Mercado vê juros altos por mais tempo nos EUA
Os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, Treasuries, com vencimento em 30 anos voltaram a rondar patamares não vistos desde 2007, e a inflação global parece ter vindo para ficar.
O pano de fundo é a reunião do G7 em Paris, onde ministros de finanças e presidentes de bancos centrais das maiores economias do mundo se encontraram nesta semana com uma realidade em comum na mesa.
O choque de preços ao consumidor que muitos esperavam ser passageiro está se mostrando persistente. A guerra no Irã gerou um choque de energia, pressionando combustíveis, alimentos e custos em diferentes cadeias.
O secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Mathias Cormann, falou que "quanto mais tempo isso durar, maior será o risco de efeitos secundários".
Ele destacou, ainda, que "se observarmos aumentos salariais como efeitos secundários, os bancos centrais precisarão agir, mesmo que a perspectiva de crescimento econômico seja um pouco mais fraca."
O que sinaliza os Treasuries?
O mercado de swaps de inflação de cinco anos nos EUA também voltou a subir, acompanhando a escalada dos preços de energia, em mais um sinal de que os investidores não estão apostando numa reversão rápida da inflação.
E quanto mais tempo essa percepção se mantiver, mais os rendimentos dos títulos longos, como o caso do de 30 anos, tendem a se sustentar em patamares elevados, segundo fontes ouvidas pela agência.
A estrategista-chefe de investimentos globais da Nuveen, Laura Cooper, resumiu o impasse. "A questão é: quando o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) vai mudar de estratégia para tentar demonstrar que realmente pretende conter essas pressões inflacionárias?".
Enquanto essa resposta não vem, o mercado segue precificando juros altos por mais tempo, o que mantém os rendimentos dos Treasuries pressionados para cima, esclareceu à Bloomberg Television.
Inflação desigual no G7
Dados divulgados nesta terça-feira, 19, ajudam a entender por que o debate está tão tenso. No Japão, a economia cresceu bem acima do esperado no começo do ano, o que reforça o caminho para novas altas de juros.
No Reino Unido, o cenário é oposto. Os empregadores cortaram postos de trabalho no ritmo mais intenso desde o início da pandemia, mostrando que a pressão inflacionária já está pesando nas decisões de contratação.
No Canadá, a inflação deve ter saltado para 3,1% em abril. Mas quando se olha só para os preços que oscilam menos, como serviços e bens industriais sem energia, o quadro é mais estável.
Mas isso não consola muito, na visão dos especialistas. A alta nos preços chegou no bolso das famílias do mesmo jeito, puxada em boa parte pelo petróleo. E os bancos centrais sabem que ignorar isso tem um custo.
A dúvida é por quanto tempo esse argumento segura uma postura mais cautelosa.
Sem recessão, por enquanto
O ministro de finanças francês Roland Lescure, anfitrião do encontro, tentou equilibrar o tom na abertura das discussões. Ele disse que há "menos crescimento, mais inflação, mas até agora não estamos em recessão."
Cormann também reconheceu a resiliência da economia global, mas não deixou de fazer um alerta. "Ainda assim, há claramente um grande risco de queda."
A OCDE deve revisar suas projeções nas próximas semanas.
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