Não vai mudar voto para Lula, dizem motoristas de Uber e táxi sobre programa do governo

Por institucional 23 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Não vai mudar voto para Lula, dizem motoristas de Uber e táxi sobre programa do governo

Muita expectativa, dezenas de dúvidas e uma única certeza: o novo programa de financiamento para motoristas de Uber, 99 e táxi não é garantia de apoio automático da categoria ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa à reeleição.

Lançada no início da semana, a medida promete até R$ 150 mil em crédito para pagamento em até 72 meses com uma taxa de juros próxima a 0,99% ao mês.

A reportagem da EXAME conversou com pelo menos sete trabalhadores de aplicativo e taxistas de São Paulo nos últimos dias para medir a temperatura da reação ao programa.

Motoristas ouvidos afirmam que o programa pode ajudar a trocar veículos e reduzir custos mensais, mas rejeitam a ideia de que a medida tenha potencial automático de converter apoio eleitoral a Lula. Em especial, preocupam-se com aqueles que não têm acesso a crédito e que, no final, a medida amplie o saldo dos — muitos — já endividados.

Hoje, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem mais de 1,7 milhão de trabalhadores por aplicativo. Mais de 1,2 milhão são motoristas. Apesar do tamanho da categoria, pesquisas e levantamentos eleitorais recentes mostram um grupo pulverizado politicamente e com resistência relevante ao governo petista.

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Endividados — e novas dívidas

A primeira conversa aconteceu no dia do lançamento da medida, enquanto a reportagem se deslocava até a Casa de Portugal, no centro da cidade de São Paulo.

Daniela, motorista de Uber desde 2016, estava tão ansiosa pela medida que queria acessar o evento para ter mais detalhes. Com muitas dúvidas, seu principal questionamento era sobre a liberação da medida para quem não trabalhava realmente como motorista. "100 corridas em um ano [corte do programa para acessar as linhas de crédito] é muito pouco", disse. "Pode ser que quem realmente precise fique de fora."

A motorista afirmou que o assunto estava movimentando os grupos de WhatsApp de motoristas. "O pessoal está discutindo e falando que o Lula está tentando comprar a gente", afirmou. "Eu falei: 'É só usar o benefício, não é obrigado a votar em ninguém'."

Em grupos abertos de Facebook de motoristas de Uber e 99 monitorados pela EXAME, a maioria dos comentários a respeito do programa não é positiva a Lula — e a medida, é claro, não tem o rigor estatístico necessário, mas dá pistas sobre o ânimo dessa categoria.

Muitos dizem que vão utilizar o programa, mas votarão em Flávio ou outro nome. Outros questionam o fato de a medida ser lançada às vésperas de eleição, enquanto uma parte também fala sobre a inadimplência da categoria.

Move Aplicativos: em grupos, motoristas afirmam que vão usar o programa, mas o seu voto não mudará (Facebook/Reprodução)

Luciana Andrade, cadastrada na Uber há cinco anos, vê o programa como tentador, mas um risco para os motoristas, que podem acabar se endividando. Caso um motorista compre um carro no valor máximo de R$ 150 mil, terá uma parcela de um pouco mais de R$ 3 mil.

O governo defende que, para alugar um carro do mesmo modelo, eles iriam gastar pelo menos R$ 6 mil por mês.

"É um incentivo para os motoristas, mas, ao meu ver, o motorista Uber precisa mesmo é que os valores das corridas sejam mais justos e não algo que te prenda em uma dívida. O risco de perder o veículo é algo que precisa ser pensado também", diz.

Luciana acrescenta ainda que não vê que os motoristas vão mudar de voto se utilizarem o programa. "Não, ainda que eu optasse por me arriscar nesse financiamento", afirma.

Um motorista, que preferiu não se identificar, foi categórico ao resumir no que pode mudar a decisão de voto de outros trabalhadores de aplicativo: a liberação para inadimplentes. "Se liberar para negativado, com certeza vai influenciar a votação. Caso contrário, não", dia.

