'Matemática não é opinião': Monique Evelle expõe ilusão de startups que viralizam, mas não faturam

Por Daniel Giussani 28 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Matemática não é opinião': Monique Evelle expõe ilusão de startups que viralizam, mas não faturam

Em um ecossistema que aprendeu a medir sucesso por alcance, engajamento e estética de pitch, a pergunta mais básica voltou ao centro do debate: quem está, de fato, vendendo?

Foi com esse ponto de partida que a investidora Monique Evelle conduziu sua fala no NEEX Road Show 2026, em Porto Alegre.

Em vez de discutir tendências ou novas tecnologias, ela fez um movimento mais incômodo: trouxe o empreendedor de volta para a planilha. Em um momento de capital mais restrito e investidores mais exigentes, a distância entre narrativa e resultado ficou mais visível — e menos tolerada.

Esse descompasso ajuda a explicar por que a fala ganhou tração no evento. À medida que o dinheiro ficou mais caro, o mercado passou a cobrar o que antes era, muitas vezes, adiado: modelo de negócio funcionando, geração de receita e consistência na operação. Nesse cenário, a estética da inovação perdeu espaço para a lógica da sobrevivência.

“A empresa faturou nada, tá pedindo 1 milhão. Matemática não é opinião. Zero vezes 1 milhão é quanto? Quanto que a empresa vale, gente?”, afirma.

Mudança no ciclo

O recado aponta para uma mudança de ciclo: a construção de imagem já não sustenta a construção de empresa.

O diagnóstico inicial de Monique parte de um ponto sensível: a dificuldade de autocrítica. Segundo ela, muitos empreendedores ainda operam a partir de uma validação simbólica —  repertório internacional, presença digital — como se esses elementos fossem suficientes para sustentar o negócio.

Na prática, isso cria uma distorção perigosa. O empreendedor passa a acreditar que tem valor antes de provar que alguém está disposto a pagar por aquilo que ele oferece. E, nesse cenário, o ego deixa de ser combustível e passa a ser ruído.

A consequência aparece na relação com investidores, cada vez mais orientada por evidência. Sem receita, sem validação. Sem validação, sem capital.

Visibilidade x conversão

Outro eixo central da palestra foi a confusão entre visibilidade e conversão. Em um ambiente dominado por redes sociais, a capacidade de gerar atenção virou quase um fim em si mesmo. O problema é que atenção não fecha contrato.

Monique usa um exemplo direto: conteúdos virais podem ampliar alcance, mas não constroem, necessariamente, credibilidade. E, sem confiança, não há venda. “Como é que eu vou saber que você é boa se você não comunica? Precisa se comunicar. Mas comunicar do jeito certo. Dançar, às vezes viraliza, mas não converte. E a gente quer dinheiro no caixa”, diz.

A fala se conecta com uma mudança mais ampla no comportamento do consumidor. Em um cenário de excesso de oferta, o diferencial deixa de ser apenas ser visto: e passa a ser lembrado no momento da decisão.

“O novo luxo é offline. O novo luxo é manual, o novo luxo é artesanal. Se eu não confio em você, eu não vou comprar”, afirma.

Na prática, isso reposiciona a marca: menos performance para algoritmo, mais construção de reputação.

De olho na operação

Se a comunicação distorce a percepção externa, a operação revela o problema interno. Monique chama atenção para o que considera uma inversão de prioridades: empreendedores dedicam tempo ao que é visível (eventos, conexões, tendências) enquanto negligenciam o que sustenta o negócio.

Fluxo de caixa, margem, estrutura de custos e rotina financeira seguem fora do radar de muitos fundadores, mesmo sendo determinantes para a sobrevivência da empresa. “Quantos networking vocês foram hoje? Ontem, esse mês, e realmente fecharam um negócio?”, diz.

O efeito prático é uma rotina baseada em urgência. Sem processo, o time passa mais tempo corrigindo erros do que construindo avanço.

“Tem uma diferença também entre criar e consertar. A gente gasta mais tempo fazendo o quê? Consertando. Depois a gente chega em casa exausta”, afirma.

Sem espaço para planejamento, o crescimento vira acidente — não estratégia.

A crítica também atinge a forma como empreendedores lidam com erro. Existe uma tendência de associar insistência com força, quando, na prática, ela pode ser apenas falta de adaptação.

Monique diferencia dois comportamentos: persistir no objetivo e insistir no mesmo caminho. O primeiro exige flexibilidade. O segundo, muitas vezes, é guiado por ego.

“Persistência é, independente se eu vou pela direita, pela esquerda, pelo meio, o objetivo continua o mesmo. Se a pessoa fica 10 anos tentando a mesma coisa, isso é teimosia”, diz.

Em um ambiente de mudança constante, a incapacidade de ajustar rota pode ser mais prejudicial do que errar.

Lógica orientada por resultado

Ao falar de sua estratégia como investidora, Monique reforça a mesma lógica orientada por resultado. Sua preferência por investir em empresas lideradas por mulheres, segundo ela, responde a uma análise objetiva de desempenho.

“As pessoas falam assim para mim: ‘Monique, por que você fica investindo em mulheres?’ Aí eu falo assim: ‘É matemática, gente’. Se eu coloco dólar numa empresa liderada por mulher, volta mais dinheiro do que se fosse o contrário. Eu gosto de dinheiro”, afirma.

A decisão, portanto, não é construída sobre discurso, mas sobre retorno. Um critério que, segundo ela, deveria orientar qualquer escolha de investimento.

A palestra se encerra em um ponto que conecta estratégia e comportamento. Empreender, segundo Monique, não elimina o medo: ele apenas muda de forma ao longo da jornada.

“Todas têm medo. Medo de iniciar um negócio. Aí quando inicia, tem medo de crescer. Tem medo de errar em público”, diz. “A diferença é que elas fizeram com medo mesmo e pediram ajuda”, afirma.

Ao final, a mensagem que fica é menos sobre inovação e mais sobre consistência. Em um ambiente que já premiou narrativa, o pêndulo agora aponta para execução.

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