Maior rede de supermercados do Brasil, Carrefour fatura R$ 123 bi e está cada vez mais 'Atacadão'
Em 2007, o Carrefour comprou o Atacadão por 2,2 bilhões de reais para voltar à liderança do varejo brasileiro. Quase vinte anos depois, a relação se inverteu: a rede de atacarejo que era a aquisição virou praticamente o centro da operação da multinacional no país.
O Grupo Carrefour Brasil fechou 2025 como a maior rede de varejo alimentar do país, com faturamento de 123,5 bilhões de reais, segundo o Ranking Abras — a décima liderança consecutiva. E a maior parte dessa receita não vem das lojas com a bandeira Carrefour. Vem do Atacadão, responsável por cerca de 70% do faturamento do grupo.
Para além do faturamento, o Atacadão tem estado cada vez mais presente na vida do Carrefour. O sistema de gestão das lojas, a localização das matrizes e a prioridade de expansão estão todos convergindo para a rede de atacarejo.
"Ninguém pode ser eficiente no preço de venda se não é eficiente nos custos", afirma Pablo Lorenzo, CEO do Grupo Carrefour Brasil, em entrevista exclusiva à EXAME. Ele assumiu o comando do grupo em 2024 com a missão de simplificar processos e padronizar modelos comerciais.
A sinergia cada vez maior entre Carrefour e Atacadão
O movimento mais simbólico dessa virada acontece longe das prateleiras. O grupo iniciou a substituição do ERP — o sistema de gestão que controla estoque, vendas e logística, espécie de cérebro comercial da operação — das lojas Carrefour pelo sistema usado no Atacadão.
O piloto começou numa loja de Alphaville, em Barueri, e a expectativa é estender a mudança a toda a rede.
Na entrevista, Lorenzo afirmou que cerca de 25% do parque de lojas Carrefour já fez a migração sem perda de vendas ou de desempenho comercial. Um alívio e tanto. "Antes de fazer, sempre tivemos muito medo do que poderia chegar a acontecer com uma mudança", diz. "Sempre é difícil trocar sistema comercial de loja. Unir cultura de matrizes é difícil. Mudar toda essa cultura num jeito único de ser. A verdade é que a princípio era um temor. Estamos nessa jornada, acho que foi mais fácil do que pensávamos".
A integração também é física. O grupo está fechando a sede que mantinha em Barueri e transferindo as equipes para São Paulo, em estruturas do Atacadão. As áreas de negócio, como comercial e logística, vão para a unidade da Vila Maria, na zona norte, onde já fica o escritório central do Atacadão. O back-office segue para o Tatuapé.
Por que o hipermercado não some
A aproximação entre as bandeiras levanta uma pergunta: se o Atacadão é o motor, o que sobra para o hipermercado? Para Lorenzo, cada formato mantém seu papel, mas eles passam a operar mais próximos um do outro.
"Na minha visão, os hipermercados vão somar distintos negócios, cada vez mais como um hub multiformato. O hipermercado não é somente o lugar onde o consumidor vai comprar, mas uma preparação de e-commerce, de food", diz. "E continua sendo uma fonte importante de negócio financeiro com venda de e-commerce e non-food com soluções financeiras. Por isso que temos banco Carrefour. O hipermercado igual ao mercado do passado vai mudar. Vai ser um hipermercado que vai somando novos negócios".
O atacarejo, por sua vez, é onde faz sentido concentrar volume e preço baixo. Cada um com sua função, mas perto o suficiente para que um programa como o Nosso Clube, lançado nesta semana, faça o cliente circular entre eles.
Uma operação continental
A integração corre em paralelo a um desafio que o grupo enfrenta pela própria escala. Em praticamente todo estado brasileiro há uma rede regional forte, dona do seu mercado de origem.
O Carrefour é a exceção que aparece em todos eles, uma atuação nacional num país de dimensões continentais, em que o consumo varia de região para região.
Isso obriga a empresa a equilibrar uma oferta nacional com uma forte presença de produtos regionais, sobretudo em perecíveis e em itens de marca local, do café ao molho de tomate. É também o que sustenta a aposta em marcas próprias: além de oferecer preço mais competitivo a um consumidor pressionado, elas abrem espaço para parcerias com fornecedores regionais, num país onde a indústria local tem peso.
O grupo lançou recentemente uma marca própria no Atacadão, pensada para ser trabalhada de forma transversal entre as bandeiras, o mesmo princípio que rege a integração como um todo.
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