O dia em que o CEO celebrou um desastre
Por Rogério Chér*
Tenho um certo medo de ambientes onde “está tudo bem” o tempo todo.
Não porque eu goste de conflito. Mas porque, na minha experiência, quando tudo parece bem demais, alguém está varrendo alguma coisa para debaixo do tapete. E provavelmente com um sorriso no rosto.
Eu chamo isso de verdade envernizada. É quando a verdade existe, mas chega polida, suavizada, maquiada. Não é mentira, mas também não é a verdade que precisa ser dita.
Lembro de uma história que testemunhei como consultor que ilustra bem o perigo estratégico disso tudo.
Era uma terça-feira comum na operação. Na linha de produção da unidade Sul, um lote inteiro de produto saiu com um defeito crítico. Não era um detalhe, mas um erro que, se chegasse ao cliente, poderia gerar recall, dano reputacional e prejuízo financeiro relevante.
O analista responsável percebeu primeiro. Ele olhou o indicador, franziu a testa e chamou o supervisor.
“Tem algo errado aqui. A gente precisa parar isso agora.”
O supervisor analisou os dados. Concordou, mas hesitou.
“Calma… não vamos alarmar. Pode ser um desvio pontual.”
E foi ali que o primeiro verniz foi aplicado. Na comunicação para o gerente, ele escreveu:
“Identificamos uma leve inconsistência em um lote específico. Já estamos avaliando e monitorando.”
Leve inconsistência. Um lote inteiro comprometido virou uma leve inconsistência.
O gerente leu, pensou e decidiu organizar melhor a mensagem antes de escalar.
Na reunião com o diretor, ele trouxe:
“Tivemos um pequeno desvio operacional em uma das unidades, mas a equipe agiu rápido e está sob controle.”
Pequeno desvio. Sob controle. O segundo verniz não só suavizou, mas acrescentou uma narrativa positiva.
O diretor, por sua vez, já acostumado a traduzir problemas para a alta liderança, fez o que muitos fazem: tentou proteger o time e a si mesmo.
A gente quer evitar desconforto
No comitê executivo, comentou:
“A operação teve um desafio pontual, mas foi um bom exemplo de agilidade da equipe local. Eles identificaram rapidamente e estão conduzindo bem.”
Desafio pontual. Bom exemplo. Agilidade…
A essa altura, o problema já não parecia um problema, mas um “case de sucesso”.
Quando a informação chegou ao CEO, ela veio assim:
“Time da unidade Sul demonstrou excelente capacidade de resposta diante de uma situação operacional, garantindo estabilidade e controle.”
O CEO sorriu. Pegou o telefone e ligou para a unidade:
“Queria dar os parabéns para vocês. É disso que a gente precisa. Resposta rápida, maturidade, controle. Excelente trabalho.”
Do outro lado da linha, silêncio.
O analista, o mesmo lá do começo, ouviu a conversa ao fundo. Olhou para o supervisor. Depois, voltou seu olhar para o indicador, que agora estava pior. E murmurou, quase sem voz:
“A gente não resolveu nada…”
A verdade envernizada tem esse efeito perverso. Ela não explode, mas dissolve o inconformismo, a urgência, a clareza, a responsabilidade. E, no fim, dissolve a capacidade da organização de lidar com a sua realidade. Quando o problema chega bonito demais, ele não mobiliza ninguém. E liderança sem mobilização é só gestão de aparência.
Tem uma tentação muito humana por trás disso tudo. A gente quer evitar desconforto. Quer preservar relações. Quer parecer competente, evitar a reação do outro. Então a gente ajusta o discurso. Dá uma lixada na verdade. Passa um verniz. E, pronto, fica mais fácil de falar sobre aquilo.
O problema é que também fica mais fácil de ignorar a realidade nua e crua. Organizações maduras não são aquelas onde não existem problemas, mas aquelas onde os problemas chegam crus. Sem maquiagem, sem filtro, sem tradução otimista.
Só a verdade bruta mobiliza ação real. Só a verdade incômoda gera mudança. Só a verdade inteira constrói confiança.
No fim do dia, a pergunta não é se existe verniz na sua organização, no seu time. Sempre tem. A pergunta é quanto de realidade se perde entre quem vê o problema e quem pode resolvê-lo. Por vezes, no caminho entre um e outro, o que era um incêndio vira uma “vela aromática”. Tenha cuidado com isso.
*Rogério Chér é sócio fundador da Winx e da Devello
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