Mercado cripto precisa reagir à ameaça quântica enquanto ainda há tempo, diz gestora
A gestora especializada em criptoativos 21Shares publicou um relatório no qual diz que o mercado de ativos digitais precisa reagir, e rápido, à possibilidade de quebra por causa do avanço da computação quântica. Um atraso poderia ser fatal para toda a proposta de valor que os ativos digitais possuem.
Karim AbdelMawla e Eliézer Ndinga, da equipe de pesquisa da gestora, disseram que o poder computacional necessário para romper a proteção das redes do Bitcoin, Ethereum e Solana é elevado, mas está cada vez mais próximo de ser alcançado. “Alocadores que esperarem a ameaça se tornar visível antes de agir podem descobrir que a janela de preparação já se fechou”, destaca o relatório.
Os pesquisadores citam uma pesquisa recente do Google, publicada em conjunto com a Ethereum Foundation e a Universidade de Stanford, que mostra que esse poder computacional é cerca de 20 vezes menor do que se estimava anteriormente.
“Nenhuma máquina com essa capacidade existe hoje, mas o limiar ficou mais próximo não porque alguém construiu uma máquina melhor, mas porque os pesquisadores encontraram uma abordagem mais eficiente – e esse padrão de melhoria súbita, em vez de progresso gradual de hardware, é o que torna o prazo difícil de prever”, diz a 21Shares.
Outro agravante para a situação é que o chamado “QDay”, o dia em que um computador quântico poderá invadir os blockchains e destruir o valor dessas redes, é um prazo que se move e não fixo.
“O risco não é que uma data específica chegue, mas que avanços comprimam esses prazos mais rapidamente do que o ecossistema consegue responder”, alertam os pesquisadores.
“A pesquisa do Google de março de 2026 também mostrou que, no tipo de hardware que as equipes líderes estão construindo, a proteção de um pagamento em bitcoin poderia teoricamente ser quebrada com rapidez suficiente para interferir em uma transação antes que ela seja liquidada”, acrescentam.
O risco aumenta quando há mais dinheiro
Para a 21Shares, sistemas nos quais um pequeno número de chaves comprometidas poderia desbloquear o acesso a grandes pools de capital, como pontes de pagamento entre blockchains, contas de tesouraria compartilhadas e operadores de rede, são os que correm os maiores riscos.
“Esses pontos de concentração já apresentam risco hoje: apenas as pontes perderam quase US$ 3 bilhões desde 2022, sem qualquer envolvimento quântico”, lembram os pesquisadores.
Neste sentido, invasores poderiam copiar informações de contas expostas hoje e descriptografá-las assim que a capacidade quântica amadurecer.
Atualmente, entre 4 milhões e 6,9 milhões de bitcoins possuem números de conta visíveis, o que os torna especialmente vulneráveis a ataques quânticos. Quase todas as contas ativas de Ethereum e Solana também estão expostas por uma questão de design dessas redes.
Lado positivo
Apesar do tom apocalíptico do começo, o relatório lembra que governos e grandes empresas de tecnologia já estão se preparando para a criptografia pós-quântica e a maioria dos blockchains está tentando acompanhar.
O problema é que a atualização é complexa e os blockchains ainda estão no começo.
Segundo a 21Shares, o bitcoin deu seu primeiro passo formal com iniciativas como a polêmica BIP-360. Entretanto, a comunidade precisaria aceitar a atualização, algo que não parece perto de ocorrer.
Já o Ethereum conta com código funcional e tem cerca de dez equipes independentes trabalhando para a migração para endereços resistentes à computação quântica. O desafio, contudo, é o trabalho de engenharia, pois os sistemas de validação precisam ser refeitos.
A Solana, por sua vez, teve testes externos que provaram ser possível resolver o problema, mas não há ainda um cronograma publicado e assinaturas maiores entram em conflito com o próprio design do blockchain.
“A ameaça quântica não é uma queda de precipício – é uma migração de vários anos, rastreável, e as redes que se moverem mais cedo carregarão o menor risco de transição”, conclui a 21Shares.
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