Nova fase da guerra? Ameaças entre EUA e Irã elevam risco de escalada no Golfo
As ameaças dos Estados Unidos de atacar a infraestrutura energética do Irã e a reação de Teerã, com a possibilidade de fechamento do Estreito de Ormuz, elevam a tensão no Golfo e ampliam o risco de escalada no conflito.
Neste domingo, 22, o Irã afirmou que pode fechar completamente o Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do consumo mundial, caso o presidente Donald Trump leve adiante a promessa de bombardear usinas de energia do país.
A declaração ocorre após um ultimato feito por Trump, que exigiu a reabertura do estreito em até 48 horas e disse que pode “atacar e destruir completamente” as instalações iranianas.
Em resposta, o governo iraniano afirmou que haverá retaliação direta. Segundo o porta-voz militar Zulfiqari, “se o inimigo danificar nossas usinas de energia, nada nos impedirá de continuar nossas operações para destruir a infraestrutura energética, petrolífera e industrial dos Estados Unidos e seus aliados na região”.
Para o cientista político Robert Pape, da Universidade de Chicago, os movimentos recentes indicam uma mudança na dinâmica do conflito. “Durante a noite, as ameaças de Trump mudaram a trajetória desta guerra. Isso já não é apenas escalada. É um ponto de decisão”, escreveu o professor em sua newsletter Escalation Trap.
Segundo ele, caso esse limite seja ultrapassado, a natureza do conflito tende a se transformar. “Se essa linha for cruzada, os custos deixam de ser reversíveis, os prazos se ampliam e a escalada se torna muito mais difícil de controlar”, afirmou.
‘Armadilha da escalada’
Pape afirma que o conflito segue um padrão que ele define como “armadilha da escalada”. Segundo o professor, esse processo ocorre em etapas. A primeira envolve ataques limitados, com o objetivo de pressionar o adversário sem ampliar o conflito.
Na etapa seguinte, há expansão do confronto para novas áreas e alvos. “O adversário não colapsa. Ele se adapta — ampliando o campo de batalha, atingindo parceiros e elevando os custos em novos domínios”, afirmou.
Na avaliação de Pape, o Irã tem buscado ampliar o alcance do conflito dentro dessa lógica.
“Quando enfrenta um poder convencional superior, o Irã não tenta vencer por confronto direto. Ele busca ampliar o conflito, geograficamente e economicamente, para que os custos de seus adversários cresçam mais rápido que os benefícios”, escreveu.
Esse movimento, segundo ele, aumenta a pressão sobre Estados Unidos e aliados "para retomar o controle, proteger ativos críticos e agir de forma mais decisiva."
Mudança na natureza da guerra
Pape afirma que o cenário atual se aproxima de um momento mais crítico dentro dessa dinâmica. “Estamos nos aproximando da terceira fase”, escreveu o cientista político.
Segundo ele, esse é o ponto em que os países envolvidos enfrentam uma escolha entre conter perdas ou ampliar ainda mais a guerra. “Cada tentativa de estabilizar a situação cria novos incentivos para mais escalada”, afirmou.
O professor também alerta para possíveis efeitos mais duradouros caso haja avanço. “Quando forças terrestres são introduzidas ou a infraestrutura crítica se torna alvo de operações contínuas, a natureza da guerra muda. O conflito deixa de ser uma disrupção temporária e passa a causar danos duradouros”, escreveu.
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