Mães e empreendedoras: como elas estão redesenhando a liderança em SC
Santa Catarina há muito deixou de ser um laboratório quando o assunto é liderança feminina no mundo corporativo. Hoje, é um case no quesito na transformação desse avanço em ativo econômico. Exemplos como os de Cíntia Pereira, da CBA Empreendimentos, e de Dayane Titon Cardoso, da Baly Brasil, já ultrapassam fronteiras e ajudam a posicionar como refeências nacionais.
No Estado, essa mudança também se traduz no dia a dia da gestão. Elas atuam em setores, em tese, distintos — como a construção civil e o de bebidas energéticas. Na prática, porém, compartilham desafios comuns a outras executivas: tomar decisões diárias em meio a um oceano de incertezas, sem abrir mão da maternidade e do espaço para si mesmas.
Foi exatamente nesse território — entre avanço e limite — que a CBA Empreendimentos, em parceria com a EXAME SUL, realizou o 4º CBA Experience, em Florianópolis, nesta terça-feira (5/5). O tema, “Empreender, liderar e maternar”, foi tratado como uma equação concreta de gestão — e não como discurso inspiracional.
A mediação da jornalista Layane Serrano, repórter de carreira e negócios da EXAME, imprimiu um ritmo leve e ao mesmo tempo informativo ao painel, conectando discurso e prática e provocando reflexões sobre os gargalos que ainda limitam a escala dos negócios liderados por mulheres.
À frente da CBA, incorporadora com atuação em projetos de alto padrão em Florianópolis, Cíntia Pereira vem conduzindo um reposicionamento estratégico da marca — que passa a operar não apenas como desenvolvedora imobiliária, mas como plataforma de relacionamento, conteúdo e experiência. O CBA Experience, agora em sua quarta edição, é peça central desse movimento.
“Não se trata apenas de construir empreendimentos. A gente constrói conexões. E isso passa por entender o momento das pessoas, especialmente das mulheres que estão liderando, empreendendo e, muitas vezes, maternando ao mesmo tempo”, afirmou Cíntia.
Para ela, o avanço da liderança feminina exige uma mudança estrutural no ambiente de negócios.“A mulher não precisa provar que é capaz. Isso já foi superado. O que precisa mudar agora é o sistema ao redor — para que ele não imponha escolhas que já deveriam estar ultrapassadas”, disse.
Já Dayane Titon Cardoso trouxe ao debate a lógica da escala. À frente da Baly, indústria catarinense de bebidas energéticas que assumiu a liderança do mercado nacional em 2025, desafiando gigantes globais como Red Bull e Monster, a executiva vive o desafio de crescer em um ambiente altamente competitivo, ampliando presença no varejo e avançando em mercados internacionais.
“Crescer é muito mais difícil do que começar. E, para a mulher, esse crescimento vem acompanhado de uma cobrança maior, muitas vezes invisível”, afirmou.Ao falar sobre maternidade, Dayane trouxe o tema para o campo prático da gestão. “Existe uma romantização muito grande. Na prática, é gestão de tempo, de energia e de prioridade o tempo todo. E isso impacta diretamente na forma como você lidera”, disse.
Ela também destacou que o processo de expansão da Baly exigiu decisões difíceis — muitas delas atravessadas pela necessidade de equilibrar vida pessoal e responsabilidade empresarial.“Empreender já é desafiador. Empreender sendo mãe exige um nível de organização e resiliência que não aparece nos números, mas que faz toda a diferença no resultado final”, afirmou.
Acima da média nacional
O pano de fundo dessas trajetórias aparece com clareza nos dados. Hoje, cerca de 35% das empresas catarinenses são lideradas por mulheres — mais de 530 mil negócios ativos, segundo dados do Observatório do Sebrae/SC. O índice coloca o estado acima da média nacional, que gira em torno de 34%, e reforça a consolidação do empreendedorismo feminino como vetor relevante da economia regional.
Mais do que volume, o dado revela padrão: Santa Catarina não apenas acompanha a tendência nacional — em muitos casos, antecipa o movimento. Em regiões como a Grande Florianópolis, a presença feminina se aproxima de 40% dos negócios, um indicador de maturidade do ecossistema local. Mas há um ponto de inflexão claro: assim como no restante do país, a presença feminina diminui à medida que os negócios ganham escala.
As falas encontram respaldo direto nos dados. No Brasil, as mulheres já somam mais de 10 milhões de donas de negócios, segundo o Sebrae, com forte presença na base do empreendedorismo: cerca de 47% dos empreendedores iniciais são mulheres.
