Martine Grael e o desafio de liderar o Brasil no Sail GP 2026
Há quem diga que a Baía de Guanabara é um dos lugares mais bonitos do Brasil. Não à toa, ela é cartão-postal do Rio de Janeiro há anos: a visão do Cristo Redentor de um lado e a do Pão de Açúcar do outro criam a perfeita tela de pintura que mistura mar e natureza. O que pouca gente sabe, no entanto, é que além de bonita a posição do morro torna propícia a prática de esportes náuticos — a vela entre eles.
O espaço foi o berço de alguns dos maiores velejadores brasileiros. Robert Scheidt, cinco vezes medalhista olímpico, é um deles. Martine Grael é outra: a velejadora, bicampeã olímpica, recebeu o primeiro ouro em casa, em 2016, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.
Agora, dez anos mais tarde, a Baía de Guanabara trouxe Grael de volta às águas esmeraldas para a quarta etapa do Rolex SailGP 2026, sediado na capital fluminense pela primeira vez na história entre os dias 11 e 12 de abril. Além de medalhista olímpica, ela é a primeira mulher a chefiar uma equipe no campeonato, a brasileira Mubadala. Filha de uma das famílias mais emblemáticas do esporte, aos 22 anos ela foi reconhecida como Velejadora Mundial Rolex do Ano.
“No barco eu sou só uma tripulante, não diferencio muito homem ou mulher. Mas quando eu chego em terra e vejo todas aquelas meninas torcendo por mim, o que isso representa para o esporte, é muito incrível”, disse ela à Casual EXAME depois do primeiro dia de regatas. “A vela vem quebrando vários paradigmas nos últimos anos, era um esporte muito masculino. Para mim é uma oportunidade. Liderar um barco como esse, supertecnológico, enorme e veloz, é um desafio e tanto.”
No fim de semana, as arquibancadas e áreas VIPs do local gritaram o nome da velejadora a cada vez que o catamarã do Brasil passava próximo da costa. Grael e a tripulação do Mubadala concorreram com outras 11 equipes. A vitória da etapa do Rio de Janeiro ficou com o time Bonds Flying Roos, da Austrália. A equipe brasileira fechou a etapa em nono lugar, depois de perder as duas primeiras regatas do primeiro dia por problemas técnicos da embarcação.
A Fórmula 1 dos mares
O SailGP nada mais é que uma Fórmula 1 dentro da água, mas sem motores. São idealmente 13 equipes competindo com barcos idênticos que conseguem atingir velocidades acima dos 100 quilômetros por hora, só com a força do vento, e navegam tão rápido que chegam a flutuar sobre a água.
As provas são curtas (cerca de 12 a 14 minutos) e ocorrem próximas à costa (inshore), o que permite que os espectadores acompanhem cada manobra radical de perto. É um negócio bilionário: cada equipe aporta cerca de 60 milhões de dólares para entrar no circuito e opera sob um teto orçamentário que garante o equilíbrio da disputa.
O campeonato é considerado uma das competições mais “justas” da vela, porque todas as embarcações são exatamente iguais. A organização define, a partir do tempo e da velocidade do vento, qual será o tamanho da asa maior e a quantidade de tripulantes dentro do barco (máximo de seis, mínimo de três). Todos os dados de telemetria são compartilhados entre os times, e só há um ou dois dias para treinar usando os barcos antes das provas. O que decide a vitória é o braço e a estratégia da tripulação.
“O SailGP é proprietário dos barcos e só temos um dia de treino. É um espaço curto para colocar a técnica em prática. Chegamos a uma liga preestabelecida na temporada cinco. Corremos regatas com tripulações que entraram há mais tempo na liga, então esse é o nosso maior desafio”, disse Grael à EXAME.
A temporada 2025/2026 marca uma nova era para a competição, agora oficialmente renomeada como Rolex SailGP Championship. A marca suíça, parceira desde a fundação da liga, em 2019, assumiu o papel de title partner para reforçar valores comuns de inovação e excelência.
* A repórter viajou para o Rio de Janeiro a convite da Accor
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