Gilberto, taxista de 40 anos, que trabalha no ponto do Metrô Artur Alvim em São Paulo, também levantou a questão da inadimplência de motoristas de aplicativo. "Geralmente os caras não têm nome para comprar carro. Como que eles vão comprar por esse programa", conta.

Ele criticou ainda a falta de critério para a concessão do benefício. Para ele, qualquer um poderá fazer 100 corridas em algumas semanas e conseguir as melhores condições.

"Esses caras com um monte de frota de carro alugado... É capaz de colocarem parentes para fazer 100 corridas e conseguir o crédito", afirma, sem se dar conta de que o benefício vale apenas para quem fez 100 corridas nos últimos 12 meses anteriores ao lançamento da medida.

O programa não garante o financiamento, uma vez que os bancos credenciados realizarão análise de crédito dos interessados e podem recusar ou aprovar a linha.

Em vídeo publicado no Instagram, o ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, reforçou essa informação e orientou que quem tem nome sujo "aproveite" o Desenrola 2.0 para acabar com as dívidas e utilizar o Move.

'Um carro melhor'

Márcia, ex-produtora de cinema e Uber há mais de um ano, estava animada com a chance de ter um carro melhor. Ela deixou a produção de grandes filmes nacionais, em que tinha contato com atores como Lázaro Ramos, para transportar desconhecidos pela capital paulista por liberdade e mais tranquilidade.

Durante a nossa viagem, da zona sul à região central de São Paulo, a motorista dirigia um Fiat Mobi.

"Quero transferir esse financiamento para minha filha, que teve bebê agora, e pegar um carro novo, para quem sabe fazer até Uber Black. Será que dá problema já ter um financiamento?", questionou.

Questionada sobre se essa medida ajuda o governo, a motorista diz que o Lula "sempre fez coisas para quem precisa" e mostrou rejeição a qualquer nome da família Bolsonaro e lembrou perdas de familiares durante a pandemia. "Com ou sem esse programa, não voto em ninguém com aquele sobrenome [Bolsonaro]", afirma.

Bruno, taxista paulista, afirmou que vê a medida como "jogada política", mas como um plano bom. "É uma jogada de mestre. Mas tem um monte de informações e ninguém sabe de nada", diz.

Entre as principais dúvidas está a duração do programa. O taxista aponta ver ganhos enormes para Lula, porque motoristas de direita aprovam a medida. “Cada dia que passa, fica claro que não tem lado bom [na política]”, diz.

O ponto de atenção, para ele, está no conjunto de regras anunciadas para motoboys, que reduziram a idade mínima para o exercício da profissão e retiraram a obrigação de curso. "Moto é uma arma, cara", disse.

Uber e táxi

Carla Anhe, motorista há seis anos, falou que pretende se inscrever e aproveitar as taxas diferenciadas do programa. Ela afirma que essa medida iguala a categoria aos taxistas, que têm algumas vantagens, como isenção do IPVA e desconto de 30% na compra de veículos.

"Precisamos muito disso. Quero ver um BYD elétrico para ter mais economia. As parcelas serão menores que um aluguel. Vai valer muito a pena", disse.

Para ela, a medida não muda muito a sua visão sobre o Lula, que já era visto como alguém que "ajuda os mais necessitados". Sobre a eleição, Carla vê como uma faca de dois gumes para Lula. "Acho que até pode ajudar, mas tem o outro lado também de estar usando R$ 30 bilhões de dinheiro público. Isso para as outras pessoas pode ser ruim também", disse.

As falas contrastam com o discurso de Leandro Cruz, presidente da Federação Nacional dos Sindicatos dos Motoristas de Aplicativo, durante o anúncio, mais alinhado ao governo. Cruz elogiou a gestão petista e disse que "foi por isso que fez o L" e que "fará o L novamente", em alusão a um novo voto no petista.

Em meio à crise da principal campanha de oposição, Lula tenta conquistar parte de eleitores, mas vê que, mesmo atendendo a algumas das demandas mais solicitadas, um possível ganho eleitoral esbarra na polarização.

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