'O Brasil deveria pensar no Bolsa Família 2', dizem vencedores do Nobel de Economia

Por Luciano Pádua 23 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'O Brasil deveria pensar no Bolsa Família 2', dizem vencedores do Nobel de Economia

Os economistas Esther Duflo e Abhijit Banerjee venceram em 2019 o Prêmio Nobel de Economia por seus estudos que aplicam técnicas de controles randomizados (aleatórios, padrão ouro para pesquisas) para problemas sociais. Eles já trabalham com temas do Brasil por meio do J-PAL, rede mundial de combate à pobreza por meio de evidências, fundado por eles, e agora se preparam para expandir os estudos sobre o país.

Em março, eles estiveram em São Paulo para anunciar a criação de uma iniciativa global com a Fundação Lemann para excelência na formulação de políticas públicas. Duflo e Banerjee tocarão o projeto na Universidade de Zurique, a nova casa dos economistas que estiveram nos últimos 30 anos no prestigiado Massachusetts Institute of Technology (MIT).

“O objetivo é compartilhar evidências de toda a experiência da rede J-PAL com brasileiros formuladores de políticas em todos os níveis, desde as prefeituras até o governo federal”, diz Duflo em conversa com a EXAME.

Para ambos, o Brasil tem dados e instituições independentes — que não deixam a desejar para os melhores países do mundo. Exatamente por isso o país deveria experimentar novos formatos de políticas públicas clássicas, como o Bolsa Família.

“Em vez de perguntar se é bom ou ruim, seria muito mais útil começar a pensar no que seria o Bolsa Família 2, 3 ou 4”, afirma Banerjee.

Na conversa, eles também abordam o aumento da desigualdade em nível global e o efeito inédito da inteligência artificial de roubar empregos das classes médias.

Como será a nova parceria com a Fundação Lemann?

DUFLO: É uma iniciativa global para a excelência na formulação de políticas. Será um esforço para fazer com que muitas pessoas trabalhem juntas para alcançar bons resultados globalmente e, em particular, entre o Brasil e a Suíça. Portanto, será um projeto conjunto da Fundação Lemann, da Universidade de Zurique e também do J-PAL.

O que vocês gostariam de pesquisar no Brasil?

DUFLO: O objetivo é compartilhar evidências de toda a experiência da rede J-PAL com formuladores de políticas brasileiros em todos os níveis, desde as prefeituras até o governo federal. Esperamos ajudar estudantes e pesquisadores brasileiros a se tornarem participantes ativos nesse movimento, aproximando-os da economia, participando de cursos online ou presenciais. Isso será feito por meio da colaboração com instituições de ensino superior no Brasil, incluindo o Insper, com quem já estamos em contato, e a Escola Nacional de Administração Pública (Enap), com quem -assinamos um memorando de entendimento para capacitar estudantes no tipo de trabalho que estamos desenvolvendo. Em Zurique, vamos iniciar novos programas de mestrado e de educação executiva sobre o mesmo tema, para que as pessoas possam se capacitar aqui. E haverá bolsas de estudo para brasileiros participarem desses programas.

Há uma crítica constante de que o Brasil não consegue monitorar e avaliar políticas públicas. Como vocês avaliam isso?

BANERJEE: Em comparação com a maioria dos países que visitei, o Brasil tem uma excelente cultura de coleta e uso de dados. Há muito tempo. Vim ao Brasil pela primeira vez em 1998 e fiquei impressionado com a sofisticação da pesquisa empírica. Tendo estado em muitos países do mundo e trabalhado neles, considero o Brasil muito avançado. Há bons dados, dados independentes e instituições independentes que analisam dados. Só para dar um exemplo: houve um estudo feito por pesquisadores do J-PAL no qual 300 prefeitos brasileiros foram aleatoriamente selecionados para receber informações sobre programas que funcionam. Eles usaram essas informações e houve um aumento de 33% na adoção desses programas.

DUFLO: Agora que está difícil obter dados nos EUA, todos os economistas de comércio e trabalho americanos estão começando a trabalhar com o Brasil, porque sabem que encontram dados excelentes.

Calor intenso no Nordeste: Duflo e Banerjee estudam mecanismos para auxiliar pessoas que passarem por situações climáticas extremas, como um “Pix do Clima” (Leandro Fonseca/Exame)

O Bolsa Família, por exemplo, é um tema bastante polarizado aqui no Brasil. Como vocês avaliam áreas que poderíamos aprimorar?

DUFLO: O Bolsa Família foi um enorme sucesso no Brasil em termos de seu objetivo imediato, que era reduzir a pobreza extrema. Desde o seu lançamento, houve uma queda drástica na pobreza extrema. Não houve uma avaliação randomizada do Bolsa Família — ele não foi concebido dessa forma —, mas houve uma avaliação randomizada de um programa similar no México na época, chamado Progresa. Juntas, a avaliação não randomizada do Bolsa Família e as evidências randomizadas do México convenceram muitos outros países a adotar o programa. Assim, o Brasil tem a sorte de, mesmo sem ter realizado uma avaliação randomizada, saber que esse é um programa muito eficaz.

BANERJEE: E o fato de os dados serem muito bons significava que as avaliações não randomizadas ainda eram viá-veis, a qualidade dos dados era muito boa.

DUFLO: Uma coisa que eu diria sobre o Bolsa Família: como todo progresso, ele se beneficiaria do que aprendemos de lá para cá, como a análise de quais características são mais importantes do que outras. É um programa que tem espaço para evoluir, e não há mal nenhum nisso. Na verdade, seria bom avaliar como poderia evoluir.

BANERJEE: Em vez de perguntar se é bom ou ruim, dado que é tão relevante politicamente e que, segundo todas as evidências disponíveis, tem bons impactos, seria muito mais útil começar a pensar no que seria o Bolsa Família 2, 3 ou 4.

Qual seria a sua sugestão ou opinião sobre essa evolução do Bolsa Família?

DUFLO: Não sei se é exatamente uma resposta à sua pergunta, porque não sabemos o suficiente sobre o Bolsa Família para dar recomendações sobre o que deveria ser feito. Mas outra área em que o Brasil está no centro das atenções é o clima. Dada a importância vital da Amazônia, e também o fato de que, em particular, o Nordeste é bastante quente e o Sul sofre com inundações, uma coisa que temos tentado implementar é o que chamamos de “Pix do Clima”. Trata-se da ideia de transferências automáticas para famílias em períodos de calor intenso. Isso proporciona um seguro automático em regiões afetadas e, ao mesmo tempo, ajuda as áreas mais prejudicadas pelas mudanças climáticas, de forma semelhante ao Bolsa Família. Tem custos administrativos muito menores e pode ajudar as pessoas a se adaptarem às mudanças climáticas. É algo que gostaríamos muito de testar.

O que mais você planeja estudar no Brasil?

DUFLO: Outra coisa que estamos considerando — é mais uma ideia do que uma recomendação neste momento — são transferências automáticas para comunidades muito afetadas pelas mudanças climáticas, na forma de subsídios em bloco, para ajudá-las a se acomodar e fornecer infraestrutura de adaptação.

Há um debate muito polarizado no Brasil sobre o tamanho do nosso sistema de bem-estar social e os problemas fiscais que enfrentamos. O que podemos fazer para nos preparar para o futuro, quando a população envelhecer e enfrentarmos novos desafios?

BENREJEE: São muitas questões e, para ser honesto, não conheço o Brasil o suficiente para quantificar. Mas essa questão que você levantou — extremamente relevante na Europa atualmente — sobre o que acontecerá com o envelhecimento da população será crucial. Outro ponto importante é que, por outro lado, haverá ganhos de produtividade com a inteligência artificial [IA], mas também perda de empregos. Portanto, trata-se de pensar num Estado que lide melhor com o envelhecimento, e isso é uma classe de problemas diferente da simples oferta de apoio ao rendimento. Porque é frequente que [países com mais] idosos apresentem taxas de natalidade mais baixas. As pessoas também ficam isoladas, porque cada casal tem um ou nenhum filho. E quem cuida dele? Penso que essas são questões que definitivamente merecem investimento, e que devemos, a partir de agora, pensar no futuro.

Como seria esse Estado?

De certa forma, existe uma relação com o fato de haver menos empregos de determinado tipo — algumas funções na área de contabilidade, por exemplo, serão exercidas por IA. Assim, mais empregos humanos terão de ocupar esses lugares, vagas que a IA não consiga tomar. E pensar em um Estado que apoie isso, também em programas de seguros privados, pensar em toda a infraestrutura de um Estado que envelhece a partir de agora e, de certa forma, não cometer o erro que os países europeus cometeram, de prometer muitos benefícios sem realmente pensar no que isso significaria à medida que a população começasse a envelhecer. Esse é um problema que muitos países enfrentam, inclusive os EUA, que o enfrentarão mais cedo ou mais tarde, especialmente se a imigração diminuir, como acontece no Brasil, com sua taxa de fertilidade de 1,8. É um problema iminente que exige planejamento e reflexão sobre como aproveitar o excedente de jovens que talvez fiquem desempregados, como financiar os idosos e como integrar isso aos programas de previdência privada. Toda essa estrutura precisa ser bem pensada.

Estamos à beira de uma nova revolução da IA. Vocês acreditam que ela ampliará a desigualdade?

DUFLO: Não temos feito muita pesquisa sobre isso, e na verdade ninguém tem -feito, porque está acontecendo em tempo real, em um ritmo muito acelerado e totalmente impulsionado pelas empresas, que não estão muito interessadas nessa questão. Todos os acadêmicos ou formuladores de políticas estão à margem, dizendo: “Ei, vocês deveriam estar pensando em tecnologias que não vão substituir os trabalhadores, e sim complementá-los”. Mas essa não é a direção que as grandes empresas de tecnologia estão seguindo, infelizmente. A maior parte da inovação que estão desenvolvendo visa descobrir quantos trabalhadores a mais elas conseguem substituir da maneira mais rápida possível. Então, sem dúvida, isso aumentará a desigualdade. E será particularmente doloroso nas classes médias que têm empregos intelectuais ou facilmente substituíveis por IA. É uma ironia que as pessoas que podem ser mais afetadas agora sejam os programadores, que estão se tornando obsoletos por meio da programação. Alguns programadores são verdadeiras estrelas, podem ter até dez agentes trabalhando para eles nos bastidores. Enquanto isso, milhares ou centenas de milhares de pessoas que tinham uma vida muito confortável, que pertenciam à classe média na Índia, perderão seus empregos.

BANERJEE: Mas também contadores ou advogados nos Estados Unidos...

DUFLO: Então, essa será uma situação totalmente nova, em que a proteção social será necessária para as classes médias, que não estão acostumadas a isso. Elas estão acostumadas a pensar que apenas os perdedores precisam de proteção social.

BANERJEE: Mas, por outro lado, isso significa que precisa ser financiado. O fato de haver agora quase uma revolta aberta dos ultrarricos contra o pagamento de impostos é o cerne da crise e, se eles eventualmente conseguirem se impor ao mundo, o que parece ser o que desejam, então não sei o que acontecerá.

Como assim?

BANERJEE: Os governos precisam se preparar para pensar no que fazer em um mundo onde os bilionários controlam grande parte da economia e, mesmo nos EUA, praticamente todo o boom do mercado de ações foi impulsionado por essas sete empresas [as chamadas Sete Magníficas]. Se o equivalente a isso acontecer com a IA, provavelmente será ainda maior, porque ela dominará muitas outras áreas da vida, e eles se recusam a pagar impostos porque, você sabe, eles podem... Acho que o fato de o Brasil ter participado do G20, grupo que tentou pensar em como tributar os bilionários, foi vital. Dedicaria muito mais energia à criação de uma coalizão mais eficaz para tributá-los e, de outras formas, impedi-los de operar. Se não houver empregos para a classe média e os bilionários não pagarem impostos, a sociedade entrará em colapso.

Mas vocês dão como certa a pressuposição de que a IA destruirá empregos em massa?

DUFLO: Ainda não sabemos, mas é bem provável que sim, se as empresas de tecnologia continuarem no caminho atual, de privilegiar tecnologias que substituem trabalhadores. E é isso que elas provavelmente farão, porque é o mais fácil. É o que as empresas querem, é o caminho natural do desenvolvimento tecnológico. E é preciso uma gestão muito cuidadosa da tecnologia para direcioná-la a áreas que complementem o trabalho humano. Bilionários precisam ser tributados, mas a IA também deveria ser regulamentada e orientada pelo governo. Mas isso não está acontecendo, porque as empresas de IA estão, em sua maioria, nos EUA, e não há ninguém lá para fazer isso por elas.

A pandemia mudou a trajetória dos índices de desigualdade no mundo. Como estamos nos saindo no combate à pobreza globalmente?

BANERJEE: Infelizmente, não sabemos exatamente quanto mudou de 2019 para 2021. Antes disso, estávamos indo bem. Mesmo em países africanos mais pobres, a pobreza estava diminuindo. E não vi dados globais sobre isso no período pós-pandemia. Por exemplo, na Índia vemos uma clara desaceleração [dos índices de redução da pobreza]. Temos nossos próprios dados, acompanhamos as pessoas há muitos anos e vemos que, pela primeira vez, a renda dos pobres não está crescendo nesse conjunto de dados. Deveríamos ter dados melhores sobre isso em todo o mundo para descobrir se houve uma desaceleração em algum momento, talvez entre 2015 e 2020, em algum ponto específico.

É contraintuitivo no momento, porque a Índia está crescendo muito rápido...

BANERJEE: A Índia está crescendo rápido, mas sua desigualdade está explodindo.

Há uma percepção crescente, em todo o mundo, de que a desigualdade está aumentando. Ela é real?

BANERJEE: Na Índia, a imprensa de negócios está certa ao afirmar que os salários da classe média não têm crescido. Essa percepção é totalmente real. Não acho que seja apenas uma percepção, e sim um fato. A desigualdade está aumentando neste momento. Se isso é inevitável ou não... Na minha opinião, a menos que façamos algo, ela vai continuar aumentando.

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