Microcrédito injeta mais de R$ 4 bi na base da pirâmide a partir de SC
Eles não são banco e nem cooperativa de crédito, mas, na prática, fomentam a base da pirâmide com o microcrédito produtivo orientado. Em um país onde 63% dos microempreendedores individuais MEI) classificam como difícil o acesso a linhas de fomento, segundo pesquisa Sebrae/FGV de 2025, são as organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIPs) que sustentam uma engrenagem silenciosa e bilionária de inclusão econômica.
A partir de Santa Catarina, duas instituições — a Credisol e o Banco da Família — já injetaram juntas mais de R$ 4 bilhões na economia desde suas fundações e agora aceleram planos de expansão pelo país por meio de franquias.
O peso do setor é dimensionado pelos números da Associação Brasileira de Entidades Operadoras de Microcrédito e Microfinanças (ABCRED). Em 2024, o microcrédito no Brasil somou R$ 1,2 bilhão emprestados, distribuídos em mais de 156 mil operações, com ticket médio de R$ 8.677.
Do total concedido, 85% foram destinados ao microcrédito produtivo, voltado ao financiamento de pequenos negócios e geração de renda. O setor registrou mais de 154 mil clientes ativos, carteira ativa superior a R$ 1 bilhão e inadimplência de apenas 2,8%.
O perfil dos tomadores revela o impacto social do instrumento: 58% são mulheres, 65% atuam na informalidade, 48% estão no comércio e 73% recebem até três salários mínimos. Regionalmente, a força do Sul chama atenção: 69% da carteira ativa nacional, o equivalente a R$ 691,4 milhões, está concentrada na região.
À frente da ABCRED está Isabel Baggio, também presidente do Banco da Família. Para ela, o microcrédito é vetor estruturante de desenvolvimento. “O microcrédito produtivo orientado não é apenas financiamento. É inclusão econômica com metodologia, acompanhamento e responsabilidade social. Quando fortalecemos o pequeno negócio, fortalecemos comunidades inteiras”, afirma.
Atendimento presencial
Criada em 1999, em Criciúma, no Sul de Santa Catarina, a Credisol se aproxima da marca de R$ 1 bilhão em operações acumuladas desde sua fundação. Ao final de 2025, a instituição somava R$ 909 milhões em operações realizadas. Somente no último ano, foram liberados R$ 206,6 milhões em 25.352 operações. A expectativa é alcançar o primeiro bilhão no primeiro semestre de 2026.
“Desde o primeiro empréstimo, mantivemos a mesma essência: atender de perto, orientar e impulsionar quem vive do próprio trabalho. Chegar ao primeiro bilhão mostra que é possível crescer sem perder o propósito”, afirma o diretor Rodrigo Burigo.
A Credisol atua justamente onde o sistema financeiro tradicional não opera. Cerca de 67% da carteira é formada por empreendedores não formalizados, público que enfrenta ainda mais barreiras de acesso ao crédito.
“É um público que, em geral, não encontra portas abertas nos bancos e cooperativas. O microcrédito produtivo orientado existe para preencher essa lacuna, evitando que essas pessoas recorram a familiares, empréstimos pessoais ou ao cartão de crédito para investir nos seus negócios”, afirma o gerente executivo de Operações, Eduardo R. Manenti.
Mercado de R$ 100 bilhões
O potencial de mercado é expressivo. Dados do Global Entrepreneurship Monitor indicam 47 milhões de adultos envolvidos em alguma atividade empreendedora no Brasil. Descontados MEIs e microempresas formalizadas, restam aproximadamente 25 milhões de trabalhadores por conta própria.
Especialistas estimam que, se metade desse contingente buscasse crédito, o mercado poderia atingir R$ 100 bilhões, considerando ticket médio de R$ 5 mil. Hoje, a oferta não cobre nem 20% dessa demanda.
