'Na China, para a China': Volkswagen tenta vencer rivais com plano bilionário
A Volkswagen, montadora que liderou o mercado automobilístico chinês por décadas, vive o seu momento mais crítico na maior potência automotiva do mundo. A expectativa é que o lucro operacional fique na casa dos US$ 500 milhões em 2026, ante um montante de cinco bilhões de euros há uma década.
O ponto-chave dessa desaceleração é a concorrência dos carros elétricos chineses, com os consumidores de lá optando, muitas vezes, por veículos da BYD e da Geely.
Agora a gigante alemã coloca em jogo uma estratégia agressiva para tentar reconquistar o público local, segundo fontes consultadas pelo Wall Street Journal.
A ideia é isolar a operação chinesa dos designs eurocêntricos e da lentidão corporativa de Wolfsburg, a sede na Alemanha. Sob o lema "na China, para a China", a montadora investiu US$ 3,5 bilhões em um complexo de desenvolvimento de última geração em Hefei, uma estrutura do tamanho de 18 campos de futebol.
"Bem-vindos à academia da indústria automotiva, onde os ciclos tecnológicos são mais curtos, a concorrência é mais intensa e as expectativas dos clientes mudam mais rapidamente do que em qualquer outro lugar", disse o CEO da Volkswagen, Oliver Blume, em visita ao país asiático.
Desenvolvimento tecnológico é vetor fundamental
O movimento marca uma quebra histórica de paradigma na indústria global. Durante décadas, a matriz alemã fornecia a tecnologia para suas joint ventures (parcerias) locais e recolhia taxas de licenciamento. Só que hoje as startups e empresas de tecnologia chinesas é que estão fornecendo o conhecimento para a Volks.
Os primeiros frutos dessa estratégia já estão nas ruas com o ID. Unyx 07, sedã equipado com computadores centrais de alta capacidade que comandam assistentes de voz e funções de inteligência artificial (IA). O tempo de desenvolvimento de novos carros ainda foi reduzido em 30%.
O grande teste para a Volkswagen não está nos laboratórios, mas sim nas concessionárias. Analistas ouvidos pelo WSJ apontam que, embora os novos modelos elétricos representem um salto em relação à geração anterior da marca, eles ainda não colocam a empresa na liderança tecnológica do setor.
Jovens enxergam Volkswagen como obsoleta
Além disso, há um desafio reputacional, pois, enquanto o consumidor chinês tradicionalmente associava a Volkswagen à qualidade, a geração mais jovem hoje enxerga a marca como obsoleta.
A companhia projeta que os investimentos comecem a gerar retornos concretos só a partir de 2027, embora admita que os lucros dificilmente retornarão aos patamares elevados do período pré-pandemia.
O consultor baseado na China e ex-funcionário da McKinsey em Stuttgart, a capital automotiva da Alemanha, Thomas Luk, ainda levantou uma dúvida. Será que a Volkswagen "já queimou praticamente todos os seus fogos de artifício? Minha pergunta é: eles estão prontos para queimar os fogos de artifício da próxima fase?"
"Estão preparados para ter os investimentos, as pessoas e a capacidade necessários para fazer tudo isso de novo? Porque é isso que os chineses fazem todos os dias", acrescentou.
Já Blume vê que o antigo modelo de negócios de desenvolver carros na Europa para o resto do mundo chegou ao fim. A reestruturação provoca cortes de vagas na Alemanha para financiar as contratações de engenheiros em Hefei.
A Volkswagen planeja exportar seus carros elétricos desenvolvidos na China para o Sudeste Asiático, Oriente Médio e América do Sul.
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