Natureza e resiliência: o novo imperativo dos negócios
*Por Luis Meyer
As mudanças climáticas deixaram de ser uma preocupação distante para se tornarem parte do cotidiano dos brasileiros. As ondas de calor estão mais intensas, as secas prolongadas, as enchentes e as alterações no padrão das estações do ano já impactam diretamente a vida da população.
Pesquisa da Quest publicada em 2025 mostra que nove em cada dez brasileiros já sentiram algum efeito das alterações climáticas onde vivem. No setor empresarial, os sinais também são cada vez mais evidentes.
Eventos extremos têm provocado interrupções operacionais, perdas financeiras, danos à infraestrutura e impactos sobre cadeias produtivas inteiras.
Ainda assim, existe um paradoxo preocupante: embora 74% das empresas brasileiras já tenham sofrido efeitos relacionados ao clima, apenas 38% investem efetivamente em ações de prevenção e adaptação, segundo levantamento recente da corretora Marsh com empresas de diferentes portes e setores.
A ciência vem alertando que o agravamento da crise climática deve ampliar a frequência e a intensidade desses eventos nos próximos anos. Isso significa que as perdas econômicas, sociais e ambientais tendem a crescer caso não avancemos em estratégias robustas de adaptação — uma necessidade cada vez mais urgente.
De acordo com o relatório Inabitável: Enfrentando o Calor Urbano Extremo na América Latina e no Caribe, divulgado pelo Banco Mundial no início de maio deste ano, o calor extremo reduz a produtividade do trabalho, aumenta os custos de saúde e já desacelera a atividade econômica em muitas cidades
As projeções do estudo indicam perdas de até 5% do PIB nas áreas urbanas desses territórios nas próximas décadas.
Por isso, além dos esforços indispensáveis para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, torna-se urgente incorporar a adaptação climática à tomada de decisão. A ONU tem alertado que os investimentos globais em adaptação ainda estão muito abaixo do necessário.
Adaptar-se às mudanças climáticas significa incorporar a análise de vulnerabilidades do clima ao processo de análise de riscos corporativos, à gestão, aos investimentos, à inovação, à expansão dos negócios e à relação com fornecedores, territórios e comunidades.
Não se trata apenas de proteger ativos físicos próprios, mas de fortalecer a resiliência de toda a cadeia de valor e do ambiente do qual ela depende.
É evidente que nenhuma companhia conseguirá enfrentar um desafio dessa magnitude de forma isolada. A adaptação exige cooperação entre empresas, governos, academia, organizações da sociedade civil e comunidades locais, sempre orientada pela melhor ciência disponível.
Talvez um dos exemplos mais emblemáticos dessa necessidade de cooperação esteja relacionado à segurança hídrica. Projeções da Agência Nacional de Águas (ANA) indicam que a disponibilidade hídrica de determinadas regiões do Brasil pode sofrer redução de até 40% nas próximas décadas, afetando o abastecimento urbano, a produção de alimentos, a geração de energia e as atividades de diversos setores econômicos.
É justamente nesse contexto que surge o Movimento Viva Água, idealizado pela Fundação Grupo Boticário. Criado em 2019, no Paraná, reúne empresas, poder público, organizações da sociedade civil e comunidades locais para promover a segurança hídrica por meio da conservação e restauração de ambientes naturais, do fortalecimento do empreendedorismo sustentável e da implementação de Soluções Baseadas na Natureza.
Hoje, atua também no Rio de Janeiro, na divisa de São Paulo e Minas Gerais (Sistema Cantareira) e na Bahia, com o objetivo de ampliar a resiliência climática e contribuir para a proteção de áreas estratégicas para o abastecimento de grandes regiões metropolitanas.
A proposta parte de uma compreensão cada vez mais evidente: conservar e restaurar ecossistemas não é apenas uma agenda ambiental, mas uma necessidade de adaptação e redução de riscos.
Florestas, áreas úmidas, nascentes e encostas preservadas ajudam a regular o ciclo da água, reduzir enchentes, conter erosões, amenizar temperaturas extremas e proteger cidades e infraestruturas.
As Soluções Baseadas na Natureza vêm se consolidando também em ambientes urbanos. Jardins de chuva, parques lineares, renaturalização de rios, lagoas e bacias de retenção, recuperação de encostas e restauração ecológica demonstram que a natureza pode funcionar como infraestrutura essencial para tornar as cidades mais resilientes e seguras para a população.
No Grupo Boticário, essa visão tem orientado ações efetivas. O Plano de Transição e Adaptação Climática do Grupo é a principal ferramenta para integrar estratégias de mitigação e adaptação às decisões de expansão, inovação e operação da companhia, bem como identificar e monitorar riscos físicos associados às mudanças do clima.
A empresa também foi a primeira a aderir à Carta Compromisso Empresarial pela Adaptação à Mudança do Clima — iniciativa recém-lançada pelo Hub de Adaptação Empresarial da Fundação Getúlio Vargas, que incorpora a "lente climática" de forma transversal às decisões de negócio.
Cada organização pode contribuir para acelerar a construção de uma economia mais resiliente, capaz de gerar prosperidade em equilíbrio com a natureza. A adaptação climática não pode mais ser tratada como uma agenda secundária.
Ela será decisiva para proteger pessoas, fortalecer negócios e garantir cidades e territórios mais preparados para os desafios do novo cenário global.
*Luis Meyer é diretor executivo da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e diretor de ESG do Grupo Boticário
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