Nova NR-1: empresas ampliam monitoramento e treinamentos sobre saúde mental
Nesta terça-feira (26/5), entra em vigor a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que exige o gerenciamento de riscos psicossociais pelas empresas. Na prática, as empresas passam a monitorar não apenas riscos físicos, mas também psicológicos.
“Os fatores psicossociais devem entrar na documentação de segurança do trabalho, junto com os demais riscos ocupacionais e o mais importante, a lei exige que o RH, SST e lideranças terão que trabalhar juntos”, explica Luana Fernández, sócia da Acerta Consultoria e especialista em RH.
A mudança exige desafios de cultura e de como medir o risco psicossocial de forma efetiva. “Ruído, calor ou uma máquina sem proteção são fáceis de identificar. Já fatores como pressão excessiva, liderança tóxica, assédio ou sobrecarga exigem metodologias específicas, pesquisas e instrumentos estruturados”.
Apesar dos desafios, algumas empresas já vêm adotando medidas para identificar e monitorar riscos psicossociais antes mesmo da entrada em vigor da norma.
Do subjetivo à prática
A saúde mental é uma discussão que já vem ganhando espaço entre as empresas. O adoecimento levou algumas empresas a adotarem medidas relacionadas à saúde mental, mesmo antes da norma entrar em vigor. De 2021 a 2025, por exemplo, o número de afastamento por burnout cresceu em 823%, segundo dados do Ministério da Previdência Social.
“A norma trouxe uma oportunidade de estruturar ainda mais processos, governança e monitoramento sobre riscos psicossociais dentro das empresas”, diz Natalia Alves, vice-presidente global de Estratégia e Experiência de Talentos do Wellhub, que revela que a empresa já levava discussões sobre saúde mental para dentro da empresa.
A Y’ALL!, empresa de live marketing que soma 70 funcionários, também conta que sempre levou discussões de saúde mental para o dia a dia dos funcionários, mas que passou a reforçar estratégias de gestão e identificação de riscos até a concretização da norma.
“Com o avanço das discussões sobre riscos psicossociais, passamos a fortalecer ainda mais processos ligados à comunicação entre lideranças, acompanhamento das equipes e qualidade das relações no ambiente de trabalho”, diz Anderson Xavier, CTO e sócio-diretor da Agência Y’ALL.
As análises de risco psicossocial
Entre as medidas adotadas pelas empresas está a ampliação de pesquisas para mapear riscos psicossociais entre os funcionários. A Wellhub já realizou a sua primeira avaliação estruturada e alcançou uma adesão de 80% dos funcionários brasileiros, que somam 1,5 mil no total.
O processo combinou coleta estruturada de dados, avaliação dos fatores de risco psicossocial e geração de recomendações de ação. O mapeamento feito por meio de questionários ajuda a identificar não apenas tratamentos para indivíduos em riscos, como erros culturais da empresa.
“Acreditamos que a NR-01 ajuda a consolidar uma mudança importante: o problema não está apenas no indivíduo, mas também na forma como o trabalho é organizado. Isso transforma saúde mental em uma discussão de gestão, liderança e continuidade operacional”, afirma Natalia.
A SoftExpert, multinacional especializada em soluções de software para conformidade, governança e gestão empresarial, conta que o mapeamento já era algo que estava sendo construído pela empresa, mas que ganhou tração por meio da proximidade da atualização da NR-1.
“Hoje utilizamos diferentes mecanismos para monitoramento e prevenção, como pesquisas internas, clima organizacional, checkpoints período de experiência, feedbacks contínuos e ações próximas à liderança”, diz Cristiane Moraes Floriano, Head of Human Resources da SoftExpert.
A empresa também apostou na criação de um comitê multidisciplinar para acompanhar o tema, atuar na governança das ações e apoiar a evolução das práticas.
A Y’ALL aposta em conversas recorrentes entre funcionários e recursos humanos. “O RH realiza conversas mensais com os colaboradores, com foco em identificar precocemente possíveis sinais de desgaste emocional, conflitos internos ou fatores de risco relacionados à rotina de trabalho”, afirma Xavier.
Já a Cielo monitora riscos relacionados à saúde mental desde meados de 2023. Segundo a companhia, cerca de 18% dos funcionários fazem terapia, resultado de uma cultura que estimula a busca por apoio psicológico.
