Natura gera R$ 86 bilhões em impacto positivo e antecipa meta em 5 anos
A Natura fechou 2025 com um número que levou mais de uma década para construir: para cada R$ 1 de receita, a empresa gerou R$ 4 em valor para a sociedade. No total, isso representa R$ 86,85 bilhões em impacto positivo no ano — e uma meta que só estava prevista para 2030 cumprida com cinco anos de antecedência.
O resultado foi medido pelo IP&L — Integrated Profit & Loss, ou Lucros e Perdas Integrados em tradução literal —, uma metodologia própria que a Natura começou a desenvolver em 2014 e formalizou em 2022. A ideia central é transformar em valores monetários o que o mercado costuma tratar como intangível: o impacto da empresa sobre o meio ambiente, sobre as comunidades com que trabalha e sobre as pessoas que movem o seu negócio.
"Uma das crenças da Natura é que a empresa é um organismo vivo e que tudo é interdependente", diz Ana Costa, vice-presidente de Sustentabilidade, Jurídico e Reputação Corporativa da companhia, que conversou com a EXAME com exclusividade. "A gente começou muito a pensar em como medir esse impacto, porque é uma coisa difícil — e ninguém falava disso ainda de forma pioneira."
O IP&L organiza o impacto da Natura em quatro dimensões: capital humano, capital social, capital ambiental e capital financeiro. Dentro de cada uma, uma série de indicadores compõe o que Ana Costa chama de "mandala" — uma visão integrada do que a empresa recebe e do que devolve para cada um desses sistemas.
Os quatro capitais da Natura
No capital ambiental entram, por exemplo, o uso de álcool orgânico nos produtos e o custo e o retorno associados a essa escolha. No social, o pagamento de tributos — que, na lógica da metodologia, revertem em benefícios para a sociedade. No humano, entra o conceito de renda digna, que vai além do salário mínimo legal e mede o que de fato garante qualidade de vida para os trabalhadores próprios da empresa. O financeiro, com todos os seus índices convencionais, também compõe o cálculo.
O valor gerado saltou de R$ 2,5 para R$ 4 — referência histórica da companhia, que por anos divulgou o índice anterior como seu resultado consolidado e buscou formas de aumentar esse número — e foi puxado por alguns fatores combinados. Entre eles, o Instituto Natura ampliou investimentos em educação, com programas de alfabetização de jovens e adultos e de letramento em outros países além do Brasil.
Além disso, a renda das Consultoras de Beleza (as revendedoras dos produtos da marca nas comunidades brasileiras) cresceu em parte pela própria performance do negócio e em parte pela integração completa entre as redes Natura e Avon — 2025 foi o primeiro ano com 100% dos países consolidados após a fusão. E a base de pesquisa que sustenta o cálculo foi ampliada de 1.500 para 4.000 respondentes, o que permitiu uma alocação mais precisa entre tempo dedicado e renda gerada.
"Quando falamos de R$ 2,5 para R$ 4, ficamos super orgulhosos", diz Ana Costa. "Mas é uma fotografia de um ano. O trabalho difícil agora não é atingir a meta, mas sim manter o padrão."
Consultoras no coração do negócio
Nenhum número no IP&L é mais central do que o das consultoras de beleza. São 2,8 milhões de mulheres na América Latina — 1,5 milhão só no Brasil — que vendem os produtos Natura e Avon de porta em porta. A venda direta delas responde por cerca de 90% do faturamento da companhia. O que acontece com essas mulheres, portanto, é simultaneamente um dado social e um dado de negócio.
A Natura mede isso pelo IDH das consultoras — um índice próprio, inspirado no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, que acompanha renda, saúde, educação e cidadania. A lógica é que o desenvolvimento dessas mulheres e a saúde financeira do negócio são proporcionais — e que investir em uma é também investir na outra.
"A gente só cresce porque elas crescem", diz Ana Costa. "A prosperidade dessas mulheres está diretamente proporcional ao bem-estar e à saúde financeira do nosso negócio."
Os dados sustentam a afirmação. A renda das consultoras cresce conforme elas avançam no plano de carreira da empresa, que vai de "consultora semente" até o nível diamante. Quanto mais experiente e produtiva a consultora, maior a renda e maior o peso dela no cálculo do IP&L. Com uma base de pesquisa maior em 2025, a Natura conseguiu capturar com mais precisão esse grupo de maior produtividade — o que também contribuiu para o salto no índice.
Além da renda, o impacto das consultoras se mede em outras dimensões. Costa cita pesquisas que mostram o papel do empreendedorismo feminino na autonomia econômica de famílias inteiras — já que em muitos casos, essas mulheres são as principais provedoras. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, apesar de ganharam 30% a menos, as mulheres hoje chefiam a maior parte dos lares, com 40 milhões de famílias sob a sua liderança.
A empresa também conecta o acesso a crédito oferecido às consultoras a saídas de situações de violência doméstica e ao exercício de direitos civis, uma vez que a conquista da renda própria ou da renda complementar representa a conquista de autonomia para muitas mulheres. Uma pesquisa recente da companhia mapeou até mesmo a participação de consultoras como candidatas em eleições municipais, uma vez que elas se tornam um espécie de líderes comunitárias, com grande capacidade de capilaridade em suas comunidades.
Ferramenta de gestão do impacto social
Um ponto que Ana Costa faz questão de sublinhar é que o IP&L não é um exercício de comunicação. A ferramenta é usada internamente como critério de aprovação de projetos: antes de qualquer decisão no comitê executivo ou no conselho, a empresa avalia o impacto esperado sobre o índice — incluindo impactos negativos, que precisam ser compensados.
"Quando a gente aprova um projeto, leva esse resultado. E tem um índice que a gente coloca: o quanto vai afetar o meu IP&L", diz a executiva. "Somos humanos, somos uma empresa — às vezes vai ter impacto negativo. Mas como a gente trabalha para compensar?"
Essa função de bússola interna é, segundo a vice-presidente, o que diferencia o IP&L de um indicador de ESG convencional. "Sustentabilidade para ser sustentável no mundo corporativo tem que ter essa transversalidade", diz ela. "Tem que tocar em todas as áreas da empresa e ser uma ferramenta de negócio — não só um KPI ou uma linha de budget que você apresenta no final do dia."
Para além da Natura
O próximo passo da companhia é levar a metodologia para fora de si mesma. A Natura está aplicando o IP&L junto à sua rede de fornecedores, dentro do que chama de Aliança Regenerativa. E acaba de lançar o The Filter, uma plataforma online e gratuita que disponibiliza a calculadora do IP&L para qualquer empresa que queira usar.
"Não pode ser nosso sonho que isso seja só uma ferramenta Natura", diz Ana Costa. "A gente quer expandir isso. A mudança tem que ser sistêmica — não adianta só a Natura fazer." A Natura não fica com os dados das empresas que usarem a ferramenta, disponibilizada de forma gratuita a partir deste link. A plataforma ainda concorre a um prêmio socioambiental internacional em Cannes ao longo dos próximos dias.
A visão de longo prazo da companhia é chegar a 2050 com impacto positivo em todos os quatro capitais simultaneamente — sem precisar compensar ganhos em um com perdas em outro. Por ora, o índice de 4 para cada real de receita representa o melhor resultado da história da empresa, e a prioridade no trabalho é chegar a 2030 mantendo esse patamar antes de pensar em aumentar a meta.
E também, segundo Ana Costa, um lembrete de que a fotografia muda a cada ano. "A gente comemorou chegar a quatro. A nossa ideia é manter isso — e gerar mais, se necessário. Com a humildade de saber dos desafios e de continuar inovando", explica.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: