O Brasil tem um arsenal de segurança urbana, mas ainda não sabe usá-lo

Por Renan Pires 2 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O Brasil tem um arsenal de segurança urbana, mas ainda não sabe usá-lo

Nas grandes cidades, o Brasil vive um paradoxo: nunca houve tanta presença, tantos sensores e e tanta informação disponível e, ainda  assim, seguimos lidando com a segurança como se cada peça existisse isoladamente . A segurança privada já emprega mais de 500 mil vigilantes, conforme a FENAVIST, e o setor reporta 570mil postos, segundo dados citados na base RAIS do Ministério do Trabalho e Emprego. Ao mesmo tempo, a segurança eletrônica cresce em velocidade. No ano de 2026, estima-se um faturamento médio de R$ 18 bilhões, e a portaria remota já está presente em mais de 14 mil condomínios. Vivemos ainda o “boom” dos totens de monitoramento, tanto privados quanto públicos, que invadem nossos centros urbanos.

Em recente pesquisa feita e divulgada pela ISC Brasil, 78% das empresas privadas no país pretendem elevar investimentos em soluções de segurança.

Já no lado público, o patamar também mudou. O Governo de São Paulo afirma que o programa Muralha Paulista opera com 94 mil câmeras interligadas, integrando fontes públicas e privadas e conectando esses dados a bases e indicadores para ampliar análise e resposta. Na capital, a Prefeitura informa que o Smart Sampa ultrapassou 31,3 mil câmeras, sendo 11,3 mil privadas. Na cidade do Rio de Janeiro, a Prefeitura anunciou a expansão da CIVITAS com meta de 20 mil câmeras inteligentes até 2028, com critérios técnicos definidos com as forças de segurança e foco em manchas criminais e áreas de maior demanda.

Potencial, portanto, não falta. Ainda  assim seguimos com elevados índices de criminalidade nos grandes centros urbanos. O que falta é transformar essa soma de pessoas, equipamentos e dados em algo que se comporte como um sistema único.

Por que tanto dado não vira resultado?

O problema não é investir em mais câmeras, tecnologia ou efetivo humano. O problema é que a cidade ainda opera em ilhas, totalmente isoladas uma da outra e sem pontes entre elas. Shoppings, condomínios, empresas, concessionárias, prefeituras e forças de segurança têm suas rotinas, seus contratos, suas centrais e seus protocolos, quase sempre sem uma linguagem comum. Quando ocorre uma crise, a colaboração até existe, mas muitas vezes nasce do improviso. A informação chega tarde, chega incompleta, chega sem padrão e, em muitos casos, chega sem o cuidado necessário para virar evidência útil na tomada de decisão .

Isso custa caro, principalmente em segurança urbana, onde tempo define desfecho. Minutos determinam se um evento vira ocorrência, se uma ocorrência vira escalada, e se uma escalada irá virar descontrole.

Ao longo dos anos, o país tenta encontrar caminhos na própria arquitetura institucional, como a Lei do SUSP que inclui como diretriz a celebração de termos e protocolos entre os órgãos de segurança pública e o novo Estatuto da segurança privada. Ou seja, a cooperação não é uma ideia fora do nosso ordenamento, mas nosso desafio é fazer com que ela deixe de ser pontual e passe a ser previsível, consistente e orientada aos resultados.

O que os modelos mundiais podem ensinar

Quando olhamos para experiências internacionais que se destacam, o que aparece não é uma mágica tecnológica, e sim uma disciplina de integração. Singapura trata seu PolCam como infraestrutura para acelerar investigação e resposta, e o Ministério do Interior relata que o sistema ajudou a solucionar mais de 5.000 casos desde 2012, reduzindo o tempo de resolução em diversos episódios. Já a cidade de Seul descreve centros integrados de CCTV em cada distrito, com monitoramento contínuo e resposta rápida, permitindo que órgãos como polícia e bombeiros usem vídeo em tempo real para responder a incidentes. O Reino Unido, por sua vez, mostra a força de um modelo simples e eficiente: registros voluntários de câmeras e campainhas com vídeo, que permitem à polícia localizar rapidamente possíveis imagens após um incidente, sem depender de acesso ao vivo.

Inteligência Artificial no núcleo da evolução

É nesse ponto que a inteligência artificial deixa de ser um tema de tendência e vira infraestrutura. Cidades geram volume demais para que a resposta dependa de pessoas olhando tela vinte e quatro horas por dia, tentando separar sinais importantes de ruídos.

Quando aplicada com propósito, a IA ajuda a reduzir falsos alarmes, priorizar eventos relevantes, reconhecer padrões de reincidência, cruzar sinais de fontes diferentes e entregar contexto para quem decide. Ela encurta o caminho entre o que acontece na rua e o que precisa ser feito no comando em campo e no minuto certo.

A grande contribuição da IA não é somente enxergar tudo, mas organizar o caos. É transformar um mar de dados em fila de prioridades, com contexto suficiente para uma decisão melhor e mais rápida.

Menos improviso, cidade mais segura

Se o Brasil tratasse o que já existe como sistema unificado e harmonioso, tenho convicção que teríamos um alto nível de previsibilidade. Previsibilidade no tempo de resposta, na qualidade da informação, no uso de evidências, na coordenação entre atores e na alocação de recursos nos pontos de maior reincidência.

Também haveria um efeito econômico direto em grandes centros urbanos que vivem de fluxo, confiança e continuidade. Quando a cidade responde melhor, a cidade opera melhor, atrai mais investimentos, mais turismo e, por consequência, mais resultados.

O Brasil já tem pessoas, sensores, centrais e um mercado que só cresce. O salto, agora, não depende de instalar mais. Depende de integrar melhor, para que capacidade vire resultado, e para que segurança urbana deixe de ser reação e passe a ser gestão.

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