Marca de chocolate mais antiga de Gramado adere ao fitness, cresce 300% e mira R$ 60 milhões
Há 51 anos o cheiro de chocolate domina a fábrica da Prawer em Gramado, na Serra Gaúcha. Em uma das salas, máquinas moldam barras e bombons em sequência. Em outra, funcionários finalizam manualmente parte da produção, ajustando detalhes que ajudam a sustentar o discurso de produto artesanal — justamente em um momento em que a marca acelera crescimento, amplia linhas e prepara uma nova fase de expansão.
Primeira fábrica de chocolates artesanais do Brasil e pioneira do setor em Gramado, a Prawer vive um novo capítulo desde que foi comprada pelo catarinense HR Group, em 2023. Quando assumiu a operação, o grupo encontrou uma empresa faturando cerca de R$ 12 milhões por ano. Em 2025, a receita saltou para R$ 48 milhões - um crescimento de 300%. Agora, a projeção é alcançar R$ 60 milhões em 2026.
O avanço vem acompanhado de uma reformulação da operação, ampliação do portfólio e entrada em novos segmentos, como a linha wellness e produtos proteicos. Ao mesmo tempo, a empresa tenta preservar a identidade construída desde os anos 1970, quando ajudou a transformar Gramado em referência nacional do chocolate artesanal.
“A Prawer trouxe o chocolate para Gramado e ajudou a criar esse apelo turístico que a cidade tem hoje”, afirma Haroldo Ribeiro Junior, diretor do HR Group.
Como a Prawer surgiu
A história da Prawer começa muito antes do boom turístico da Serra Gaúcha.
Filho de imigrantes judeus poloneses, o dentista porto-alegrense Jayme Prawer costumava passar temporadas em Gramado desde jovem. Depois de formado, chegou a trabalhar na cidade, mas voltou para Porto Alegre antes de decidir retornar definitivamente à Serra.
Nos anos 1970, abriu, em Gramado, a Churrascaria Bela Vista e depois o Café Colonial Bela Vista. O chocolate veio quase como um hobby pensado para a aposentadoria.
A inspiração surgiu após uma viagem a Bariloche, na Argentina. Encantado com o chocolate artesanal vendido na cidade turística, Jayme percebeu semelhanças entre a região argentina e Gramado. Voltou outras vezes ao país vizinho, fez um estágio de 10 dias para aprender técnicas de produção e decidiu apostar no negócio.
No fim de 1975, em um espaço de 70 metros quadrados, surgiram as primeiras barras e ramas da Prawer. A primeira loja foi aberta em 1976, pouco antes do Festival de Cinema de Gramado, e rapidamente virou atração turística.
Décadas depois, o chocolate artesanal se tornaria um dos símbolos mais fortes da cidade.
Sede da Prawer em Gramado: empresa projeta faturar R$ 60 milhões após mudança de controle e reformulação da operação (Prawer/Divulgação)
Quem controla a Prawer hoje
A família Prawer deixou a operação há três anos, embora siga presente em outros negócios na cidade. Em 2023, a marca passou para o controle do HR Group, conglomerado catarinense com atuação em setores como entretenimento, vinhos, importação e mercado imobiliário.
Segundo Haroldo Ribeiro Junior, a compra fazia sentido dentro do ecossistema de empresas do grupo.
“Nós procuramos negócios que conversem entre si. O chocolate combina com alimentação, turismo e entretenimento. Toda operação turística acaba tendo chocolate, café ou algum produto ligado à experiência”, diz.
A nova gestão decidiu ampliar a operação rapidamente. A empresa passou a desenvolver novos produtos, importar moldes do exterior, testar blends inspirados em marcas europeias e fortalecer canais de venda para além do consumidor final.
“Nós fomos estudar como as marcas europeias de chocolate premium estavam trabalhando. Trouxemos referências da Bélgica e de outras marcas internacionais para aprimorar nossos blends”, afirma Ribeiro Junior.
