Na guerra das canetas, ganha o consumidor. As marcas, saem machucadas
O mercado brasileiro de medicamentos para perda de peso, como Wegovy e Mounjaro, ainda está concentrado na parcela mais rica da população, mas pode entrar em uma nova fase de expansão caso os preços caiam e as barreiras de confiança sejam reduzidas. É o que mostra um relatório do Citi, baseado em uma pesquisa com 676 brasileiros, que traça um retrato do mercado de GLP-1 no país.
Segundo o banco, o próximo ciclo de crescimento dependerá menos da disputa entre marcas e mais da acessibilidade financeira e da ampliação do público consumidor.
Hoje, os usuários desses medicamentos tendem a ser mais jovens, mulheres e de renda mais alta. Cerca de 41% possuem renda mensal acima de R$ 10 mil, enquanto 60% têm entre 30 e 44 anos. A maior concentração está no Sudeste.
O uso também é recente: 77% dos pacientes começaram o tratamento nos últimos seis meses, indicando que o mercado ainda está em estágio inicial de adoção.
No momento, o Mounjaro lidera entre os entrevistados, com 33% de participação, seguido pelo Wegovy, com 29%.
Preço ainda limita expansão
Apesar do crescimento acelerado, o levantamento mostra que o principal desafio para popularizar os GLP-1 continua sendo o custo.
Atualmente, a maioria dos usuários compromete entre 5% e 10% da renda familiar mensal com o tratamento. Ainda assim, os consumidores atuais aceitariam pagar entre R$ 250 e R$ 499 por mês.
Entre quem ainda não utiliza os medicamentos, a realidade é diferente: 67% só considerariam iniciar o tratamento se o custo mensal ficasse abaixo de R$ 250.
É justamente nesse ponto que o mercado começa a mudar. A EMS anunciou nesta semana a aprovação, pela Anvisa, do Ozivy, caneta injetável à base de semaglutida — mesmo princípio ativo do Ozempic e do Wegovy. A farmacêutica promete lançar o produto com preço cerca de 30% inferior ao do Ozempic, em uma tentativa de ampliar o acesso aos tratamentos.
A expectativa da empresa é colocar o medicamento nas farmácias nos próximos 30 dias. O lançamento faz parte de uma aposta mais ampla da EMS para disputar um mercado que ainda opera com forte restrição de acesso por renda.
A lógica conversa diretamente com o diagnóstico do Citi: há demanda reprimida, mas o preço ainda impede a massificação do consumo.
O Ozivy será vendido em quatro apresentações, incluindo versões pensadas para aumentar a adesão ao tratamento contínuo. A EMS estima comercializar 1,2 milhão de unidades no primeiro ano e projeta faturamento superior a R$ 500 milhões com o produto.
Além do preço, os efeitos colaterais aparecem como principal freio para novos usuários. Cerca de 47% afirmaram ter receio das reações adversas, enquanto 44% disseram preferir métodos naturais de emagrecimento.
O relatório aponta que uma recomendação médica mais enfática seria o principal gatilho para ampliar a adesão. Mais da metade dos entrevistados indicou que começaria o tratamento caso houvesse orientação direta de um médico.
Do mercado informal às pílulas
Outro ponto que chama atenção é o avanço dos medicamentos manipulados. Segundo a pesquisa, 12% dos usuários já utilizam versões manipuladas de GLP-1, atraídos principalmente pelo preço mais baixo e pela recomendação médica.
O movimento ocorre em um momento em que a demanda por esses medicamentos supera a capacidade de oferta em alguns mercados, abrindo espaço para alternativas mais baratas — ainda que envolvam debates regulatórios e de segurança.
A própria EMS afirma mirar parte dessa demanda reprimida, incluindo consumidores que recorrem a produtos importados ilegalmente ou manipulados. A companhia investiu R$ 1,2 bilhão ao longo de dez anos no desenvolvimento de sua plataforma de peptídeos e montou uma estrutura com capacidade de produção de até 40 milhões de canetas por ano.
A chegada de genéricos também aparece como um possível divisor de águas para o setor. Mais da metade dos usuários atuais disse que aceitaria trocar o medicamento por uma versão similar ou genérica caso houvesse desconto entre 15% e 30%.
O Citi também aponta as versões orais dos GLP-1 como uma das principais apostas para expansão futura do mercado.
A lógica é reduzir a resistência de pacientes que evitam medicamentos injetáveis. Embora o interesse exista, a disposição a pagar por comprimidos ainda permanece relativamente baixa, concentrada abaixo de R$ 500 mensais.
O estudo indica que o mercado brasileiro vive hoje uma fase de “canibalização” entre marcas, mas deve migrar para um novo estágio nos próximos anos.
A pesquisa também mostra que a fidelidade às farmácias ainda é limitada. Mais da metade dos consumidores afirma comprar onde encontra melhor conveniência e preço. Entre as redes mais citadas, a Raia Drogasil aparece na liderança.
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