No conflito no Irã, dólar perde e real é maior vencedor, diz Robin Brooks

Por Mitchel Diniz 2 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
No conflito no Irã, dólar perde e real é maior vencedor, diz Robin Brooks

O conflito no Oriente Médio adiciona uma nova camada de incerteza ao cenário global. É o tipo de situação que costumava favorecer o dólar como ativo de refúgio em momento de aversão ao risco. Desta vez, porém, deve ser diferente e uma outra moeda deve ganhar destaque: o real. Ao menos é isso o que diz Robin Brooks, pesquisador sênior da Brookings Institution, um dos centros de estudos econômicos mais tradicionais dos Estados Unidos, e ex-estrategista do Goldman Sachs.

O economista defende o argumento com um exemplo prático: o comportamento da moeda brasileira em 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Brooks lembra que o choque geopolítico daquele ano levou os preços do petróleo a dispararem quase 40% no primeiro trimestre. O real vinha de um ano difícil. O dólar terminou 2021 na casa dos R$ 6.

"A vez em que o real chegou perto da minha projeção de câmbio justo, de R$ 4,50, foi nos meses depois que a Rússia invadiu a Ucrânia, fazendo o petróleo subir 40%. O real subiu 20% em relação ao dólar. Isso vai acontecer novamente agora", afirma Brooks, em uma publicação nas redes sociais.

Para o economista, há chances de uma reprise, pois além do choque nos preços de commodities energéticas, há um movimento mais amplo de enfraquecimento do dólar no mercado internacional. Na leitura de Brooks, moedas de países emergentes vêm se fortalecendo de forma generalizada diante do aumento das dúvidas sobre a independência do Federal Reserve e do desgaste institucional em economias centrais. Nesse contexto, o real se destaca.

Real barato e fundamentos melhores

Em um artigo publicado poucos dias antes da ofensiva dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, Brooks argumentava que a moeda brasileira permanece profundamente desvalorizada desde a pandemia. O choque inicial da Covid-19 levou o dólar a se fortalecer globalmente, o que empurrou o real para baixo e o movimento nunca foi totalmente revertido — apesar de algumas melhoras estruturais.

O Brasil, observa o economista, passou por uma transformação relevante nos últimos anos: tornou-se um país de superávit comercial estrutural, impulsionado pela expansão das exportações agrícolas e de petróleo. “Essa mudança não ocorreu em nenhum outro mercado emergente”, afirma. Embora o saldo em conta corrente ainda não reflita plenamente essa virada, Brooks avalia que isso é apenas uma questão de tempo, dado o atraso natural entre comércio exterior e o balanço de pagamentos de um país.

A guerra no Oriente Médio, se prolongada, tende a manter os preços de energia elevados e aumentar a percepção de risco global. Para Brooks, esse tipo de ambiente costuma penalizar economias dependentes de importação de commodities e favorecer exportadores líquidos — categoria na qual o Brasil se encaixa com cada vez mais clareza.

Esse conjunto de fatores, segundo Brooks, explica por que a moeda brasileira já acumula valorização expressiva frente ao dólar no ano, liderando o ranking entre emergentes. Para o economista, o mercado começa a redescobrir a assimetria: uma moeda ainda descontada, mas com fundamentos mais robustos do que no passado recente.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: