Mais que cinco estrelas: os hotéis que se tornaram palácios na França
(Paris)* — A distinção máxima para um hotel são cinco estrelas. Mas na França existe uma categoria acima, o Palace. Enquanto o mercado de luxo debate rankings e selos, a França criou uma categoria oficial, reconhecida e regulada pelo Estado, que vai além de qualquer sistema de classificação hoteleira existente no mundo: a Distinction Palace. Ontem, 2, foi divulgada a lista mais recente dos estabelecimentos que conquistaram esse status, consolidando um grupo de apenas 33 hotéis em todo o território francês — e em Saint-Barthélemy, no Caribe — que pode ostentar o título.
A cerimônia foi marcada pelos gerentes dos hotéis e pelo ministro do turismo francês, Serge Papin. "Se a França é um destino turístico incontornável para todos, é também graças à excelência da hospitalidade francesa, um fato mais uma vez reconhecido este ano pela distinção Palace. Podemos nos orgulhar de ver nosso país brilhar por meio de sua expertise. Por trás de todos esses estabelecimentos de prestígio existem equipes que realizam um trabalho incrivelmente exigente e cuja atenção aos detalhes é verdadeiramente notável: a essas mulheres e homens, quero dizer parabéns. Vocês podem se orgulhar de si mesmos", disse.
Hospedagens ultraluxuosas
Criada em 2010 pelo governo francês, a Distinction Palace foi criada para categorizar hotéis que transcendiam qualquer parâmetro de avaliação existente. Localizações extraordinárias, patrimônio histórico e arquitetônico singular, gastronomia de altíssimo nível, serviço personalizado, resultando em um conjunto de atributos que as cinco estrelas tradicionais simplesmente não conseguiam representar. A distinção foi então criada para identificar esses estabelecimentos. Trata-se de uma categoria oficial, com critérios próprios e raízes da cultura francesa, na qual o luxo é reconhecido como um patrimônio vivo, uma fonte de atratividade internacional e uma ferramenta no motor econômico.
A distinção é válida por três anos. Esse prazo mais curto não é acidental, mas um lembrete de que a excelência não é um estado permanente, mas um compromisso contínuo. A cada ciclo, os hotéis precisam provar, novamente, que merecem o título.
Turismo como fator econômico
Os Palaces não são apenas vitrines da elegância francesa, mas motores econômicos. Segundo dados do Observatório Palace (RYDGE Hospitality), em 2024 a taxa média de ocupação dos Palaces franceses chegou a 56%, crescimento de 3,2% em relação ao período anterior. Enquanto Paris se beneficiou dos Jogos Olímpicos de 2024, o maior crescimento veio dos hotéis nas regiões que registraram alta de 4,2%. O perfil dos hóspedes reforça o peso estratégico desses estabelecimentos, com 83% da clientela é internacional, sendo 30% proveniente dos Estados Unidos e Canadá. Os europeus, especialmente os britânicos, vêm em seguida, acompanhados de viajantes do Oriente Médio. Nos destinos de montanha, hóspedes russos e brasileiros também figuram como mercados relevantes.
Um dado especialmente expressivo é o tempo de permanência, já que hóspedes de hotéis com a Distinction Palace ficam, em média, 3,9 dias, mais que o dobro da média do setor hoteleiro francês como um todo, que é de 1,8 dia. Esse multiplicador de tempo gera um efeito de cadeia em toda a economia local.
O setor de luxo também puxou o crescimento geral da hotelaria francesa. Segundo o relatório Tendances de l'Hôtellerie 2026, da consultoria In Extenso Tourisme, o RevPAR (receita por quarto disponível) dos hotéis de luxo e upscale cresceu em média 6,5% ao ano entre 2019 e 2025 — contra 3,2% nos hotéis de médio padrão e apenas 1,8% nos econômicos.
Bulgari Hotel Paris: hotel inaugurado em 2021 integrou-se ao Distinction Palace em 2026 (Bvlgari/Divulgação)
Uma categoria tipicamente francesa
A Distinction Palace é, em essência, uma exceção francesa. Pouquíssimos países no mundo institucionalizaram uma categoria oficial acima das cinco estrelas. Na Europa, a maioria dos sistemas para por aí, com a classificação "Superior" — que não é uma categoria independente, mas apenas reconhece um nível de serviço mais elevado dentro da mesma faixa de estrelas, podendo ser aplicada de 1 a 5 estrelas, como nos casos da Suíça, Alemanha e Holanda.
Espanha e Portugal criaram redes de hotéis estatais para valorizar o patrimônio histórico, como os Paradores, mas com nível de luxo variável. O Palace é diferente, com uma política nacional de turismo focada na excelência, com processo auditável e respaldo do Estado.
