Lula e Trump se reúnem na Casa Branca hoje; veja o que está em jogo
O presidente Lula entrará na Casa Branca, nesta quinta-feira, 7, pela sexta vez em sua vida. Após ser recebido pelos presidentes George W. Bush, Barack Obama e Joe Biden, será a vez de se encontrar pessoalmente com Donald Trump. Na pauta do encontro, há muitos temas a resolver, incluindo minerais críticos, segurança pública e o risco de novas tarifas ao Brasil.
Os dois presidentes se encontram em momentos de dificuldade. No Brasil, Lula teve derrotas recentes no Congresso, como o veto à indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF), e vê um cenário de empate técnico na disputa pela reeleição.
Do outro lado, Trump busca saídas para encerrar a Guerra do Irã, iniciada por ele em fevereiro, e lidar com a alta do preço dos combustíveis, gerada pelo conflito.
"Não espero nenhum grande anúncio, nem positivo nem negativo. É um momento de vulnerabilidade mútua", diz Bruna Santos, diretora do programa de Brasil no think tank Inter-American Dialogue, sediado em Washington.
Santos diz esperar que seja uma reunião cordial. "Estamos em um momento em que os Estados Unidos perceberam que precisam do Brasil para uma série de ativos estratégicos, especialmente minerais críticos. Por outro lado, o Brasil quer conter danos de ver os Estados Unidos intervindo de alguma forma na região e gerando ainda mais instabilidade com sustos tarifários", afirma.
O que está na agenda
Além da questão comercial, o entorno do presidente Lula considera um assunto-chave a proposta do governo brasileiro aos americanos sobre cooperação para combate ao crime organizado, já formalizada por Lula no ano passado.
Desta vez, o presidente quer expor a Trump o que o governo federal tem feito na área de segurança pública, diz reservadamente um colaborador de Lula. A pasta da Justiça prepara o lançamento, para o dia 12 de maio, um plano chamado Brasil contra o Crime Organizado, com verba prevista de R$ 1 bilhão para este ano.
Outro tópico que deve ser tratado entre os dois presidentes é uma eventual parceria entre Brasil e Estados Unidos na área de exploração de minerais críticos e estratégicos.
Em meio à disputa geopolítica que trava com a China, os EUA têm buscado garantir o fornecimento de terras raras, elementos químicos cruciais para a transição energética. O Brasil, além de ter grandes reservas, deve aprovar na Câmara dos Deputados nesta quarta-feira um marco legal para a exploração de minerais críticos.
O texto aumenta o poder do Executivo para barrar operações de fusão, aquisição ou mesmo exportações no setor. Por outro lado, concede incentivos fiscais para atividades de beneficiamento e de desenvolvimento industrial no segmento.
Seção 301: Pix, etanol e carne
Os Estados Unidos poderão impor mais tarifas ao Brasil por meio da lei chamada de Seção 301. Em julho do ano passado, uma investigação, baseada nessa lei, foi aberta pelo governo americano para analisar possíveis práticas desleais do Brasil no comércio com os EUA, em diversas áreas, como propriedade intelectual, sistema bancário (em especial o Pix) e produtos agrícolas, como carne e etanol.
Caso a investigação considere que o Brasil criou barreiras abusivas, os EUA poderão impor novas tarifas ao país. A expectativa de analistas que acompanham o tema é que uma decisão pode sair ainda no mês de maio.
Nesta quarta-feira, 6, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que a viagem de Lula poderá ser usada para dar mais explicações aos americanos sobre o Pix. O sistema é citado como exemplo de concorrência desleal às empresas americanas na investigação da Seção 301.
“Há dúvidas sobre o Pix? Estamos à disposição para explicar. O Pix é uma infraestrutura de pagamento pública, que os EUA conhecem e têm algo parecido, eles têm ferramentas parecidas e entendem o que é. A gente precisa afastar algum lobby indevido em relação ao Pix”, disse Durigan em entrevista ao programa “Bom Dia, Ministro”.
Tarifas ainda em vigor
Lula também tem o desafio de reduzir tarifas americanas que ainda estão em vigor.
Segundo cálculos da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos (Amcham), cerca de 45% das exportações brasileiras não têm sobretaxa. Cerca de 15% estão sujeitos às tarifas da Seção 232 (segurança nacional), como aço, alumínio, autopeças, cobre e alguns setores específicos.
O restante tem sobretaxa de 10% com base na Seção 122, medida adotada por Trump após a Suprema Corte derrubar as taxas adotadas por meio da regra Ieepa. A medida, no entanto, tem duração apenas de alguns meses.
"As empresas tiveram um alívio importante com a redução das tarifas após a decisão da Suprema Corte e têm expectativa de retomar a intensidade das exportações para os Estados Unidos. Mas o cenário ainda não é definitivo, pois não se sabe o desfecho das novas medidas", disse Abrão Neto, CEO da Amcham, em conversa com a EXAME, em abril.
Retomada da relação
No ano passado, Brasil e Estados Unidos viveram seu pior momento na relação diplomática na história. Em julho, o governo Trump anunciou uma tarifa de importação de 50% a produtos brasileiros, além de sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
As medidas tinham como objetivo pressionar o Brasil a cancelar o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
O impasse foi desfeito a partir de setembro. Após uma série de conversas de bastidores, envolvendo tanto autoridades quanto empresários e entidades setoriais, o presidente Trump se reuniu com o presidente Lula nos bastidores da Assembleia-Geral da ONU. Após a conversa, os dois disseram que houve uma "química" entre eles.
Depois disso, vieram outras conversas entre os dois presidentes e uma série de alívios ao tarifaço, como a retirada de mais produtos da lista e uma sinalização de normalização das relações. Os dois presidentes tiveram uma reunião presencial em outubro, na Malásia, que transcorreu bem. Na época, o governo americano recuou de mais medidas contra o Brasil.
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