A empresa também ampliou o foco no mercado corporativo. Hoje, cerca de 30% do faturamento já vem de clientes PJ, como confeitarias, empórios e operações premium que utilizam o chocolate da Prawer em bolos, sobremesas e recheios.
Segundo o executivo, a tendência é que essa fatia ultrapasse 50% nos próximos anos, impulsionada principalmente pela nova linha wellness.
O chocolate premium na era das “canetas emagrecedoras”
A aposta mais recente da Prawer mira um consumidor que come menos chocolate, mas busca produtos considerados mais sofisticados e saudáveis. A empresa prepara o lançamento de barras proteicas e produtos voltados ao segmento wellness em parceria com uma fabricante nacional de alimentos naturais. A ideia é unir suplementos e proteínas ao chocolate premium da marca.
“O consumidor passou a buscar mais qualidade e menos volume. Isso mudou bastante o mercado”, afirma Ribeiro Junior.
A mudança acontece em meio à forte volatilidade global do cacau. Nos últimos dois anos, a commodity viveu uma disparada histórica causada por problemas climáticos e quebra de safra na África Ocidental, principal região produtora do mundo. Em dezembro de 2024, os contratos futuros chegaram perto de US$ 12 mil por tonelada, um recorde histórico, segundo dados da Organização Internacional do Cacau (ICCO).
Mesmo com recuo parcial das cotações ao longo de 2026, os preços seguem elevados em relação aos padrões históricos. Na Prawer, a estratégia foi evitar mudanças na formulação dos produtos, mesmo diante do aumento de custos.
Linha de chocolates da Prawer: marca diz ter mantido padrão de qualidade mesmo com disparada global do cacau (Prawer/Divulgação)
“Nós preferimos repassar parte do aumento para o consumidor do que reduzir qualidade. O nosso cliente entende esse posicionamento”, afirma Ribeiro Junior.
A diretora administrativa da empresa, Graciela Gabriel, diz que o desafio da marca é justamente manter um posicionamento premium em meio à expansão.
“A gente precisa que o consumidor entenda o valor agregado do produto. Uma barra de 100 gramas custa quase R$ 50 porque existe qualidade, processo artesanal e matéria-prima diferenciada”, afirma.
Como crescer sem perder a essência
Apesar do crescimento acelerado nas vendas, a expansão física da Prawer acontece de forma cautelosa. Hoje, a empresa possui seis lojas próprias em Gramado, além de três pontos licenciados em Porto Alegre, um em Santa Maria e mais de 80 revendas espalhadas pelo país.
Segundo Graciela, a dificuldade de contratação de mão de obra em Gramado virou um dos principais gargalos da operação.
“Treinar uma equipe leva tempo. A gente recebe pessoas do Brasil inteiro e precisa ensinar o jeito de atender da Prawer. Hoje esse é um dos maiores desafios”, afirma.
Ela diz ainda que a empresa avalia novas oportunidades de expansão, mas sem pressa.
“Claro que existe vontade de crescer, mas isso precisa acontecer com consistência. A marca tem um posicionamento muito específico e a gente não quer perder isso”, afirma.
Na prática, o cuidado aparece também dentro da fábrica. Embora parte da produção seja automatizada, muitos processos continuam manuais, especialmente acabamento, recheios e controle de qualidade. A empresa tem 254 funcionários e já projeta uma segunda fábrica em Gramado para acompanhar o crescimento da demanda. O investimento estimado é de R$ 40 milhões.
“Gramado ajuda muito nessa conexão emocional com o chocolate. O turista visita a fábrica, faz degustação, vê como o produto é feito e cria vínculo com a marca”, afirma Ribeiro Junior.
Cinco décadas depois de Jayme Prawer trazer a inspiração de Bariloche para a Serra Gaúcha, a empresa agora tenta fazer um movimento parecido em escala maior: crescer nacionalmente sem deixar de vender a ideia de um chocolate artesanal nascido em Gramado.
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