NEGÓCIOS SUSTENTÁVEIS: por que a reciclagem ainda não escala no Brasil?
Apesar dos avanços regulatórios e da crescente pressão por práticas sustentáveis, a reciclagem no Brasil ainda enfrenta gargalos que impedem sua escala.
O país recicla apenas cerca de 4% dos resíduos sólidos urbanos que coloca no mercado, um número que evidencia o tamanho do problema.
Ao mesmo tempo, novas medidas começam a tentar destravar esse cenário. O Senado aprovou recentemente o Projeto de Lei 1.800/2021, que autoriza o uso de créditos tributários na compra de materiais recicláveis e isenta de tributos a venda desses itens.
A proposta busca tornar a cadeia mais competitiva e incentivar a economia circular no país.
Mesmo com um cenário dramático, o Brasil apresenta casos de alta eficiência em cadeias específicas de reciclagem, como a de latas de alumínio, impulsionadas pelo valor econômico do material e pelo protagonismo dos catadores.
O contraste ajuda a explicar o cenário mais amplo: o desafio não está na tecnologia nem na demanda por recicláveis, mas na estrutura da base da cadeia.
Renato Paquet, CEO da startup de logística reversa Polen, destaca que o setor vem evoluindo rapidamente, impulsionado principalmente pelo avanço regulatório.
Hoje, estados já exigem o cumprimento da logística reversa como condicionante para a operação das empresas. Pela legislação, é preciso comprovar a destinação adequada de 30% das embalagens que colocam no mercado.
Ainda assim, os desafios persistem e estão concentrados na base da cadeia. “Temos cooperativas com capacidade instalada acima daquilo que recebem de material hoje. Mas a atividade só cresce se o município estabelece uma coleta seletiva eficiente”, diz em entrevista à EXAME para o videocast NEGÓCIOS SUSTENTÁVEIS.
A startup sente isso na pele: sem coleta seletiva estruturada e com uma cadeia ainda fragmentada e informal, falta material em escala para abastecer a indústria.
Fundada em 2017, a Polen começou como uma plataforma de comercialização de resíduos. Dois anos depois, lançou o conceito de créditos de logística reversa para neutralizar o impacto ambiental de empresas, um modelo que acabou sendo adotado como padrão pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA).
Esse mercado é regulamentado no Brasil e funciona de forma semelhante ao de carbono, mas com foco na economia circular: em vez de compensar emissões via reflorestamento ou preservação, as empresas financiam a reciclagem de resíduos.
Outro desafio estrutural é a informalidade. A reciclagem depende fortemente do trabalho de catadores, muitas vezes invisibilizados pelo sistema. “Os principais protagonistas de todo esse mercado são os catadores”, afirma Paquet. Segundo ele, avançar na profissionalização e inclusão desses trabalhadores é essencial para dar escala ao setor.
Desde 2025, a Polen mantém uma parceria com a Ambev e investiu cerca de 20 milhões de reais na criação de 10 hubs de reciclagem, com capacidade para recuperar até 30.000 toneladas de materiais por ano. A iniciativa tem foco na inclusão social e na melhoria da remuneração dos trabalhadores da base da cadeia.
O CEO também chama atenção para um ponto recorrente no debate público: a ideia de que a reciclagem depende, sobretudo, de mudança cultural.
“Em muitos países, o descarte correto não é só uma questão de consciência, mas de regulação e penalização”, destaca. Para Renato, o avanço no Brasil passa menos por comportamento individual e mais pela criação de mecanismos estruturais, como a expansão da coleta seletiva e incentivos financeiros.
O contexto econômico também influencia diretamente esse movimento. A alta do petróleo, por exemplo, tem encarecido o plástico virgem e incentivado a busca por alternativas mais sustentáveis.
“Se o material virgem está mais caro, o reciclado passa a ser uma opção mais competitiva”, afirma.
Na avaliação de Paquet, alavancar a agenda no Brasil depende de uma combinação de fatores: regulação, incentivos econômicos e infraestrutura.
No curto prazo, porém, o principal entrave segue sendo a organização da base da cadeia. Sem coleta seletiva em escala, a reciclagem continua limitada, mesmo com as conquistas recentes na legislação.
Confira o episódio completo no Youtube:
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