Na infância, ele não tinha dinheiro para ter um videogame. Hoje é dono de uma empresa de games
Da Coab de Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, para o comando de um grupo industrial que fatura cerca de R$ 2 bilhões por ano. A trajetória de Gilberto Novaes, fundador do Grupo Transire, mistura origem humilde, fracassos empresariais, inovação tecnológica e uma obstinação pouco comum até mesmo no universo empreendedor.
Filho de um pizzaiolo e cozinheiro nordestino e de uma mãe semi-analfabeta, ele estudou em escola pública, sem pressão acadêmica e com poucos recursos.
“Tenho orgulho de falar de onde vim. Não dá para esquecer a origem, isso molda quem você se torna”, afirma.
A infância foi marcada por limitações materiais. “Meu sonho era simples: casa própria, um sítio, dois carros e, quando criança, um videogame que eu não podia comprar.” Décadas depois, Novaes acabou adquirindo justamente a fabricante brasileira Tectoy – uma empresa de videogames e equipamentos eletrônicos.
Além da Tectoy, Novaes tem no grupo empresas de outros segmentos, como produção de maquininhas de pagamento, com fábrica na Zona Franca de Manaus.
Uma delas atua em toda a cadeia das maquininhas (POS) — desde a fabricação de equipamentos até software, logística, manutenção, locação e soluções digitais para o varejo e instituições financeiras, outra empresa de desenvolvimento de software, logística e locação e serviços financeiros tecnológicos. Mas para construir esse grupo, o executivo contou com a resiliência e a necessidade de empreender no Brasil.
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Da dificuldade escolar ao empreendedorismo
Novaes conta que sempre teve dificuldades na escola e só recentemente recebeu diagnóstico de TDAH.
“Eu me achava burro. Hoje sei que não era falta de inteligência, era uma questão de aprendizado.”
Mesmo assim, formou-se em tecnologia de processamento de dados e iniciou a carreira como office boy, função que exerceu durante quatro anos enquanto estudava. A experiência, segundo ele, ensinou muito sobre resiliência:
“Comecei lá embaixo, pegando fila em banco, trabalhando com chuva ou sol, mas sempre pensei em ter meu próprio negócio.”
A primeira tentativa empresarial veio ainda jovem e terminou em falência. Ele perdeu todas as economias e precisou recomeçar do zero.
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A aposta nas maquininhas que mudou tudo
A virada começou em 1997, quando entrou no nascente mercado de meios de pagamento eletrônicos. Trabalhou com desenvolvimento e suporte técnico para terminais de pagamento (POS), passando por empresas do setor até decidir empreender novamente.
Sem capital, fechou em 2009 um acordo com um fabricante chinês de equipamentos. Nos primeiros três anos, não vendeu nenhum produto. A situação financeira ficou crítica.
“Teve viagem em que eu não tinha dinheiro para pagar hotel. Dormia em aeroporto e comia no avião. Foi um perrengue enorme.”
A mudança veio quando ele sugeriu criar uma maquininha sem fio para resolver falhas frequentes nos modelos com cabo. O produto viralizou entre empresas do setor e abriu portas para clientes como PagSeguro e outras adquirentes.
O salto foi rápido:
Foi nesse período que nasceu oficialmente o Grupo Transire.
“O crescimento foi tão rápido que em 2015 montamos a fábrica em Manaus. Eu não entendia nada de indústria, mas precisava acompanhar a demanda”, diz o CEO.
Crescimento, indústria e liderança de mercado
Hoje a empresa conta com cerca de 2.300 funcionários diretos, até 15 mil empregos indiretos na cadeia produtiva e faturamento anual próximo de R$ 2 bilhões.
A instalação da fábrica na Zona Franca de Manaus foi estratégica, por incentivos fiscais e proximidade com a cadeia eletrônica.
“Assumimos a liderança do mercado brasileiro de equipamentos por quase uma década”, afirma o executivo que depois começou a investir em outros setores como games, logística e e softwares.
Expansão internacional e novos negócios
Neste ano, após cerca de 11 anos de atuação no mercado, o Grupo Transire entra em uma nova fase de crescimento com foco na internacionalização. A companhia já avança na expansão comercial na Europa e na América Latina e prepara a entrada em novos mercados estratégicos, como Estados Unidos, África e Canadá. O movimento acompanha a estratégia de diversificação do negócio, que busca ampliar a presença global principalmente com soluções de tecnologia, software e serviços ligados aos meios de pagamento. A expectativa é que essa nova etapa gere cerca de 100 vagas fora do Brasil já no primeiro ano, com potencial de crescimento conforme a operação internacional ganha escala.
“A estratégia inclui reduzir dependência de hardware e ampliar serviços digitais”, diz o CEO. “Estou trabalhando hoje para 2027 e 2028. Meu time cuida do presente, eu desenho o futuro.”
A expectativa é manter crescimento do faturamento próximo de 30% ao ano, impulsionado principalmente por software e serviços.
O conselho para quem vem de origem humilde
Apesar do crescimento empresarial, Novaes reforça a importância das raízes para quem deseja empreender no Brasil.
“Eu já quebrei, perdi tudo e tive que recomeçar. Faz parte do caminho de quem empreende", diz o CEO. “Não ceda a facilidades. Pode parecer mais rápido, mas o preço vem depois. Ter valores sólidos permite dormir tranquilo e crescer de forma sustentável.”
A trajetória do empreendedor, que já dormiu em aeroportos, perdeu tudo e reconstruiu a carreira, mostra como inovação, resiliência e visão estratégica podem transformar histórias improváveis em negócios bilionários. E, no fim, há um simbolismo que ele mesmo destaca.
“Eu não imaginava que aquele garoto que não tinha dinheiro para comprar um videogame se tornaria dono de uma fabricante de games e de um grupo bilionário”, diz Novaes. "Tudo é possível quando você acredita e não desiste".
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