Nike veste as 12 seleções da Copa, mas ação cai mais de 30% no ano
Enquanto empresas do varejo apostam na Copa do Mundo como motor de consumo, o caso da Nike (NKE) mostra que o entusiasmo em torno do torneio não é suficiente para blindar companhias de problemas estruturais, nem de punições do mercado financeiro.
A marca será a fornecedora de uniformes de 12 seleções na Copa, a segunda maior presença entre as patrocinadoras esportivas, atrás apenas da Adidas. Ainda assim, as ações da companhia acumulam queda de 33,42% no ano até o fechamento desta terça-feira, 19.
No início de abril, os papéis chegaram a despencar 15,5% em um único pregão, no maior tombo diário da empresa em uma década, após a divulgação de projeções de vendas abaixo das expectativas do mercado.
Embora a Nike tenha reportado lucro por ação de 35 centavos, acima do esperado pelos analistas, e receita de US$ 11 bilhões praticamente estável na comparação anual, investidores reagiram negativamente à previsão de queda de 2% a 4% nas vendas do quarto trimestre fiscal. O mercado esperava crescimento de 1,9%.
Para especialistas em varejo, o desempenho da Nike evidencia o descolamento entre o potencial de consumo gerado pela Copa e a percepção do mercado financeiro sobre a saúde estrutural das empresas.
"O varejo olha o pico de venda da Copa. O mercado financeiro olha margem, dívida, geração de caixa, custo de capital e sustentabilidade depois do evento", afirma Jessica Costa, head e sócia da AGR Consultores.
Copa gera pico, mas não resolve estrutura, dizem especialistas
Segundo Costa, o fato de analistas enxergarem a Copa como um impulso temporário de vendas não impede investidores de penalizarem empresas que enfrentam desafios mais profundos, como pressão sobre margens, estoques elevados, dificuldades de turnaround e desaceleração na China, fatores que vêm afetando a Nike globalmente.
"Copa gera pico, não resolve estrutura", diz a especialista. "Ela pode melhorar tráfego, conversão e faturamento em categorias específicas, mas não elimina juros altos, renda pressionada, endividamento do consumidor, competição por preço e desafios próprios das marcas esportivas".
Na avaliação da head e sócia da AGR, o torneio continua sendo um dos maiores eventos de audiência e socialização do país, mesmo diante da desconfiança de parte dos torcedores com a seleção brasileira."Para o varejo, o risco não é a ausência total de consumo, e sim apostar em um nível de euforia maior do que o bolso e o humor do consumidor conseguem sustentar", afirma.
O consultor Maurício Grandeza, especialista em varejo, também avalia que os sinais de consumo pré-Copa ainda estão longe de indicar um cenário de forte aquecimento. "Historicamente a indústria faz previsões mais de longo prazo e assertivas, justamente para ter tempo de corrigir a cadeia. O varejo é mais curto prazo", afirma.
Segundo Grandeza, faltando menos de um mês para o início da Copa, indicadores antecedentes de consumo ainda não mostram aceleração relevante. "O desempenho de venda de eletrodomésticos, especialmente telas, que costuma anteceder o consumo de alimentos e bebidas, ainda não mostra nenhum desempenho surpreendente", diz.
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