'Não podemos contar com a queda da Selic', diz CFO da Casas Bahia
Mesmo diante das expectativas de alívio nas taxas básicas de juros ao longo deste ano, o Grupo Casas Bahia segue trabalhando com um cenário de Selic elevada para conduzir seu Plano de Transformação, iniciado em 2023. Em entrevista à EXAME, o CFO da companhia, Elcio Ito, afirmou que a varejista não pode depender de uma queda dos juros para voltar ao lucro.
"O nosso plano base é uma Selic permanecendo muito alta. Não podemos contar com a Selic no nosso plano, porque ninguém garante que ela vai cair", disse o executivo. "O cenário ainda é muito incerto".
O mercado, contudo, projeta uma redução gradual da taxa de juros após ela atingir 14,5% ao ano com os dois cortes de 0,25 ponto percentual em março e abril. Apesar da redução, o peso da Selic foi apontado como um dos principais fatores de pressão sobre o resultado da varejista no 1° trimestre de 2026, divulgado na noite desta quinta-feira, 13.
A companhia reportou prejuízo líquido de R$ 1,064 bilhão entre janeiro e março, pior do que a perda de R$ 408 milhões registrada um ano antes. Apesar disso, houve melhora em relação ao prejuízo de R$ 1,529 bilhão do quarto trimestre de 2025.
O resultado financeiro líquido também ficou negativo em R$ 1,2 bilhão no período, pressionado principalmente pelo avanço do CDI médio, que passou de 12,94% no primeiro trimestre de 2025 para 14,86% neste ano, já que a Selic começou o ano em 15%.
Ito destaca que, cada ponto percentual de redução da Selic, tem impacto relevante nas contas da empresa. "A cada um ponto percentual de queda da Selic, são aproximadamente R$ 150 milhões a menos em despesas financeiras por ano", afirmou. Mas esse é só o impacto direto, conforme advertiu. "Juros menores aumentam a demanda, ampliam o crédito e reduzem a inadimplência. O efeito é exponencial", acrescentou.
Ainda assim, a estratégia da empresa não considera um cenário benigno como premissa. A ideia, segundo o CFO, é que a Casas Bahia consiga voltar ao lucro mesmo em um ambiente de juros elevados, por meio da melhora operacional e da redução dos spreads de crédito. "Nosso plano de chegar ao lucro é mesmo com a Selic alta", disse. "O foco é continuar evoluindo operacionalmente e reduzir o custo financeiro".
Casas Bahia está focada em geração de valor e rentabilidade
A empresa vem executando há três ano um plano de transformação focado em reforço do balanço, eficiência operacional e concentração em categorias consideradas estratégicas, como eletrodomésticos, móveis e linha branca. Ito afirma que o mercado demonstrava forte ceticismo quando a reestruturação começou, especialmente sobre a capacidade de execução do plano.
"Havia um grande ceticismo do mercado em relação à execução dessa transformação", afirmou. "Hoje, a gente já entregou as principais alavancas do plano e vê uma clara evolução operacional e uma grande transformação do balanço".
Segundo o executivo, a companhia agora entra em uma nova fase, mais voltada para geração de valor e rentabilidade. "A gente passa de uma fase de maior desafio de balanço para uma fase de criação de valor da companhia", disse. "Queremos criar uma empresa que consiga gerar resultado positivo mesmo em um ambiente macroeconômico difícil".
Ito afirmou que o grupo continuará apostando no crediário, nas lojas físicas e na logística de produtos pesados como diferenciais competitivos. Segundo o diretor financeiro, o consumidor brasileiro ainda depende de crédito para adquirir itens de maior valor agregado, como geladeiras e televisores.
A companhia também pretende aprofundar parcerias com marketplaces, incluindo o Mercado Livre, aproveitando sua estrutura logística para entrega de produtos volumosos. "Nossa logística de pesados é uma fortaleza".
Fim da taxa das blusinhas 'passa ao largo'
Questionado sobre o impacto do fim da chamada "taxa das blusinhas"— imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 —, Ito minimizou os efeitos para a Casas Bahia.
Segundo o CFO, os produtos mais afetados pela medida não fazem parte do foco estratégico da companhia. "Isso passa ao largo da gente", disse. "São produtos de valores muito baixos, que não estão no nosso core".
O executivo reforçou que a companhia deixou de disputar categorias de tíquete menor e de forte concorrência com plataformas asiáticas desde o início da reestruturação. "Não estamos avançando no mercado das blusinhas. Esse não é o nosso mercado", afirmou. "A gente definiu lá em 2023 quais seriam as categorias prioritárias e seguimos focados nelas".
Em relatório recente, o BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) alertou, no entanto, que a competição das plataformas estrangeiras já se espalha para categorias além do vestuário, incluindo acessórios eletrônicos, itens de decoração, beleza e artigos esportivos — setores que também compõem parte relevante do varejo discricionário no Brasil.
Mesmo assim, Ito afirma que a prioridade da Casas Bahia segue sendo a execução da estratégia de longo prazo.
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