Novo instituto de treinamento aposta na cirurgia robótica com cadáver fresco e mira R$ 3 milhões
A cirurgia robótica é uma operação minimamente invasiva em que os movimentos são conduzidos por um cirurgião, mas executados por um robô. Segundo dados divulgados pela Associação Médica Brasileira (AMB), o número de cirurgias robóticas realizadas no Brasil cresceu 417% entre 2018 e 2022, na comparação com o período de 2009 a 2018.
Porém, boa parte dos cirurgiões não possui treinamento com robôs durante a especialização.
“Muitos profissionais brasileiros relatam que não se sentem capazes de realizar uma cirurgia robótica de qualidade sem a supervisão de um cirurgião mais experiente”, afirma o médico Nilo Jorge Leão.
Pensando nisso, ciência e negócios se uniram para a criação do Instituto de Anatomia Robótica e Treinamento (IART) — um centro de capacitação em tecnologia robótica realizado em cadáver fresco para diferentes especialidades.
O instituto será inaugurado no dia 12 de março, em Salvador (BA), e deve faturar R$ 3 milhões em seu primeiro ano de operação.
Da medicina ao negócio
Nilo Jorge Leão é urologista formado pela Universidade de São Paulo (USP), especialista em cânceres urológicos e cirurgia robótica. Ele atua há dez anos na área e já realizou cerca de 2 mil procedimentos do tipo.
“Nesse formato, o cirurgião opera à distância, por meio de um robô, com visão ampliada em até 15 vezes e maior precisão, o que permite melhores resultados cirúrgicos”, afirma.
Ao perceber a falta de formação estruturada no Brasil, ele idealizou um centro de treinamento, que está sendo colocado em prática em parceria com a Hospcom, empresa goiana de equipamentos hospitalares.
A companhia fornece a tecnologia para o empreendimento, como a plataforma robótica Toumai, utilizada nas cirurgias robóticas, além de investir na implementação do projeto.
“Trata-se de um investimento que supera os R$ 10 milhões. Mais do que reconhecer a relevância do projeto, foi fundamental contar com uma empresa que acreditasse nele e aportasse o capital necessário para tirá-lo do papel”, diz Leão.
O diferencial do IART está no modelo de treinamento em cadáver fresco, considerado padrão ouro internacional para capacitação cirúrgica, aliado ao uso de robótica e à possibilidade de teleproctoria. Na prática, cirurgiões de outras regiões do Brasil e até de outros países podem ser supervisionados em tempo real por especialistas, sem a necessidade de deslocamento.
“Não adianta tornar o robô mais acessível se não houver profissionais capacitados para operá-lo. O treinamento é o elo que sustenta a expansão da cirurgia robótica de forma segura e sustentável”, afirma Gabriel Alencar Coelho, CEO da Hospcom.
Além da cirurgia robótica, o IART nasce com uma proposta de formação mais ampla. O instituto também pretende suprir lacunas de capacitação em especialidades como ortopedia, cardiologia e outras áreas cirúrgicas que, até hoje, levam médicos brasileiros a buscar treinamento prático nos Estados Unidos ou na Europa.
Os desafios da implantação
Foram seis meses de estruturação até a inauguração, período marcado por desafios regulatórios, como autorizações e importação de cadáveres, além da criação de um modelo comercial que integrasse a prática médica à atuação de uma empresa de dispositivos médicos.
Um curso previsto para abril, focado em cirurgia para endometriose e com custo de R$ 35 mil por aluno, teve pré-lançamento e já está com as vagas esgotadas. O valor e a duração variam conforme o curso, com treinamentos que vão de quatro dias a quatro meses.
A ideia é lançar entre 12 e 15 cursos neste primeiro ano. A projeção é atender tanto médicos que buscam capacitação individual quanto empresas e instituições de saúde interessadas em qualificar seus corpos clínicos.
Com essa atuação, a expectativa é alcançar um faturamento de R$ 3 milhões no primeiro ano.
“A partir do segundo ano, a expectativa é ao menos dobrar o número de cursos. A demanda tende a ser elevada, inclusive por parte de hospitais que devem contratar o instituto para capacitar seus próprios corpos clínicos”, afirma Leão.
A longo prazo, o objetivo é transformar o IART em um projeto de alcance internacional, atendendo estudantes e profissionais da América Latina.
“Toda inovação enfrenta uma resistência inicial quando propõe uma mudança cultural. O que estamos apresentando é uma transformação estrutural na forma como o cirurgião é preparado no Brasil. A qualificação técnica deixa de ser um custo e passa a ser um investimento direto em segurança, eficiência e qualidade assistencial”, diz Leão.
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