Nos Estados Unidos, academias superam o número de lojas físicas
Estabelecimentos voltados ao bem-estar — como spas, estúdios de pilates, academias e clínicas estéticas — passaram a ocupar mais espaços comerciais do que lojas tradicionais nos Estados Unidos. Segundo um relatório da imobiliária CoStar, inquilinos do setor de serviços passaram a ocupar pouco mais de 50% da área total de imóveis comerciais em 2025. Quinze anos atrás, essa fatia era de cerca de 40%.
A mudança mostra uma transformação no comportamento do consumidor que, em vez de produtos, agora direciona seu dinheiro para serviços. "Não há nada que sugira que isso vá mudar em breve", disse Brandon Svec, diretor nacional de análise de varejo dos Estados Unidos da CoStar, ao Wall Street Journal.
No passado, o consumo de luxo costumava estar associado a bens materiais. Hoje, segundo Svec, o sinal de status é outro: em vez de bolsas ou roupas, os consumidores passaram a gastar mais com experiências e cuidados pessoais, como aulas de ioga, tratamentos faciais ou procedimentos estéticos.
A expansão do bem-estar e do comércio eletrônico
Esse salto pode ser explicado por dois fatores principais. Um deles é o crescimento da cultura do autocuidado, cujo mercado movimentou US$ 2,1 trilhões nos Estados Unidos em 2024, segundo o Global Wellness Institute. Nesse sentido, as empresas têm apostado na oferta de serviços voltados à estética e à saúde, como massagens, botox, terapias com luz vermelha e tratamentos faciais a laser.
"Hoje, os consumidores se preocupam mais do que nunca com a aparência e o bem-estar", afirmou Brian Finnegan, diretor executivo da Brixmor, empresa proprietária de centros comerciais.
O outro fator é o avanço do comércio eletrônico, que reduziu a necessidade de grandes lojas físicas para vender itens que usamos no dia a dia. Para se ter uma ideia, as vendas online representaram 16,4% do varejo americano no ano passado, de acordo com o Departamento de Comércio dos EUA — o dobro da participação registrada em 2016, quando o índice era de cerca de 8%.
Essa mudança já reflete na organização de centros comerciais. No Whitemarsh Shopping Center, nos arredores da Filadélfia, por exemplo, a Brixmor transformou uma antiga loja de bebidas alcoólicas em quatro estabelecimentos menores: um hospital veterinário, uma rede de spas faciais, um estúdio de alongamento e um salão de manicure.
Segundo Finnegan, os novos inquilinos juntos geram 20% mais aluguel do que o antigo locatário e ainda ajudam a atrair mais visitantes para o centro comercial.
Academias puxam o crescimento
A expansão tem sido ainda mais forte no setor fitness: as academias representaram quase 30% dos contratos de locação de imóveis comerciais no ano passado, ante cerca de 20% em 2016, segundo a CoStar.
Em bairros como Flatiron e NoMad, em Manhattan, marcas de bem-estar e fitness alugaram cerca de 9.300 metros quadrados de espaços comerciais nos últimos dois anos, segundo a associação empresarial Flatiron NoMad Partnership. A região agora concentra saunas e estúdios de pilates, por exemplo.
Noah Neiman, cofundador da rede de academias de boxe Rumble, abriu recentemente no bairro o The Pack, um estúdio de autodefesa e aulas em grupo que aposta na combinação entre atividade física e socialização. "Queremos que as pessoas venham aqui, talvez encontrem um amigo ou tragam colegas de trabalho", disse Neiman, que chamou o serviço de "novo happy hour".
Uma das redes de destaque no país é a Planet Fitness. A empresa registrou mais de um milhão de membros no ano passado e planeja abrir quase 200 novas unidades em 2026. Segundo Chip Ohlsson, diretor de desenvolvimento da companhia, as pessoas estão se exercitando com mais frequência.
A empresa também espera um impulso adicional com a popularização de medicamentos para perda de peso, como Ozempic e outros GLP-1. "Se eu perco muito peso e começo a me sentir melhor comigo mesmo, isso me dá a oportunidade de ir à academia tonificar o corpo", disse Ohlsson.
Mesmo com o encolhimento de lojas de produtos, a taxa de vacância no varejo americano segue baixa — 4,4%, próxima de mínimas históricas. O motivo é a forte demanda de empresas de serviços, que têm ocupado os espaços deixados por varejistas tradicionais. A própria Planet Fitness, por exemplo, abriu academias em locais que antes pertenciam a redes que faliram, como a farmácia Rite Aid e a cadeia de artesanato Joann.
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