Moda e arte: uma história de colaborações que moldaram os dois universos
Na noite de ontem, 4, o tapete vermelho do Met Gala respondeu à sua própria pergunta. Com o tema "Fashion is Art", alguns dos convidados chegaram ao Metropolitan Museum of Art com looks que iam de referências históricas a intervenções performáticas.
Claire Foy inspirou-se no Madame X de John Singer Sargent, uma das telas mais famosas do acervo do próprio museu. Hunter Schafer subiu as escadas em Prada customizado inspirado no retrato "Mäda Primavesi", de Gustav Klimt. Rachel Zegler, por sua vez, apareceu de vendas nos olhos, em referência à pintura "A Execução de Lady Jane Grey", de Paul Delaroche. Já Madonna chegou em Saint Laurent customizado por Anthony Vaccarello, referência direta à obra "As Tentações de Santo Antônio, Fragmento II", do artista britânico-mexicana Leonora Carrington.
Claire Foy: atriz britânica no tapete do Met Gala 2026 (ANGELA WEISS / AFP)
O tema "Fashion is Art" não foi uma provocação nova. É uma questão que a moda vem respondendo há mais de um século. Às vezes de forma sutil, às vezes de forma escandalosa. A exposição "Costume Art", que abre ao público no Metropolitan Museum of Art em 10 de maio, vai além da pergunta e propõe uma resposta: roupa e arte compartilham uma linguagem comum sobre o corpo, o tempo e a cultura.
O ponto de partida mais óbvio é Elsa Schiaparelli, descrita por Coco Chanel como "aquela artista italiana que faz roupas", que construiu sua carreira inteira na fronteira entre moda e surrealismo. A parceria com Salvador Dalí, a mais famosa entre muitas, produziu um terno com bolsos em forma de gavetas, um vestido com uma lagosta pintada na saia e um chapéu em formato de sapato de salto alto.
Três Jovens Mulheres Surrealistas Segurando nos Braços as Peles de uma Orquestra, 1936, Óleo sobre tela (Teatro-Museu Dalí)
Em 1965, Yves Saint Laurent fez algo diferente. Não colaborou com um artista. Transferiu diretamente para o tecido as composições do pintor holandês Piet Mondrian, com suas grades pretas e blocos de cor primária, para vestidos de jersey de lã em estilo shift minimalista. O resultado foi uma das coleções mais influentes do século.
A Comme des Garçons de Rei Kawakubo foi ainda mais longe em 1997, quando colaborou com o coreógrafo Merce Cunningham no ballet Scenario. Kawakubo não apenas assinou os figurinos, retirados da coleção primavera-verão daquele ano, conhecida pelos inchaços e deformações estofadas sob o tecido, mas também os cenários e a iluminação fluorescente do espetáculo. Para Kawakubo, como para Cunningham, o objetivo nunca foi o belo. Era o desconforto produtivo.
Modelos vestindo o vestido Mondrian de Yves Saint Laurent em 1966 (David Bailey/Nationaal Archief)
Kim Jones leva a relação com a arte para o território pessoal. O designer é vice-presidente da Charleston House, a casa de campo do East Sussex onde viveram Vanessa Bell e Duncan Grant, pintores centrais do Grupo de Bloomsbury. Jones a visitou pela primeira vez numa excursão escolar e nunca parou de voltar. A coleção de alta-costura feminina que marcou sua estreia na Fendi, em 2021, foi o ponto alto dessa obsessão: uma homenagem ao grupo de escritores, pintores e teóricos que gravitava em torno das irmãs Stephen, marcada pelo romantismo decorativo e pela ideia de família por escolha.
A Louis Vuitton de Marc Jacobs fez em 2000 o que ninguém havia tentado nessa escala: convidou o artista e designer Stephen Sprouse para customizar o monograma mais reconhecível do mundo com sua caligrafia de marcador. A coleção de prêt-à-porter e acessórios com a assinatura de Sprouse sobre o LV foi descrita na época como um choque entre dois universos que não deveriam se encontrar. Abriu o caminho para décadas de colaborações entre grifes de luxo e artistas visuais, de Takashi Murakami à Yayoi Kusama.
Coleção da Louis Vuitton com colaboração do artista Stephen Sprouse, lançada em 2000 (Divulgação )
É uma história que começa em Dalí e passa por Mondrian e Sprouse. Na noite de segunda-feira, de Klimt a Carrington, o tapete vermelho funcionou como uma extensão da própria exposição.
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