O custo geográfico da IA: big techs já desapropriam terras para criar mais data centers
Aragão, no norte da Espanha, virou um dos maiores polos de centros de processamento de dados da Europa. Amazon Web Services (AWS) e Microsoft estão entre as empresas que anunciaram investimentos que somam mais de € 80 bilhões (aproximadamente R$ 471 bilhões em conversão direta) na região. O governo local celebra a chegada dos empregos e do dinheiro. Mas para quem vive lá, a história é bem mais complicada.
A escolha da região está relacionada com o custo reduzido de eletricidade na Espanha, que chega a ser 30% em comparação com a média europeia. Adicionalmente, no centro da expansão está o Proyecto de Interés General de Aragón (PIGA), um instrumento jurídico criado em 2015 para atrair investimentos. Ele permite ao governo regional aprovar projetos com mais velocidade, reduzir exigências burocráticas e conceder isenções fiscais a determinadas empresas.
O mecanismo também dá às empresas o direito de acionar a desapropriação forçada de terras quando negociações diretas com proprietários não chegam a um acordo. A própria Microsoft declarou que projetos dessa escala "só podem ser desenvolvidos com um PIGA".
Moradores são persuadidos a sair da região
Assim, pequenos agricultores da região começaram a receber cartas com prazo de apenas quatro dias para resposta — ainda que a Amazon tenha declarado que o prazo foi um "erro humano". Elas vêm com propostas de compra de terrenos propondo a compra de terrenos que famílias ocupam há décadas. Conforme reportagem da Bloomberg, os preços pagos variam de € 2 a € 23 (R$ 11,7 a R$ 135,4 em conversão direta) por metro quadrado e dependem da resistência de cada proprietário. Idosos que cultivam a terra como complemento de renda foram informados de que não podiam mais trabalhar em seus lotes. Famílias que antes se davam bem passaram a não se falar depois que as negociações de venda dividiram opiniões em moradias.
“Não sou ninguém lá agora, porque a terra não era minha. Então, se eles me derem um chute na bunda agora, aos 84 anos, o que eu vou fazer?”, comentou o fazendeiro Rafael Rascón em conversa com a Bloomberg. Tanto ele como Antonio Gimeno, ambos na casa dos 80 anos, decidiram fazer da plantação seu sustento e passatempo. "Não restam muitos jovens nos campos", acrescentou ele.
Paz Orge Acebillo, uma moradora de Cuarte ouvida pela Bloomberg, iniciou um processo judicial contra o governo de Aragão por omissão de informação e falsificação de documentos. “Alguns vizinhos são persuadidos, pressionados e acabam cedendo, enquanto os que são contra são deixados de lado", comentou Acebillo, que possui uma pequena terra na região para plantio comunitário.
Em reunião com a comunidade local, um executivo da AWS teria comparado o sistema de resfriamento dos servidores a "abrir uma janela no inverno". "Esses caras achavam que éramos estúpidos. Eles acham que as pessoas daqui não têm instrução", opinou Ocebillo. Pouco depois, documentos do governo de Aragão revelaram que a própria Amazon havia pedido aumento na cota de uso de água autorizada.
Amazon planeja ações compensadoras
A Amazon declarou que investirá € 30 milhões (R$ 176,6 milhões em conversão direta) em iniciativas educacionais sobre sustentabilidade e robótica na comunidade. Em tempo, a Microsoft parece direcionar seus recursos para a geração de empregos apoiada pelo governo regional, que projeta dezenas de milhares de empregos gerados pelo setor. Os três centros já existentes registram entre 700 e 950 empregos criados até então.
Uma empresa local de instalações elétricas diz ter multiplicado por dez seu faturamento em cinco anos; os data centers seriam responsáveis por 40% das vendas realizadas recentemente. Representantes da AWS afirmam ter ajustado o traçado de linhas de alta tensão a pedido dos moradores e dizem que o consumo de água será insignificante perto do que a agricultura já usa na região.
"Talvez o que hoje precisa de 80 hectares caiba numa sala como essa daqui a algum tempo", disse José Luis Montero, prefeito de Villamayor. A cidade é uma das mais afetadas pela chegada dos data centers, se tornando a tensão central da corrida pela inteligência artificial. Os ganhos se concentram no valor de mercado de um punhado de empresas de tecnologia, enquanto os custos aparecem de forma muito concreta na vida de quem não tem nenhuma participação nesses lucros.
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