NR-1 entra em vigor e exige empresas a olhar para saúde mental. Entenda o que muda

Por Layane Serrano 26 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
NR-1 entra em vigor e exige empresas a olhar para saúde mental. Entenda o que muda

Por décadas, as normas de segurança do trabalho nas empresas brasileiras se concentraram em capacetes, luvas, ergonomia física e prevenção de acidentes visíveis. Mas, a partir desta terça-feira, 26, o foco passa a incluir também um risco silencioso, e cada vez mais caro para empresas e para o país: o adoecimento mental.

A nova atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entra em vigor hoje, obriga empresas de todos os portes a incluírem oficialmente os chamados riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).

Na prática, isso significa que fatores como pressão excessiva, metas irreais, assédio, sobrecarga emocional, jornadas desgastantes e ambientes tóxicos passam a fazer parte do radar da fiscalização trabalhista.

A mudança ocorre em meio a uma escalada histórica dos afastamentos por transtornos mentais no Brasil. Apenas em 2025, o país registrou mais de 546 mil licenças relacionadas a ansiedade, depressão e burnout - alta de 15,6% em relação ao ano anterior, segundo dados da Previdência Social. O impacto para os cofres públicos chegou perto de R$ 1 bilhão em gastos do INSS.

“O avanço dos afastamentos por transtornos psicológicos tornou inevitável a ampliação do conceito de segurança no trabalho”, afirma Yara Leal Girasole, advogada trabalhista. “A NR-1 é, hoje, uma resposta de socorro para um cenário de adoecimento coletivo, principalmente ligado à saúde mental.”

O alerta não é apenas brasileiro. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ansiedade e depressão geram perda de cerca de 12 bilhões de dias úteis por ano no mundo, com impacto econômico estimado em US$ 1 trilhão.

Veja também: NR-1: o que muda para o CEO em 2026

O que muda na prática para as empresas

A principal transformação da NR-1 é que a saúde mental deixa oficialmente de ser tratada apenas como um tema de RH ou benefício corporativo e passa a integrar o campo da segurança ocupacional.

“A Constituição de 1988 já dizia que o empregador tem a obrigação de oferecer um ambiente de trabalho seguro. O que acontece agora é uma expansão desse conceito, que sempre foi interpretado quase exclusivamente pelo ponto de vista físico”, afirma Girasole.

Até então, o PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos) era muito associado à prevenção de acidentes físicos. Agora, ele também precisará contemplar fatores emocionais e organizacionais.

“O PGR deixa de ser um documento técnico restrito à segurança física e passa a refletir a cultura da empresa. Não basta reconhecer que uma área tem alto nível de estresse. Será preciso demonstrar quais ações estão sendo adotadas para reduzir esse risco”, diz a advogada.

Na visão de Marcello Burle, sócio gestor da área trabalhista do Martorelli Advogados, a mudança cria um patamar de responsabilidade corporativa.

“A rotina muda porque o PGR deixa de olhar apenas para o risco físico e passa a mapear um risco invisível, que é a saúde mental. Exige-se agora documentação técnica viva, com matrizes de risco psicossocial e planos de ação contínuos”, afirma.

Segundo ele, empresas que não se adequarem poderão enfrentar não apenas multas e autuações, mas também um aumento expressivo do passivo trabalhista.

“As mudanças na NR-1 positivaram o que antes era subjetivo. Ao estabelecer parâmetros claros de gerenciamento, a norma vira um ‘guia de culpabilidade’: se a empresa for omissa e não comprovar que agiu para prevenir o estresse crônico ou o assédio, o nexo causal com o dano mental fica evidente”, afirma Burle.

Para Patricia Ansarah, fundadora do Instituto Internacional de Segurança Psicológica (IISP), a nova NR-1 exigirá um nível mais sofisticado de preparo emocional das lideranças.

“Falar de risco psicossocial é falar de habilidade relacional, energia psíquica, qualidade das conversas, conflitos produtivos e também dos silêncios organizacionais”, afirma a psicóloga.