O problema aparece na transição para a escala. A maior parte dos negócios liderados por mulheres ainda está concentrada em microempresas e MEIs. Em Santa Catarina, mais de 60% das empresas femininas estão nessa faixa, o que evidencia capacidade de formalização, mas também limitações estruturais de crescimento.
Outro dado amplia o diagnóstico: mesmo com maior escolaridade — mais de 70% das empreendedoras têm ao menos ensino médio completo — a renda média feminina segue cerca de 24% abaixo da masculina. É nesse ponto que a maternidade deixa de ser uma questão individual e passa a ser um fator econômico.
Alice Kuerten, presidente do IGK
A discussão sobre liderança feminina ganhou uma camada adicional ao incorporar um elemento frequentemente invisível nos resultados: a rede de apoio.
A participação de Alice Kuerten, presidente do Instituto Guga Kuerten (IGK), trouxe essa dimensão para o centro do debate, ampliando o olhar para além da gestão e conectando trajetória profissional com suporte coletivo.“Nenhuma trajetória é construída sozinha. Quando criamos espaços de troca, fortalecemos não só os negócios, mas as pessoas por trás deles”, afirmou.
A presença de Alice também ajudou a traduzir o conceito em prática. O evento incluiu uma ação beneficente com a doação de uma joia da marca D’Vie, com arrecadação integral destinada ao Asilo São Joaquim, em Florianópolis — reforçando a conexão entre liderança, propósito e impacto social.
Mais do que um encontro pontual, o CBA Experience revela um movimento mais amplo: o de empresas que passam a disputar relevância não apenas pelo que entregam, mas pelas conversas que conseguem liderar.
No caso de Santa Catarina, esse movimento ganha tração em um ambiente econômico dinâmico, com forte presença de pequenas e médias empresas e uma cultura empreendedora consolidada. O avanço da liderança feminina, nesse contexto, deixa de ser apenas pauta social e passa a operar como variável direta de crescimento.
Sobre a CBA
A Companhia CBA, formada por CBA Empreendimentos e Viva Corp, foi criada em 2015 por Cíntia Pereira e Vinícius Billmann e vem ampliando sua atuação no mercado imobiliário catarinense. Com 10 empreendimentos entregues e cerca de 600 unidades concluídas, mantém atualmente nove canteiros ativos, que somam aproximadamente 1.500 unidades em construção.
Por meio da marca CBA Empreendimentos, a companhia atua nos segmentos de luxo e superluxo, atraindo compradores de diferentes regiões do Brasil e também do exterior. Já a Viva Corp foca no desenvolvimento de projetos voltados ao público jovem e aspiracional, dentro das faixas 3 e 4 do programa Minha Casa, Minha Vida, ampliando o alcance da atuação do grupo.
Com mais de 120 mil metros quadrados em construção e um VGV de R$ 1,03 bilhão em 2025, a companhia trabalha com a expectativa de triplicar de tamanho nos próximos três anos, condicionada ao ritmo de absorção do mercado. Para sustentar esse crescimento, opera com processos estruturados pela Falconi Consultoria, auditoria da PwC e presença no mercado de capitais. A empresa também está entre as principais incorporadoras com atuação junto à Caixa Econômica Federal, reforçando padrões de governança, liquidez e segurança nas entregas.
Sobre a Baly
Já a Baly Brasil, fundada em 1997 em Tubarão (SC), é hoje uma das empresas de maior crescimento no setor de bebidas no país. Com faturamento de R$ 1,8 bilhão em 2025 e projeção de atingir R$ 2,5 bilhões em 2026, a companhia diversificou sua atuação para além dos energéticos, incluindo categorias como cervejas, bebidas proteicas, isotônicos e suplementos vitamínicos.
A operação gera cerca de 1.500 empregos diretos e mais de 5.000 indiretos, consolidando sua relevância na economia regional. A marca Baly Energy Drink, principal ativo do grupo, tornou-se a maior marca brasileira de energéticos e chegou a superar a austríaca Red Bull ao longo de todos os meses de 2025 e no início de 2026, além de liderar o mercado nacional em volume em períodos estratégicos, também à frente da norte-americana Monster, segundo dados de mercado.
O crescimento se reflete na produção. Foram cerca de 205 milhões de litros em 2024, mais de 550 milhões em 2025, com projeção de alcançar 1 bilhão de litros a partir de 2026. A empresa também avança na internacionalização, com exportações para Argentina, Bolívia, Chile, Estados Unidos, México, Paraguai, Suriname e Uruguai, e planos de ampliar essa presença ao longo do próximo ano.
Para sustentar a expansão, a companhia acelerou investimentos industriais, com a aquisição da terceira fábrica em setembro de 2025 e da quarta unidade em janeiro de 2026, ambas em Santa Catarina.
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