"Organizamos a escuta em três camadas complementares. A primeira são as pesquisas estruturadas; a segunda é o RH em campo, acompanhando a rotina das equipes; e a terceira são os grupos de afinidade, onde surgem temas que muitas vezes não aparecem nos formulários”, diz Angelica Peres, Head de Gente, Gestão e Performance da Cielo.
Segundo Angelica, o eNPS da empresa passou de 63 em 2020 para 85 em 2025. A pesquisa interna também aponta que 90% dos funcionários afirmam conseguir equilibrar vida pessoal e profissional.
A importância da liderança
A mudança das empresas passa por treinamentos, seja de todos os funcionários, seja de líderes.
A Frescatto, especializada na produção, processamento e comercialização de pescados e frutos do mar, vem adotando treinamentos gerais que tratam de temas como saúde mental, comunicação não violenta, prevenção ao estresse, segurança psicológica, inclusão, equidade de gênero, respeito às diferenças e qualidade de vida.
Há também iniciativas direcionadas aos líderes, com treinamento, disponibilização de material educativo e rodas de conversa. “Estamos consolidando protocolos internos para direcionamento adequado de situações relacionadas à saúde mental, envolvendo RH, liderança e medicina ocupacional de forma integrada e cuidadosa”, acrescenta Cláudia Leal, RH da Frescatto.
A Frescatto, que soma 2 mil funcionários, também lançou uma nova plataforma de educação corporativa em fase piloto para mais de 300 colaboradores de diferentes regiões. A iniciativa reúne trilhas de aprendizagem focadas em desenvolvimento humano, liderança, saúde emocional e segurança psicológica.
Já a Wellhub tem apostado no fortalecimento de uma cultura que equilibra bem-estar e performance. “Isso inclui discussões sobre carga de trabalho, equilíbrio, autonomia, flexibilidade e formas mais sustentáveis de sustentar alta performance no longo prazo”, diz Natalia.
Para a Cielo, a peça central está na liderança – e é nesse grupo que a empresa tem concentrado treinamentos e capacitações, que abordam temas como liderança inclusiva, comunicação não violenta e liderança autêntica. Até agora, mais de 100 líderes passaram por uma mentoria estruturada que soma 150 horas.
“Risco psicossocial não nasce em planilha; nasce em como uma meta é comunicada, em como o conflito é mediado, em como a carga de trabalho é desenhada. Tudo passa pela liderança. Por isso, líder despreparado é fator de risco psicossocial em si”, afirma Angelica.
Desafios ainda fazem parte da estruturação
A criação de uma agenda contínua, a criação de uma cultura de bem-estar que permanece estão entre os desafios das empresas. “Tem sido desafiador estruturar processos que atendam às exigências da NR-1 de forma consistente, mas sem transformar em algo apenas burocrático ou voltado ao cumprimento da lei”, diz Xavier, da Y’ALL.
Na prática, a agência afirma que tem buscado evitar a sobrecarga das equipes em períodos de maior demanda por meio da contratação de freelancers e reforços temporários.
Outro desafio está em transformar um tema que muitas vezes era tratado de forma subjetiva em processos estruturados, mensuráveis e integrados à gestão do negócio, que garantam bem-estar e performance.
“Trata-se de consistência, engajamento da liderança e aplicação prática no dia a dia, garantindo que o crescimento do negócio aconteça junto com ambientes saudáveis e sustentáveis para as pessoas”, afirma Cristiane.
Na visão da especialista da Cielo, a dificuldade está em levar a pauta para mais de 7 mil funcionários espalhados pelo Brasil.
“Transformação cultural não acontece na velocidade com que o planejamento imagina. Quando redesenhamos as competências organizacionais em 2023, o desenho ficou pronto rapidamente. Mas fazer cada líder, em cada região, traduzir aquilo no dia a dia levou tempo, conversa difícil, com ajustes que não estavam no cronograma”, afirma Angelica.
Para Rossandro Klinjey, escritor, psicólogo e especialista em desenvolvimento humano e formação de liderança, a efetividade da norma dependerá da mudança de comportamento dentro das empresas. “A cultura empresarial brasileira ainda confunde produtividade com sofrimento.”
Para ele, a atualização da NR-1 representa um passo importante porque reconhece oficialmente um problema que muitas vezes permanecia oculto. “A NR-1 não resolve imediatamente o sofrimento emocional que hoje aparece nos afastamentos, mas faz algo importante: dá nome ao que antes permanecia invisível.”
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