Na avaliação dela, pesquisas tradicionais de clima organizacional já não serão suficientes.

“Entram no radar práticas como canais seguros de denúncia, análise qualitativa de relações de trabalho e treinamentos contínuos para líderes, capazes de identificar sinais precoces de adoecimento nas equipes”, afirma.

Burnout, liderança tóxica e pressão excessiva entram no radar

Na prática, especialistas afirmam que a NR-1 muda a lógica da saúde ocupacional dentro das empresas.

“A exigência da atualização da NR-1 muda a lógica da saúde ocupacional nas empresas, tirando o foco apenas do indivíduo que já adoeceu e ampliando o debate sobre as condições do ambiente de trabalho”, afirma Amanda Bittencourt, gerente da unidade de negócios da Care Plus Ocupacional.

Para ela, os primeiros sinais de adoecimento aparecem muito antes do afastamento formal.

“Os primeiros sinais de adoecimento surgem de forma mais silenciosa, muito antes do afastamento de fato, refletindo-se em sintomas como exaustão constante, dificuldade de concentração, alterações de sono e aumento do estresse nas equipes”, diz.

Entre os principais fatores que passarão a ser monitorados estão pressão excessiva, sobrecarga contínua, falhas de comunicação, relações desgastantes e ausência de canais de escuta.

“Isso reforça que a saúde ocupacional não deve ser vista apenas como uma obrigação burocrática, mas como parte fundamental da construção de ambientes de trabalho mais saudáveis, colaborativos e sustentáveis a longo prazo”, afirma Amanda.

Ela explica ainda que a devolutiva para as empresas deve ocorrer de forma coletiva e anônima, preservando o sigilo médico dos colaboradores.

“A liderança passa a olhar para painéis estatísticos de um setor, sem acessar diagnósticos individuais”, afirma.

A nova responsabilidade dos CEOs

A NR-1 também altera diretamente o papel da liderança dentro das empresas.

Para Alexandre Ribas, CEO da Falconi, muitas empresas ainda tratam a gestão de pessoas de forma superficial, baseada apenas em pesquisas de clima e indicadores genéricos.

“A principal mudança não está nas políticas, mas no fato de as empresas, no caso líderes e até CEOs, precisarem conhecer melhor as suas pessoas”, diz Ribas. “Se você não conhece bem o seu time, fica muito difícil saber como cuidar da saúde mental”.

Trabalho híbrido também entra na conta

A responsabilidade das empresas não ficará restrita ao escritório físico. Segundo o advogado Burle, a NR-1 também amplia a atenção sobre o trabalho remoto e híbrido.

“A responsabilidade da empresa não termina na porta da casa do empregado”, afirma o advogado.

Embora o empregador não tenha controle total sobre o ambiente doméstico, ele explica que existe responsabilidade sobre a chamada “ergonomia mental”.

“Isso envolve fiscalizar o direito ao desligamento, evitar cobranças fora do horário e fornecer orientações claras de saúde. A omissão no monitoramento gera o mesmo risco jurídico do trabalho presencial”, diz.

Bem-estar vira prioridade profissional

A chegada da NR-1 acontece em um momento em que o próprio significado do trabalho vem mudando.

Segundo a 24ª edição da pesquisa Carreira dos Sonhos, da Cia de Talentos, o bem-estar passou a ocupar o espaço que antes pertencia ao próprio trabalho como prioridade profissional.

“O foco não está mais em amar o trabalho, mas em trabalhar de forma sustentável para viver bem. O trabalho virou meio para alcançar o bem-estar, não mais um fim em si mesmo”, afirma Danilca Galdini, sócia-diretora de Pessoas & Cultura e Insights da consultoria.

De acordo com o levantamento, estabilidade financeira, flexibilidade, autonomia e equilíbrio entre vida pessoal e profissional aparecem entre as principais prioridades dos trabalhadores.

“O sucesso passou a ser sinônimo de colocar a vida no centro. O bem-estar virou autocuidado, poder e status”, diz Galdini.

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