O condomínio onde moradores criam o próprio vinho: a aposta de luxo da Serra Catarinense

Por Rebecca Crepaldi 27 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O condomínio onde moradores criam o próprio vinho: a aposta de luxo da Serra Catarinense

A Rodovia BR-282 que vai de Florianópolis à divisa da Argentina passa por uma pequena cidade chamada Bom Retiro. Com pouco mais de 8,4 mil habitantes, o local abriga a Fazenda Bom Retiro, na Serra Catarinense. Há 900 metros de altitude acima do nível do mar, o complexo possui 8 milhões de metros quadrados e, dentro dele, existe a Vinícola Thera, o hotel boutique, o Thera Wine Bar e, agora – um complexo imobiliário.

Para além de comodidades como piscina aquecida, academia, salão de jogos e espaço gourmet, a proposta do Residencial Fazenda Bom Retiro une vinho e luxo. Os moradores do local, que começam gastando algo em torno de R$ 5,5 milhões para adquirir uma casa, têm direito a uma experiência única: ter seu próprio rótulo de vinho. A oportunidade traz o senso de exclusividade, ela não é aberta ao público, somente condôminos podem usufruir.

Quem comprar o projeto leva uma barrica – pequeno barril de madeira usado para fermentar, amadurecer ou armazenar a bebida – com capacidade de produzir 300 garrafas. A ideia é que a pessoa não compre uma parte do vinhedo, como ocorre em condomínios na Argentina, por exemplo, e, sim, desfrute das bases já prontas da vinícola para produzir seu rótulo junto com a equipe de enologia.

“Primeiro que a pessoa não quer ter custo de manutenção do vinhedo durante o ano, segundo que ela acaba tendo uma quantidade grande de vinho e não sabe o que fazer. Então acaba se frustrando. Por isso, nós simplificamos o modelo. A pessoa só participa da parte prazerosa”, diz Abner Zeus de Freitas, sócio e CEO do Grupo Fazenda Bom Retiro

O cliente irá participar do corte, escolher os blends e o tempo de barrica, além de criar o rótulo personalizado junto com a equipe de criação e marketing do grupo. “A pessoa pode dar o nome que quiser”, brinca o CEO. Ao todo, a vinícola tem 20 rótulos, de 12 espécies diferentes de uvas, plantadas em 29 hectares, podendo expandir para 32.

“Imagina contar essa história, que sua família faz parte de uma vinícola e tem um rótulo de vinho. É uma percepção de valor muito marcante”, diz César Mór, diretor comercial imobiliário, contando que tiveram que pedir licença de um proprietário para poder produzir comercialmente o vinho porque as “escolhas ficaram muito boas”.

Com citações inclusive internacionais, os vinhos da Vinícola Thera estão presentes em cartas de grandes restaurantes brasileiros, como grupo Fasano, Rosewood, Palácio Tangará, e nos dois únicos restaurantes três estrelas Michelin da América Latina, o Tuju e o Evvai. A vinícola espera produzir um recorde em 2026 de 180 mil garrafas, e tem capacidade de produzir 300 mil.

Agora em 2026, o vinho Thera Rosé conquistou, pela terceira vez, o título de Melhor Rosé do Brasil no Guia Adega 2026, publicação dedicada à avaliação de vinhos no país. O espumante Thera Auguri Extra Brut Blanc de Blancs também levou a medalha de prata no Decanter World Wine Awards 2025. Thera, vem de Teresa, nome a nove gerações na família Freitas.

Abner Zeus de Freitas (a esquerda) e João Paulo Freitas (a direita) (Fazenda Bom Retiro/Divulgação)

O complexo imobiliário

Dentro do mar de araucárias e plátanos, é possível ver as obras se iniciando. No início, a ideia do grupo era vender lotes para os proprietários construírem suas casas. E deu certo. Dos 57 lotes, restam apenas 10. Entretanto, tal qual produzir um vinho é difícil, construir uma casa também – há quem não quer se preocupar, novamente, com a parte trabalhosa. Dessa análise, surgiu a ideia de vender casas prontas.

Somado aos 57 lotes, há outros 26, sendo que em nove lotes serão construídas 18 casas, chamadas ‘Casas do Bosque’, assinadas pelo arquiteto Diego Espírito Santo, e nos outros 17 lotes (cada um com uma casa), serão as chamadas ‘Casas do Lago’, desenvolvidas pelo escritório Jobim Carlevaro. As do bosque são menores, começando em 317 metros quadrados. Já as do lago são maiores, chegando a quase 900 metros quadrados – estes, podendo custar até R$ 12 milhões. Tudo isso será disposto em 35 hectares.

No piso térreo há a garagem, seguido do segundo piso onde encontra-se o living. No terceiro é onde está localizado as suítes, que variam de três até cinco a depender do tamanho. Um dos primeiros compradores de um lote, na verdade, comprou três: um para a casa, um para o jardim e um para a horta. Já outros dois proprietários que adquiriram lotes fizeram um ‘upgrade’ para as casas prontas – que começaram a ser construídas.

Todos os moradores poderão usufruir do Club House, um local de uso compartilhado aos condomínimos com piscina aquecida, psicina aberta de borda infinita, academia, espaço gourmet, sala de jogos, espaço kids, além de quadra de tênis, serviço de concierge e um armazém que abastece os proprietários. A previsão de entrega do Club House é para o próximo mês.

Freitas conta à EXAME que, embora a marca seja centrada em vinho, hospitalidade e experiência, o desenvolvimento imobiliário é a principal avenida de geração de valor e capitalização. Ou seja, o lifestyle valoriza o terreno, e o terreno financia a expansão do ecossistema. “A ideia do projeto imobiliário sempre esteve presente desde o início”, afirma o executivo. Espera-se que as casas sejam entregues entre 24 e 36 meses.