Esse espaço explica a forte expansão da Credisol nos últimos cinco anos, impulsionada pelo modelo de franquias, que levou a instituição a 18 estados brasileiros, quatro deles incorporados em 2025. Atualmente, a organização cobre mais de 730 municípios, com 50 escritórios espalhados pelo país.
Nem banco, nem cooperativa, a Credisol é uma OSCIP sem fins lucrativos, regulada pelo Ministério da Justiça e fora do escopo do Banco Central. Por legislação, pode operar com juros de até 3,8% ao mês. Hoje, 40% das operações são financiadas com capital próprio e 60% com recursos de instituições como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Badesc, BRDE, Daycoval, Caixa Econômica Federal e da organização internacional Oikocredit.
A metodologia privilegia proximidade e orientação. Não há exigência de abertura de conta, cartão de crédito ou avalista. O agente de crédito realiza levantamento socioeconômico, enquadramento da operação, educação empreendedora e visitas presenciais, reduzindo riscos e aumentando a sustentabilidade dos negócios.
Os dados da carteira revelam o perfil da base atendida: ticket médio de R$ 8,1 mil; 44,7% no comércio, 33,9% em serviços, 15,8% em pequenas indústrias e 5,6% no meio rural. Além disso, 60% dos clientes faturam até R$ 15 mil mensais, 90% possuem no máximo dois funcionários e 72% geram o próprio emprego. As mulheres representam 58% da carteira.
A venezuelana Elsa Rosangela Mora Peña abriu sua floricultura em Criciúma (Divulgação/Divulgação)
Foi esse modelo que transformou a trajetória da venezuelana Elsa Rosangela Mora Peña, que chegou a Criciúma com dois filhos após vender tudo no país de origem. Depois de acumular empregos, abriu um pequeno negócio de flores e presentes pela internet. O microcrédito viabilizou o primeiro ponto físico. Mesmo após sofrer um arrombamento que gerou prejuízo superior a R$ 6 mil, a loja seguiu crescendo. “Não dá para esperar condições perfeitas para empreender. É preciso acreditar em si mesmo, ter coragem e correr atrás”, afirma.
O impacto social da instituição ganhou projeção internacional em 2025, quando a Credisol participou de painéis na COP30, em Belém, a convite do BNDES e de entidades internacionais de microfinanças. “Não existe agenda climática ou social viável sem inclusão produtiva. Apoiar o microempreendedor é fortalecer comunidades vulneráveis”, destacou o coordenador de ESG Stéfano Mattei.
Onze novas unidades neste ano
No mesmo ecossistema, o Banco da Família consolida escala. Fundado em 1998 em Lages (SC), já realizou aproximadamente 450 mil operações, impactando mais de 1,9 milhão de pessoas, com a liberação de quase R$ 2,9 bilhões ao longo de sua trajetória. A instituição atua em mais de 300 cidades nos três estados do Sul. Foi eleita a melhor instituição de microfinanças do Brasil e está entre as cinco melhores organizações do mundo no setor, segundo ranking da MicroRate (2024).
Em 2025, encerrou o ano com carteira ativa de R$ 228,5 milhões, crescimento de 11,7%, e alcançou a 81ª posição no ranking Negócios em Expansão da Exame em parceria com o BTG Pactual, após crescer 23% em receita entre 2023 e 2024, superando R$ 70 milhões em faturamento.
Agora, a instituição acelera seu plano de expansão por franquias e novos escritórios. Em 2026, abrirá 11 novas unidades no Sul do Brasil, ampliando capilaridade e alcance do microcrédito produtivo.
Ao observar os números consolidados, Santa Catarina se firma como protagonista nacional do microcrédito produtivo. Em um mercado potencial de dezenas de bilhões de reais, essas organizações operam justamente onde os bancos não chegam — transformando pequenos sonhos em atividade econômica, renda, empregos e desenvolvimento local.
Não são bancos. Não são cooperativas. Mas são, cada vez mais, a engrenagem que movimenta a base da pirâmide econômica brasileira.
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