Como um hotel se torna um Palace
O processo de obtenção da Distinction Palace divide-se em duas etapas principais, conduzidas pela Atout France e pela Comissão Palace.
Elegibilidade: A Atout France analisa se o estabelecimento preenche os critérios mínimos. Entre eles: estar em operação há pelo menos 24 meses (ou 12 meses após uma reforma completa que gerou interrupção das atividades); possuir classificação de cinco estrelas; ter quartos com área mínima de 26 metros quadrados; e atender a todos os critérios aprimorados da tabela de classificação cinco estrelas. Esses requisitos já impõem uma peneira bastante seletiva, exigindo, por exemplo, serviço de concierge, equipe multilíngue, serviço de manobrista, número expressivo de suítes, serviço de alimentação contínuo, spa, academia e piscina.
Segunda etapa — avaliação pela comissão: uma vez aprovado na triagem de elegibilidade, o hotel recebe a visita de dois membros da Comissão Palace, especialistas voluntários nomeados pelo ministro do Turismo, com formação em viagens de luxo, arquitetura e design, gastronomia e mídia. Após as visitas de inspeção, cada estabelecimento é convocado para uma audiência diante da Comissão completa, que delibera em uma ou mais reuniões antes de emitir sua recomendação ao ministro, que oficializa a distinção.
Os critérios de avaliação vão muito além do tamanho dos quartos. A Comissão examina indicadores econômicos que demonstrem excelência no serviço; a excepcionalidade da localização; a arquitetura histórica ou contemporânea; a estética e qualidade das instalações; a história, o patrimônio e a personalidade do estabelecimento; a personalização, precisão e continuidade do serviço; a excelência gastronômica; o caráter único do hotel; o engajamento das equipes com a busca pela excelência; a postura ambiental e social responsável; e o uso avançado de tecnologia e serviços digitais.
Experiências como o novo luxo
Os Palaces de France não estão parados no tempo. Ao contrário, eles antecipam e personificam os novos códigos do luxo contemporâneo, um luxo que se define pela atenção ao detalhe, pela ultra personalização, pela autenticidade e pelo significado, onde o bem-estar sustentável, a excelência artesanal, a criatividade e o serviço discreto prevalecem sobre a mera ostentação.
Esses hotéis fazem parte da cultura local, com eventos como prêmios literários, exibições de cinema, exposições temporárias e permanentes, shows e workshops de gastronomia e enologia. Alguns deles estendem essa troca de conhecimento para além dos muros do hotel, levando hóspedes para visitas em vinícolas em Champanhe.
A gastronomia ocupa lugar central nessa experiência. Entre os 33 Palaces, há sete restaurantes com três estrelas Michelin, em um país que tem apenas 30 casas com a honraria no total. Quase um terço dos visitantes internacionais da França cita gastronomia e vinhos como principal motivação para a viagem.
Outro ponto de inovação é o que o setor passou a chamar de "lux-scaping": escapadas de luxo pontuais, cada vez mais populares entre as gerações mais jovens, que não necessariamente se hospedam no Palace, mas frequentam seus restaurantes, spas e eventos. Os hotéis respondem a isso criando novos formatos de experiência, ampliando o alcance da marca Palace para além da hospedagem.
O Le Royal Monceau – Raffles Paris ilustra bem essa estratégia de ampliar o alcance do Palace para além das diárias. Em parceria com a ALL Accor e a Lacoste, o hotel transformou seus espaços em uma experiência imersiva temática de Roland-Garros. No lobby, uma instalação de vidro recria as quadras do torneio, os corredores ganharam fotografias históricas do tênis francês, e a varanda abriga uma quadra decorativa em tons de saibro.
A sala de cinema assinada por Philippe Starck transmite as partidas ao vivo, enquanto o Le Bar Long ganhou identidade visual assinada pela Lacoste e cardápio especial, como a sobremesa Lenglen, criada em homenagem à bolsa icônica da marca. A ativação atrai tanto hóspedes quanto visitantes externos que chegam apenas para um drinque, uma sobremesa ou uma sessão de cinema.
Le Royal Monceau – Raffles Paris: ativação com a Lacoste para Roland-Garros 2026 (Le Royal Monceau – Raffles Paris/Divulgação)
Os Palaces de 2026 - 2029
Dos 33 estabelecimentos da lista, 27 tiveram a distinção renovada e seis ingressaram no seleto grupo pela primeira vez. A próxima revisão está prevista para 2029, quando cada um desses hotéis precisará, mais uma vez, demonstrar que a excelência não é uma conquista, mas uma prática diária.
*a jornalista viajou a convite da Atout France
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