Mercado faz vista grossa a crises e precisa se preparar, diz ex-CEO do Goldman

Por Letícia Furlan 2 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Mercado faz vista grossa a crises e precisa se preparar, diz ex-CEO do Goldman

Lloyd Blankfein, que comandou o Goldman Sachs durante a crise financeira de 2008, avalia que investidores e executivos deveriam administrar seus negócios como se um novo acerto de contas fosse apenas uma questão de tempo.

A recomendação, segundo ele, seria adotar uma precificação de mercado agressiva, forçando a venda de ativos — inclusive os considerados líquidos — para testar sua real capacidade de conversão em caixa. A lógica é simples: garantir que os preços registrados nos balanços sejam, de fato, realizáveis.

O ex-CEO afirma que o ambiente atual combina dois fatores de risco: a rápida disseminação da inteligência artificial, com potencial de desorganizar setores inteiros da economia, e o crescimento do crédito fora do sistema bancário tradicional, que ganhou escala nas últimas duas décadas.

Na sua avaliação, o intervalo prolongado sem uma grande crise desde 2008 produziu um efeito psicológico relevante. A ausência de um colapso recente teria reduzido o nível de temor no mercado e alimentado a complacência.

Ele sustenta que quanto maior for o tempo entre reavaliações profundas de risco, maior tende a ser a intensidade de uma eventual correção. Quando um choque ocorrer, afirma, muitos investidores podem descobrir que ativos mantidos a determinados preços simplesmente não encontram compradores no mercado.

As declarações coincidem com o lançamento de seu livro de memórias, Streetwise, no qual relata a trajetória que começou em habitações populares no Brooklyn e culminou no comando de uma das instituições financeiras mais influentes do mundo.

2008 como teste de sobrevivência

Blankfein assumiu como CEO em 2006, após a saída de Hank Paulson para o Tesouro americano. No ano seguinte, ao identificar perdas em um fundo administrado pelo banco, iniciou um processo intenso de revisão de risco e reavaliação diária de posições.

Enquanto Bear Stearns e Merrill Lynch foram absorvidos por concorrentes e o Lehman Brothers entrou em colapso, o Goldman atravessou a crise sem quebrar. Segundo ele, a diferença esteve na disciplina interna de testar continuamente os preços dos ativos no mercado.

A estratégia consistia em desafiar operadores a vender posições para verificar qual era o valor efetivo de mercado, e não apenas o registrado internamente.

Ele rejeita a leitura de que o banco tenha se beneficiado do colapso de rivais e sustenta que a resposta do governo americano foi necessária para estabilizar o sistema financeiro. Na sua visão, as medidas adotadas tinham como foco reequilibrar a economia, ainda que tenham sido alvo de críticas por favorecer Wall Street em um momento de perdas generalizadas para a população.

Diferentemente de antecessores que migraram para cargos públicos, Blankfein deixou o banco em 2018 sem assumir funções no governo. Ele considera que o contexto político da época não era favorável e afirma que nunca levou adiante, de forma concreta, convites para disputar a prefeitura de Nova York.

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