Mais lojas e menos produtos: o plano da Mr. Cat para sair da recuperação extrajudicial
Menos modelos nas prateleiras, mais lojas e pagamento de dívidas já negociadas. Esse é o plano da Mr. Cat para sair da recuperação extrajudicial iniciada em 2025. A calçadista afirma que já quitou pendências com fornecedores e parceiros, manteve o fluxo de pagamentos correntes ao longo de todo o processo e avançou na renegociação de tributos, que era o principal ponto em aberto.
A etapa estadual foi concluída nas últimas semanas e resta o acerto na esfera federal. A previsão é encerrar o processo em até dois anos, após a execução completa dos acordos firmados com credores.
“A gente zerou todo o passado”, diz o CEO Celso Barreto. “A autorização já foi dada, já foi negociado com todos os fornecedores. Faltava só o imposto, e isso a gente conseguiu fechar mês passado”, completa o executivo.
A retomada aparece nos números. A rede da calçados carioca projeta faturar entre R$ 202 milhões e R$ 210 milhões em 2026, acima dos R$ 185 milhões registrados no ano passado. Esse crescimento, segundo Barreto, está atrelado a abertura de novas unidades e otimização de processos internos na empresa.
Como está a operação da Mr. Cat
Hoje, a Mr. Cat tem 98 lojas em operação, sendo três próprias e o restante no modelo de franquias, com cerca de 600 pessoas trabalhando diretamente no negócio entre lojas e escritório. O plano para este ano inclui a abertura de 25 novas unidades e crescimento de 25% nas vendas das franquias, além de avanço de 20% no e-commerce.
Nos últimos meses, a calçadista passou a medir a evolução com base em trimestres comparáveis. No primeiro trimestre, a alta foi de 6% sobre o mesmo período do ano anterior, mesmo com diferenças no calendário por causa do Carnaval. Em abril, o desempenho segue próximo da estabilidade, com leve crescimento.
“A gente voltou para o jogo”, afirma Barreto. “Esse primeiro trimestre foi bom. Quando a gente compara os períodos equivalentes, dá para ver que houve evolução.”
Como foi a negociação com credores
O cenário é diferente do de 2025, quando a empresa de calçados entrou com o pedido de recuperação extrajudicial com cerca de R$ 93 milhões em dívidas e negociação com 119 credores. À época, a rede enfrentava queda de vendas, aumento de custos e pressão sobre o caixa, em um contexto que também incluía mudanças no consumo e impacto da pandemia.
A recuperação extrajudicial permite que a empresa negocie diretamente com os credores e mantenha a operação em funcionamento enquanto executa o plano. O acordo precisa ser homologado pela Justiça, mas não há o mesmo nível de acompanhamento no dia a dia.
Segundo o CEO, todos os credores aderiram ao plano. Durante o processo, a empresa manteve os pagamentos correntes para fornecedores e parceiros que continuaram operando com a marca, sem interrupção no fluxo.
Já os credores que não têm mais relação comercial entraram em acordos com prazos mais longos, com início de pagamento previsto para até 24 meses.
“Todos aderiram ao plano. A gente achava que ia ter algum gargalo, mas foi zero”, diz. “Fornecedor que está com a gente recebe no fluxo normal. Quem não está entra no acordo e a gente paga depois.”
Menos produtos, mais escala
Uma das principais mudanças na operação foi a redução do número de SKUs (produtos e suas variações). No masculino, a empresa saiu de cerca de 280 modelos para uma meta de chegar a 120, reduzindo significativamente a linha de calçados em couro para homens.
No feminino, o portfólio atual gira em torno de 480 modelos, com objetivo de cair para perto de 250. Para mulheres, além de calçados, a empresa oferece bolsas, necessaires e cintos.
A decisão partiu de uma análise dos dados de venda. A empresa identificou que poucos produtos concentram a maior parte da demanda e se repetem ao longo do tempo, com pouca variação até mesmo de cor ou modelo. Com isso, passou a priorizar esses itens e reduzir a dispersão do estoque.
“Os mais vendidos se repetem mês a mês. Não muda nem a cor”, diz.
“A gente estava com muito SKU. Quando você reduz, ganha escala, melhora custo e volta a ser competitivo no ponto de venda.”
Mudanças nas lojas e uso de dados
Além do portfólio, a empresa revisou o formato das lojas. Reformas em unidades no Rio de Janeiro, com mudança de layout e retirada de elementos visuais que desviavam a atenção do produto, resultaram em aumento de vendas de até 30% em alguns casos. A proposta foi simplificar o ambiente e destacar os itens expostos.
“Quando você mexe no layout e foca no produto, o cliente volta a olhar para ele”, afirma Barreto.
Outra frente foi o uso de dados na operação. A calçadista passou a acompanhar com mais frequência o desempenho de cada loja, identificar produtos com baixa saída e ajustar o mix conforme a região. Isso inclui diferenças claras entre mercados, como Sul e Nordeste, onde o tipo de produto varia ao longo do ano.
“Hoje a gente sabe qual produto está parado e qual precisa produzir mais”, diz o CEO.
Expansão com a rede
Mesmo durante a reestruturação, a empresa manteve a abertura de lojas. Foram 13 unidades inauguradas no último ano, sendo seis abertas por franqueados que já faziam parte da rede.
“Quando o franqueado que já está dentro abre outra loja, isso faz diferença”, afirma Barreto.
Para 2026, a companhia afirma ter 150 pontos mapeados para expansão em diferentes regiões do país. A meta é chegar a 200 lojas e R$ 350 milhões em faturamento até 2028, com crescimento baseado na abertura de novas unidades e no desempenho das lojas existentes.
Qual é a origem da Mr. Cat
A Mr. Cat foi fundada em 1981, no Rio de Janeiro, e abriu sua primeira loja no Barra Shopping. O modelo de franquias começou em 1987 e sustentou a expansão nas décadas seguintes. Em 2015, a companhia recebeu aporte do fundo HIG Capital, que assumiu o controle anos depois.
A crise recente tem origem em uma combinação de fatores. A pandemia reduziu as vendas em cerca de 50% em determinado período e levou a empresa a aumentar o endividamento para manter a operação. Ao mesmo tempo, houve mudança no comportamento do consumidor, aumento de custos e pressão de despesas como aluguel em shopping centers.
Em 2024, enchentes no Rio Grande do Sul afetaram fornecedores da empresa, que concentra parte da produção no estado. Fábricas ficaram paradas e houve perda de estoque, o que interrompeu o fornecimento de alguns produtos por meses.
“Teve fábrica que ficou submersa. A gente ficou sem produto por três meses”, diz Barreto. “Isso impacta direto a loja, porque o cliente vai lá para comprar.”
Desde então, a empresa reorganizou a operação, renegociou dívidas e ajustou o portfólio. O plano agora combina pagamento dos acordos firmados, expansão da rede e ajuste do mix de produtos.
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