Multiplan cresce mesmo com juros altos – e tem ajuda de movimento imobiliário
Mesmo com juros em patamar elevado, a Multiplan (MULT3) iniciou 2026 com números recordes. O CFO da companhia, Armando Almeida, compara o cenário a um “vento contrário”, mas relativiza o impacto no desempenho.
O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu nesta quarta-feira, 10, a taxa Selic para 14,50% ao ano, queda de 0,25 ponto percentual. Essa foi a segunda redução da taxa de juros brasileira neste ano. A Selic chegou a 15% em junho de 2025 e permaneceu no maior patamar em mais de 20 anos até março de 2026.
“Mesmo com esse segundo corte, o juro continua muito alto. Mas ele não tem nos impedido de ter um crescimento de vendas. É como remar contra a maré: dá muito mais trabalho, mas não quer dizer que você tem que andar para trás”, afirmou. Segundo ele, um ambiente de juros mais baixos teria potencial para acelerar ainda mais os resultados. “Se esse juro estivesse em 5%, estaríamos falando de vendas crescendo muito mais rápido.”
Mesmo em momentos de juros elevados, o desempenho da companhia supera a atividade econômica, segundo dados apresentados pela Multiplan em reunião pública no início do mês. Em 2015, por exemplo, quando a Selic atingiu 14,25% e o PIB caiu 3,5%, as vendas da Multiplan ainda avançaram 4,5%. O movimento se repetiu em 2025, com a taxa básica no pico de 15%, a companhia registrou crescimento de 8%, acima da alta de 2,3% do PIB.
Em 2020, as vendas caíram 37,1% com o fechamento dos shoppings, mas a retomada foi rápida. Em 2021, já com a Selic voltando a subir, o crescimento foi de 42,4%. No ano seguinte, mesmo com juros a 13,75%, as vendas avançaram mais 37,1%.
O balanço da Multiplan
A companhia reportou lucro líquido de R$ 316,1 milhões no primeiro trimestre, alta de 35,1% na comparação anual, além de recordes em receita, Ebitda e NOI. Para a empresa, o resultado reflete uma estratégia de longo prazo, baseada em expansão e reciclagem de ativos.
“Este trimestre não é um compartimento estanque; ele é o resultado de uma estratégia. Não é apenas uma fotografia, é o filme”, disse o executivo.
O avanço, porém, tem um componente não recorrente relevante. Parte do crescimento veio da venda de 10% do BH Shopping e de receitas imobiliárias do projeto Golden Lake. A receita com venda de imóveis somou R$ 300,9 milhões — mais de 14 vezes acima do registrado um ano antes.
Sobre a operação, Almeida defende que a movimentação faz parte do modelo de negócio. “Nossa atividade é explorar imóveis, seja na locação, seja na compra e venda.”
Sem esse efeito, o crescimento operacional aparece mais contido. O NOI avançou 2,5%, para R$ 477,2 milhões, enquanto o Ebitda cresceu 28,9%, para R$ 516,5 milhões. As vendas dos lojistas atingiram R$ 5,9 bilhões, alta de 7,2%, impulsionadas por expansões recentes em ativos como MorumbiShopping e Parque Shopping Maceió.
A estratégia segue baseada em ampliar áreas e aumentar fluxo, mesmo em ativos já maduros. “A revitalização e a expansão já deram resultado, e o melhor é só o começo”, afirma o CFO.
A taxa de ocupação chegou a 96,4%, mesmo com novas áreas sendo entregues, enquanto o custo de ocupação caiu para 13,8%, menor nível para um primeiro trimestre desde 2019.
No digital, o aplicativo Multi atingiu 1,7 milhão de usuários ativos. Segundo a companhia, a plataforma vem sendo usada para entender melhor o comportamento do consumidor e apoiar decisões comerciais.
Do lado financeiro, a geração de caixa permitiu reduzir a alavancagem de 2,33 vezes para 2,13 vezes (dívida líquida/Ebitda). A empresa também distribuiu R$ 140 milhões em juros sobre capital próprio no período.
O resultado reforça a consistência operacional, mas também evidencia a dependência pontual de ganhos imobiliários para impulsionar o crescimento. Para os próximos trimestres, o desafio será sustentar o ritmo com base no desempenho recorrente dos shoppings — em um cenário que ainda combina juros elevados e consumo seletivo
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