Metade dos inadimplentes no Brasil ganha até um salário mínimo
É a classe mais baixa quem mais tem dívidas em atraso, mostra o 'Mapa da Inadimplência' da Serasa. Segundo o estudo, quase metade dos devedores (48%) ganha até um salário mínimo, enquanto outros 30% recebem até dois salários mínimos. Por outro lado, os que recebem mais de 10 salários mínimos respondem por apenas 2% dos indemplentes.
A presença massiva dessa faixa de renda entre os inadimplentes era esperada, visto que cerca de 77% da população brasileira ganha até dois salários mínimos.
O que leva a isso é um comprometimento da renda com dívidas, como cartão de crédito, e contas básicas, como água, luz e telecomunicação. O estudo aponta que o brasileiro tem, em média, 70,5% da sua renda comprometida com ambas as coisas.
Para quem ganha até um salário mínimo, o comprometimento com contas básicas e dívidas chega a 90%.
“É preocupante quando olhamos o quanto o custo de vida do brasileiro está pesando no bolso”, afirma Aline Vieira, especialista em educação financeira da Serasa, que ainda destaca outro estudo da Serasa.
De acordo com a pesquisa, 70% dos brasileiros percebem aumento no custo de vida nos últimos 12 meses, com destaque para gastos com supermercado (31%), contas recorrentes (23%) e moradia (13%).
Os gastos básicos — como supermercado, água, luz e gás — passaram a pesar mais no orçamento. Contas essenciais, que antes tinham menor relevância, hoje ocupam a segunda posição entre os principais tipos de dívida, com avanço de 7 pontos percentuais. O cartão de crédito também ganhou participação, enquanto dívidas com telefonia perderam espaço, reflexo de iniciativas de renegociação com forte adesão do setor.
O valor médio de cada dívida no Brasil é de aproximadamente um salário mínimo. Como a maior parte da população vive com essa quantia, torna-se um grande desafio para o brasileiro conseguir quitar seus débitos e voltar a ficar adimplente.
Número de inadimplentes só cresce
O cenário é desafiador: o número de inadimplentes atingiu um recorde em fevereiro de 2026: 81,7 milhões de brasileiros. Comparado com fevereiro de 2016, esse montante cresceu 38%, saltando de 59 milhões naquele ano.
O valor médio por pessoa subiu de R$ R$ 5.880,02 em 2016 para R$ 6.598,13 em 2026, um aumento de 12,2%.
E mesmo em um cenário de juros em queda, com o Comitê de Política Monetário (Copom), cortando a Selic para 14,75% pela primeira vez em quase dois anos, as projeções apontam que o cenário de inadimplência não deve melhorar nos próximos meses – ele está batendo recorde atrás de recorde desde 2021.
Isso porque a correlação entre taxa de juros e inadimplência existe, mas não é o único fator que justifica. A exemplo, em 2020, quando a taxa estava em 4,5%, a inadimplência crescia para 63,9 milhões. O que explica é a soma de outros fatores.
“Inadimplência não é exclusivamente sobre o efeito da taxa de juros, mas como está o nível da atividade econômica naquele momento”, diz Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa.
A premissa é verdadeira para agora, mesmo com a taxa de desemprego nas mínimas históricas, os juros ainda estão em níveis muito restrititvos, o que pesa na redução da inadimplência.
A Serasa está menos otimista que os demais players do mercado: antes mesmo das revisões para cima da Selic, ela já projetava que 2026 terminasse com os juros em 13%. “Vamos navegar num cenário com bastante incerteza por conta do contexto político”, afirma Abdelmalack.
Perfil da inadimplência
O perfil dos inadimplentes também mudou. Se antes os homens predominavam, hoje as mulheres representam mais de 50% desse público.
“Quatro em cada 10 dizem que são responsáveis financeiramente pelas contas do lar, isso acaba explicando esse lugar de maior inadimplência. Sendo que 38% são as únicas responsáveis”, destaca Vieira. Em média, cada CPF negativado carrega quatro dívidas.
A faixa etária também se transformou. Agora, há maior participação dos mais velhos: pessoas com mais de 60 anos já representam 19% do total. Isso porque esse grupo está mais inserido no ambiente digital, mas também mais exposto a riscos como fraudes.
Em pesquisas recentes, quatro em cada 10 idosos relataram ter sofrido golpes com prejuízo financeiro, muitas vezes associados ao avanço de tecnologias como inteligência artificial.
O grande vilão de tudo ainda é o sistema financeiro (bancos, cartões e financeiras). A participação do setor financeiro na inadimplência do consumidor subiu de cerca de 38% no pré-pandemia para aproximadamente 45% no período recente.
O resultado é que as instituições estão desacelerando o ritmo de concessão de juros mais baratos. Ou seja, a população está se endividando em dívidas mais caras.
“Não devemos ter tão cedo essa reversão do cenário de inadimplência, por conta dessa concessão do crédito rotativo”, destaca Vieira.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: