O Brasil resolveu os pagamentos domésticos; o próximo desafio são os internacionais

Por Da Redação 6 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O Brasil resolveu os pagamentos domésticos; o próximo desafio são os internacionais

Por Jack Chong*

O Brasil acostumou empresas e consumidores a uma experiência de pagamento em tempo real. Agora, essa mesma expectativa está chegando às transações internacionais.

Um exportador de soja no Mato Grosso pode negociar rapidamente uma carga rumo à Ásia, mas a liquidação financeira por trás dessa operação ainda pode levar dias, com custos embutidos em spreads de câmbio, bancos correspondentes e intermediários.

O sistema bancário internacional não acompanhou a velocidade do comércio. Esse descompasso é caro, e quase ninguém fala dele. É o problema que tenho tentado resolver nos últimos três anos.

Não sou a pessoa mais óbvia para escrever sobre infraestrutura de pagamentos no Brasil. Cresci em Hong Kong, vendo o comércio acontecer na minha frente. Cargueiros no porto, traders gritando ao telefone, dinheiro trocando de mãos no comércio local.

Durante a maior parte da minha vida, imaginei que me tornaria um diplomata. O trabalho que eu mais admirava era o de conectar sistemas que não se entendiam. Idiomas diferentes, culturas diferentes, economias diferentes, ajudando-os a se moverem juntos. Ainda penso na minha carreira dessa forma. Hoje, em vez de tratados, construo infraestrutura.

Quanto mais eu estudava blockchains, mais ficava claro que os problemas de coordenação mais interessantes do mundo não estavam acontecendo em chancelarias. Estavam acontecendo na infraestrutura financeira.

Infraestrutura cara

Passei minha carreira dentro da infraestrutura financeira, e mesmo eu não consigo ter certeza da forma mais barata e rápida de enviar dinheiro de volta para Hong Kong.

A versão institucional desse problema é muito maior. Bancos, empresas de pagamento, mesas de trading e tesoureiros corporativos não deveriam precisar costurar seis provedores diferentes para movimentar recursos entre jurisdições. Deveriam poder acessar essa liquidez através de menos integrações, com contrapartes reguladas em cada lado.

A China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil, com o comércio bilateral superando US$ 170 bilhões em 2025, e ambos os governos deixaram claro que querem aprofundar essa relação. Produtos agrícolas brasileiros, minério de ferro e uma lista crescente de produtos manufaturados seguem para o leste. Insumos industriais, fertilizantes e produtos acabados fluem para o oeste. Essa relação exige uma infraestrutura financeira capaz de acompanhar essa escala.

Mas esse está longe de ser o único caso de uso. Empresas brasileiras se expandindo para Argentina, México e Colômbia geram liquidações intracompanhia constantes que esbarram no mesmo gargalo dos bancos correspondentes. Multinacionais brasileiras que operam tesouraria 24 horas perdem capital de giro toda vez que um pagamento perde uma janela de corte em Nova York ou Londres. Fintechs brasileiras que oferecem contas em dólar para seus clientes de varejo e pequenas empresas precisam de liquidez no atacado que não exija pré-financiamento com dias de antecedência.

A infraestrutura de stablecoins atende todos esses casos, mas só funciona quando está conectado às instituições e aos arcabouços regulatórios que fazem o comércio operar. Sem isso, são apenas outra tecnologia em busca de um problema.

Stablecoins não são mágica, são ferramenta

O Brasil está entre os mercados em melhor posição do mundo para fazer essa conexão. Já há bancos de câmbio locais emitindo stablecoins lastreadas em real, como a BBRL do Braza Bank. Há fintechs construindo contas em dólar para o consumidor brasileiro. Há um regulador que demonstrou repetidamente apetite para incorporar inovação à supervisão prudencial, em vez de empurrá-la para as margens.

Stablecoins não são uma solução mágica; são uma ferramenta. E, como toda ferramenta, só fazem diferença quando estão conectadas às instituições, aos controles e aos arcabouços regulatórios que sustentam o comércio real.

A história que considero mais interessante não é a narrativa abstrata sobre dólares digitais substituírem o sistema financeiro global. É a muito mais concreta de um banco brasileiro atendendo um exportador de soja para a China, liquidando esse fluxo em vinte minutos em vez de três dias, e fazendo isso dentro do perímetro regulatório criado justamente para essa finalidade.

Esse é, à sua maneira, o trabalho diplomático que sempre quis fazer. Conectar sistemas que não se entendiam e ajudá-los a se moverem juntos. Reduzir fricções no sistema para que negócios reais sejam liquidados com mais velocidade.

O Brasil entende esse tipo de trabalho melhor que a maioria. Construiu o Pix quando os pares ainda discutiam a ideia. Experimentava o Drex antes mesmo de tokenização e stablecoins se tornarem palavras da moda.

O país agora está implementando o arcabouço regulatório para a próxima camada, e sou grato por fazer parte disso, mesmo que de forma pequena.

*Jack Chong é cofundador e CEO da Checker

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