No Gramado Summit, IA domina debates — mas com um alerta: o humano segue no centro

Por Guilherme Gonçalves 7 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
No Gramado Summit, IA domina debates — mas com um alerta: o humano segue no centro

A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante para se tornar tema central nas discussões do mercado brasileiro. No primeiro dia da 9ª edição do Gramado Summit 2026, realizada em Gramado, na Serra Gaúcha, praticamente todas as palestras orbitavam a mesma questão: como empresas e profissionais podem usar IA para ganhar produtividade sem perder o fator humano no processo.

Entre painéis sobre automação, agentes inteligentes e transformação digital, um discurso se repetiu nos corredores do evento: a IA deve assumir tarefas operacionais e burocráticas, enquanto pessoas passam a focar em estratégia, relacionamento e tomada de decisão.

A EXAME acompanha o evento e conversou com startups e empresas que tentam transformar esse discurso em aplicações práticas para negócios de diferentes portes.

Grupo quer levar inteligência artificial às PMEs

Um dos grupos presentes no evento foi a AI Brasil, iniciativa criada para incentivar a adoção de IA em pequenas e médias empresas. O ecossistema reúne cerca de 10 mil membros e conecta mais de 80 empresas em projetos ligados à tecnologia.

Segundo o fundador da AI Brasil, Pedro Chiamulera, o objetivo é tornar a inteligência artificial mais acessível e prática para empresas que ainda enxergam a tecnologia apenas como uma ferramenta de conversa ou geração de texto.

“A IA ainda está sendo usada como brincadeira ou só como ferramenta conversacional. Mas ela pode organizar processos, gerar produtividade e mudar completamente a forma como as empresas trabalham”, afirmou.

A estratégia do grupo passa por eventos, encontros presenciais, networking e ações de capacitação. Em vez de oferecer cursos tradicionais, a AI Brasil diz focar em diagnóstico e letramento prático para empresários.

Na prática, a ideia é ensinar empreendedores a usar ferramentas simples já disponíveis no mercado para estruturar dados e melhorar decisões. Um dos exemplos citados por Chiamulera é o uso de gravações de reuniões para alimentar plataformas de IA.

“Às vezes o empresário nem percebe que já tem os dados de que precisa. Se ele grava uma reunião, pode jogar aquela conversa numa IA e perguntar o que aconteceu ali, quais foram os problemas e oportunidades”, disse.

Outro foco da iniciativa é reduzir o medo em torno da segurança de dados. Para Chiamulera, muitas empresas já têm funcionários utilizando IA sem qualquer tipo de governança.

“As pessoas já estão usando essas ferramentas dentro das empresas. O dado já está vazando, mas de forma desorganizada. O papel da liderança agora é ensinar como usar isso com segurança”, afirmou.

IA brasileira para competir com OpenAI e Google

Outra empresa que chamou atenção no evento foi a LUA Vision, de São Paulo. A startup afirma ter desenvolvido um modelo próprio de inteligência artificial para competir com plataformas como ChatGPT, Gemini e Claude.

Criada neste ano, a empresa começou com investimento inicial de R$ 100 mil e projeta faturamento de R$ 5 milhões em 2026. Hoje, a startup tem 20 clientes corporativos.

O CEO da empresa, David Kang, afirma que o diferencial da plataforma é ter sido treinada especificamente para lidar com contextos brasileiros, especialmente nas áreas tributária, jurídica e empresarial.

“Não faz sentido uma empresa brasileira usar uma IA genérica americana para resolver um problema tributário do Brasil. Nosso modelo foi criado para entender a realidade do país”, disse.

A empresa desenvolveu um LLM — sigla para “large language model”, ou modelo de linguagem de larga escala — próprio. Segundo a companhia, a tecnologia foi treinada durante três anos com foco em mercados emergentes, como Brasil e países da África.

David Kang, Paulo Câmara e Plínio V. Ceccon: Executivos da LUA Vision defendem modelo brasileiro de IA focado em empresas e proteção de dados (Guilherme Gonçalves/Exame)

O CTO da startup, Paulo Câmara, afirma que o principal objetivo foi reduzir as chamadas “alucinações” da IA, quando sistemas inventam informações incorretas.

“Hoje vemos casos de IA criando jurisprudência falsa ou errando diagnósticos médicos. Nosso modelo foi pensado para minimizar esse tipo de erro”, afirmou.

Entre os exemplos de uso apresentados pela empresa estão automação de implantação de ERPs, geração de cursos completos para universidades, análise tributária e suporte para hospitais. Um dos produtos consegue coordenar dezenas de agentes autônomos para implementar sistemas corporativos como SAP e Oracle, reduzindo tempo e custo dos projetos.

A startup também prepara o lançamento de uma versão da IA que funcionará diretamente no celular, inclusive offline. A empresa pretende liberar inicialmente a tecnologia para 5 mil usuários.

Uma IA para médicos

No espaço dedicado a startups do programa Inova RS, do governo do Rio Grande do Sul, a reportagem visitou o pequeno estande da VTIX.AI, criada em Faxial do Soturno, no interior gaúcho.

A startup desenvolveu uma ferramenta voltada exclusivamente para médicos. A plataforma grava consultas — presenciais ou online — e transforma automaticamente as conversas em registros organizados para uso posterior. Segundo a gerente de produtos Simone Morales, a proposta é reduzir o tempo gasto com burocracia e permitir atendimentos mais personalizados.

“No dia a dia, o médico atende muitas pessoas e a memória acaba sendo limitada. A plataforma organiza o histórico do paciente para que o profissional consiga entender rapidamente o contexto antes da próxima consulta”, afirmou.

Simone Morales, gestora de produtos da VTIX.AI: Startup criou ferramenta de IA que transforma consultas médicas em históricos automatizados de pacientes (Guilherme Gonçalves/Exame)

Além das informações clínicas, o sistema reúne hábitos de vida, histórico familiar e memórias relacionais dos pacientes. O produto está disponível no mercado há cerca de três meses e soma aproximadamente 100 usuários. A empresa opera com modelo de assinatura mensal, tanto para médicos individuais quanto para clínicas.

A startup foi criada pelos sócios Eduardo Ceolin e João Brasil, profissionais da área de tecnologia que identificaram a demanda a partir do contato com familiares da área médica. A expectativa deles é alcançar um faturamento mensal de R$ 100 mil com o produto voltado à saúde. Durante o Gramado Summit, a startup busca ampliar a base comercial e encontrar novos parceiros de distribuição.

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