627,1 milhões. A participação sobre as vendas totais chegou de 16,6%, ante 16,1% um ano antes. A taxa de conversão digital avançou 14% na comparação anual.
O aplicativo encerrou o trimestre com 7,2 milhões de usuários ativos mensais, 7% a mais que um ano antes. O canal foi o mais afetado pela troca de centro de distribuição, mas se recuperou no mês de março. "A gente conseguiu performar no digital até levemente acima do que a gente tinha previsto com a transição", disse Faccio.
Margens e Custos
A expansão da margem bruta foi o ponto central do trimestre. O custo das mercadorias cresceu apenas 0,6% enquanto a receita avançou 4,3%, o que explica o recorde de rentabilidade.
"O crescimento da margem bruta não tem vindo de repasse de preços, mas de um ganho estrutural do modelo. A gente vende um percentual muito maior de produtos novos a preço cheio e reduz a venda de produtos remarcados", diz Faccio. Os estoques com mais de 16 semanas caíram 15% na comparação anual.
Do outro lado, as despesas operacionais cresceram 6,2%, acima da receita. A pressão veio de itens não recorrentes ligados ao fechamento do CD do Rio de Janeiro: R$ 5 milhões em rescisões, R$ 6 milhões em processo trabalhista e R$ 9 milhões de impacto da revisão do plano médico. Excluindo esses efeitos, as despesas teriam crescido em ritmo mais próximo ao da receita.
O EBITDA de varejo chegou a R$ 487,5 milhões, alta de 23,5%, com margem de 17%, ganho de 2,7 pontos percentuais sobre o 1T25. O EBITDA total ajustado ficou em R$ 610,5 milhões, crescimento de 4,3%, com margem estável em 21,2%.
O número foi beneficiado por R$ 71,8 milhões em recuperação de créditos fiscais, ante R$ 20,4 milhões no mesmo período do ano passado. Sem esse efeito, o crescimento do EBITDA total teria sido de 7,8%.
Fluxo de Caixa
O fluxo de caixa operacional foi de R$ 413,6 milhões, ante R$ 376,6 milhões no 1T25. O fluxo de caixa livre chegou a R$ 258 milhões, recorde para o período e mais de três vezes o valor de R$ 70,9 milhões de um ano antes.
"Geralmente nesse primeiro trimestre os varejistas de moda não conseguem gerar caixa. Esse é o segundo ano consecutivo que a Renner gera caixa, e essa geração de R$ 258 milhões foi recorde", destacou Faccio.
Dívida e Alavancagem
A companhia terminou março com caixa líquido de R$ 1,5 bilhão. O caixa bruto era de R$ 1,9 bilhão e a dívida financeira, de R$ 399 milhões, concentrada no longo prazo e restrita às operações de crédito da Realize, financeira da Renner.
O caixa líquido caiu R$ 68,5 milhões em relação a dezembro de 2025 porque a empresa recomprou R$ 100 milhões em ações e pagou R$ 217,4 milhões em juros sobre capital próprio no período, parcialmente compensados pela geração de caixa.
Num trimestre em que vários varejistas já reportaram consumidor mais pressionado e inadimplência em alta, a Renner apresentou resultado na direção contrária. Faccio atribuiu a diferença a escolhas feitas ao longo dos últimos dois anos.
"O Brasil é o mesmo para todos. O que pode ser diferente são as medidas que a gente tomou: ser seletivo na concessão de crédito e fazer um crescimento de vendas que não depende de originação de crédito", afirmou.
Sobre o impacto da guerra no Oriente Médio nos custos, o CEO disse que, por ora, o único efeito sentido é um leve aumento no frete rodoviário por conta do diesel, sem reflexo ainda na matéria-prima.
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