“Os visitantes vêm de passagem, almoçam e têm vontade de ficar”, comenta Freitas. Segundo ele, a expectativa em 2026 é que 70 mil visitantes passem pela vinícola, com a temporada mais forte sendo junho e julho. Apesar dos clientes serem majoritariamente de Santa Catarina, há também do Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. “Tem todas as ocupações também, de piloto marítimo de navio a mercado financeiro, agro e indústria.”

Para preservar a identidade do empreendimento, há regras: a arquitetura foi tratada como uma ferramenta central de manutenção da marca. Nesse sentido, só são permitidos elementos como madeira, pedra, vidro e aço em tons escuros, enquanto acabamentos brancos e soluções que destoem da integração com a paisagem são vetados. “Não dá para fazer uma casa cor-de-rosa”, brinca o CEO.

Tudo começa com uma boa taça

O vinho compõe um ecossistema – este, retroalimentando pelo enoturismo. O hotel e o Thera Wine Bar funcionam como uma porta de entrada. “A estratégia sempre foi movimentar a região da Serra Catarinense. Fazer as pessoas experienciarem um pouco do terroir”, conta Freitas. Outras experiências como degustação de vinho, cavalgadas, trilhas, sauna, piqueniques, cachoeiras e eventos também compõem o cenário de quem está de passagem, mas de quem veio para morar. “A pessoa terá privilégios”, destaca o CEO.

O projeto que hoje se desdobra na Fazenda Bom Retiro tem suas raízes em uma trajetória familiar que atravessa gerações. O ponto de partida desse movimento remonta ao avô de do Abner, Manuel Dilor Freitas, descrito como uma das principais lideranças empresariais da família. Proprietário na época da Cecrisa Portinari, fabricante de revestimentos cerâmicos, ele viu na viticultura uma nova paixão a partir dos anos 1980, e começou a buscar referências mundiais.

Ao viajar para Toscana, ele identificou algumas similaridades entre a região de São Joaquim, a quase 100 km de Bom Retiro, e o centro da Itália. A partir daí, ele adquire nos anos 1990 uma área no município catarinense e inicia ali um projeto vitivinícola que daria origem à Villa Francioni. Junto, ele também adquire as terras no Bom Retiro.

“Meu avô tinha uma visão muito desenvolvimentista. Ele acreditava que o turismo tinha um poder muito grande de desenvolver as regiões. Hoje, vemos isso: em torno da Villa Francioni tem cerca de 10 vinícolas num raio de 5 km. A região se desenvolveu muito”, diz Freitas.

“Além dessa beleza exuberante, existe compostos técnicos de solo, de capacidade de drenagem, de umidade, de pressão atmosférica, que fazem com que o contexto para a produção da uva seja extremamente competitiva a nível internacional”, comenta Mór. Dilor Freitas, no entanto, não chegou a ver o projeto concretizado, falecendo um ano antes da inauguração da Villa Francioni, em 2005.

Mas sua família persistiu. Com a venda da Cecrisa e a reorganização dos ativos da família, o núcleo familiar de Abner deixou a sociedade das demais empresas que integravam o grupo e passou a concentrar sua atuação no desenvolvimento de projetos imobiliários complexos como a Fazenda Bom Retiro. O empreendimento, então, passou a integrar diferentes frentes — vinícola, hospitalidade, gastronomia e desenvolvimento imobiliário — sob uma mesma lógica de longo prazo. Atualmente, já foram investidos R$ 100 milhões e há planos de investimento de até R$ 800 milhões nos próximos 12 anos.

Projetos futuros

Os planos para a Fazenda Bom Retiro não param por aí. Em fase conceitual, há o desejo de construir o Museu do Vinho. A ideia é criar um espaço que conte a história do vinho e da região, combinando narrativa histórica com tecnologia e experiência imersiva. Outro eixo, descrito como um “Artpark”, será construído ao redor dos lagos da propriedade e terá foco em esculturas e intervenções artísticas com, entre outros, materiais do vinhedo.

“Vamos fazer um simpósio com seis artistas internacionais, que tem uma curadoria do grande artista catarinense Jorge Schröder. O projeto foi aprovado no final do ano passado no Ministério da Cultura e vai ser incentivado via Lei Rouanet. Vamos também trazer a comunidade que trabalha com cestaria de vime. Vamos capacitá-los para agregar mais valor à arte deles, para que possamos revender e estimular a economia circular”, conta o CEO.

No campo imobiliário e de uso da área, o plano inclui um projeto vertical de hotelaria, o Borgo Hotel, com unidades menores distribuídas em blocos próximos à rodovia. Esse conjunto deve funcionar como uma espécie de “hub” de recepção dentro do complexo, conectado às demais experiências.

Segundo Mór, a diferença central entre o projeto e outros empreendimentos em regiões em desenvolvimento está na natureza da valorização imobiliária. “Quando existe um movimento aberto em um município, abre-se espaço para a especulação imobiliária, em que o investidor compra um lote apostando que algo pode acontecer no futuro e, com isso, valorizar o ativo. É uma aposta de mercado”, afirma.

Mas, de acordo com ele, a proposta do empreendimento é justamente reduzir esse componente de incerteza ao trabalhar com um plano de longo prazo já definido. “Aqui não é isso. Nós temos um planejamento que define a entrega de equipamentos ao longo dos próximos anos. Isso tira o caráter de aposta e transforma em uma estratégia de valorização patrimonial, porque não se trata de imaginar o que pode acontecer, mas de um desenvolvimento já estruturado que vai inevitavelmente gerar valor”, conclui.

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