Negociações com Irã são 'cozinha lenta', não fast-food, diz especialista
As negociações entre os Estados Unidos e o Irã para chegar a um acordo e encerrar a guerra atual são complicadas e levarão tempo, mas há espaço para acordo, avalia Daniel Benaim, ex-vice-secretário de Estado dos EUA para a Península Arábica,
"É um processo de cozinha lenta, não de fast-food. E acho que o lado americano tem uma quase aversão a este tipo de envolvimento, à complexidade de detalhes e à necessidade de negociar com eles por um longo período de tempo", disse Benaim, durante debate no think tank Middle East Institute.
"Eles [governo Trump] preferem um tipo de negociação sob pressão que aconteça em um curto período de tempo, sob condições máximas. Isso tem sido, historicamente, o tipo de diplomacia agressiva que o governo Trump tem adotado em seu segundo mandato", prosseguiu.
Os EUA iniciaram uma guerra contra o Irã em 28 de fevereiro, pela acusação de que o país estaria perseguindo uma bomba nuclear e matando manifestantes que faziam protestos contra o governo. Os ataques iniciais mataram o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, e várias outras autoridades, mas o país conseguiu reagir e bloqueou o acesso ao Estreito de Ormuz, o que gerou uma alta forte no preço global do petróleo.
Em 8 de abril, os dois países concordaram com um cessar-fogo de duas semanas, para que houvesse negociações de paz. Uma rodada de conversas no fim de semana terminou sem acordo, e o futuro das tratativas é incerto, embora os dois lados tenham sinalizado que estão dispostos a negociar.
Para Benaim, os dois lados possuem vários itens nos quais podem fazer concessões, como a liberação do estreito de Ormuz, agora bloqueado tanto pelo Irã quanto pelos EUA, a liberação de ativos iranianos no exterior e a entrega de urânio enriquecido pelo Irã.
"Não há falta de coisas na mesa que possam ser negociadas, em vez de tentar fazer uma hiper pressão nos próximos dias e arriscar o retorno à guerra", diz o analista.
'Flexibilidade estratégica'
Benaim vê como positivo o avanço das conversas presenciais entre os dois lados.
"Estamos começando a ver algo muito importante, que é flexibilidade estratégica. Deixar para trás a ideia de que o Irã vai se render, ou de que a América vai abandonar suas posições só por causa do bloqueio em Ormuz", afirmou.
Para ele, o Irã precisa de concessões em três áreas principais: uma forma de dissuasão, para evitar serem atacados novamente, dinheiro e uma forma de salvar as aparências e resguardar a imagem do regime.
"O Irã esperava que seu programa de mísseis e seus aliados regionais fossem uma forma de dissuasão, mas os aliados foram neutralizados e o programa de mísseis, ao menos, reduzido", afirma.
Sobre dinheiro, o país pode obtê-lo ao cobrar taxas de passagem no Estreito de Ormuz ou com o alívio de sanções internacionais.
"Ao fim do dia, eles [os líderes do Irã] ainda precisam encarar que seu povo está muito infeliz com a péssima gestão do Irã, desde o fornecimento de água até a falta de direitos políticos e o colapso da moeda iraniana, e eles [líderes] precisam de algum tipo de salvamento político", afirma.
O especialista sugere que um acordo possível é que os Estados Unidos permitam algum percentual limitado de enriquecimento de urânio por parte do Irã, após um determinado período de tempo, em troca da liberação total do Estreito de Ormuz.
"O problema não é se existe ou não uma concordância entre os dois países e seus interesses nacionais, mas sim se os líderes que estão no poder têm a capacidade de tomar essas decisões, ou se existe o espaço político dentro de suas respectivas sociedades, que já vivenciaram essa guerra de maneiras distintas, para que esse tipo de concordância aconteça. Para mim, essa é a verdadeira questão, e meu palpite é que nada disso acontecerá tão cedo", afirma.
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