Menin no Douro: o que acontece quando um empresário pensa em gerações

Por Pedro Fadanelli 20 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Menin no Douro: o que acontece quando um empresário pensa em gerações

Quem conhece a trajetória de Rubens Menin sabe que ele não entra em nada pela metade. A MRV construiu um dos maiores impérios imobiliários do país com método, capital e visão de longo prazo. Quando Menin decidiu investir no Douro, em Portugal, trouxe a mesma lógica.

Tive o privilégio de almoçar com Fasia Braga, CEO da Vinícola Menin, e o enólogo Tiago Alves de Sousa, um dos nomes mais respeitados da nova geração portuguesa. O projeto no Douro ainda é jovem, mas a capacidade produtiva já chega a 450 mil garrafas por ano entre todas as quintas adquiridas pelo grupo na região, e o projeto se insere com cada vez mais força nos mercados de luxo internacionais, com um enoturismo crescendo em ritmo acelerado. Uma nova adega está sendo construída, e um hotel boutique, ainda em segredo, deve ser revelado em breve.

O que mais me interessa quando empresários entram no vinho não é o dinheiro, é a mentalidade. Investir em vinho é diferente de construir um imóvel: o retorno se mede em décadas, às vezes em gerações. Esse pensamento ficou evidente em cada decisão que Fasia e Tiago descreveram durante o almoço.

No painel de vinhos, dois momentos me marcaram.

O primeiro foi um rosé feito de vinhas velhas cultivadas em solos de xisto e granito em Alvações do Corgo, safra 2022. O assemblage reúne castas como Malvasia Preta, Baga, Touriga Franca, Tinta Amarela, Mourisco e algumas brancas locais históricas, o tipo de composição que só faz sentido quando você conhece profundamente cada parcela. Tiago contou que por muito tempo o rosé era pensado apenas como subproduto para completar o portfólio. O que muda quando você começa a pensar o rosé desde a vinha é exatamente o que está nessa garrafa: austeridade, salinidade, textura cítrica e um potencial de guarda que ninguém espera de um rosé. Não é o tipo de vinho para uma tarde de verão. É o tipo que vira o vinho ícone de um almoço, e que com o tempo vai revelar ainda mais do que mostra agora.

O desafio de produzir um Porto

O segundo momento foi mais raro. A Menin aposta nos vinhos do Porto em uma época em que poucos têm tido essa coragem. O consumo da categoria cai de forma consistente há anos, mas Tiago saiu caçando vinhos velhos pelo Douro para construir blends com indicação de idade, uma tarefa que envolve encontrar os líquidos certos, avaliar a qualidade e ter convicção suficiente para colocar um número na etiqueta.

Aqui vale um esclarecimento: o IVDP (Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto) certifica Tawny com indicação de idade nas categorias de 10, 20, 30 e 40 anos. Essas não são datas de colheita, mas médias de envelhecimento em madeira avaliadas por um painel de degustação. Para vinhos de maior antiguidade, o IVDP pode certificar denominações específicas como "Very Old Tawny" ou aprovar indicações de idade acima dos 40 anos para blends históricos. Foi esse caminho que permitiu à Menin lançar Portos com 50, 80 e 150 anos de média de envelhecimento.

O Porto Branco de 80 anos que degustei foi uma das provas mais marcantes dos últimos tempos. Cítricos em compota acompanhados de notas florais, iodo, especiarias, mel, frutos secos e umami, tudo sustentado por acidez altíssima e textura untuosa. Uma elegância muito distante dos Portos convencionais.

Mas o que me pareceu mais revelador não foi o vinho em si. Foi o que Fasia e Tiago disseram logo depois: a Menin quer que os enólogos do futuro consigam produzir esses blends de dentro de casa. O que hoje foi buscado "fora", caçando líquidos históricos pelo Douro, eles querem que exista no próprio estoque da vinícola daqui a 50 ou 80 anos. Estão construindo agora uma reserva de vinhos base para Porto que só fará sentido para quem vier depois deles.

Isso pressupõe saúde financeira, profissionalização e uma clareza sobre propósito que não é comum. Na maioria das empresas, planejamento de longo prazo significa o próximo trimestre. Na Menin do Douro, significa a próxima geração. E é exatamente esse tipo de compromisso, com a qualidade, com a longevidade e com o que vai ficar depois de você, que separa quem entra no vinho por prestígio de quem entra para construir algo que dure.

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