O eleitor e a IA: pesquisa mostra como vídeos e textos feitos por IA podem pesar no voto
A inteligência artificial chegou ao debate público brasileiro cercada de promessas, mas também de um medo cada vez mais concreto: o de embaralhar a percepção do que é real. O que um estudo inédito do Projeto Brief mostra agora é que esse receio já se instalou antes mesmo de a próxima eleição começar.
A maioria dos brasileiros acredita que a tecnologia pode ser usada para manipular eleitores. Ao mesmo tempo, boa parte deles não consegue reconhecer quando está diante de um conteúdo artificial e, em alguns casos, passa a desconfiar até do que é autêntico.
O estudo parte justamente desse desajuste. Antes de qualquer experimento, 71,6% dos participantes já diziam acreditar que a inteligência artificial poderia ser usada para influenciar eleições.
Depois do contato com vídeos sobre o tema, esse percentual subiu. Entre os que assistiram a uma versão sintética de uma fala do presidente Lula sobre regulação de redes sociais, a preocupação foi a 74,1%. Entre os que viram o vídeo original, chegou a 74,5%. O dado sugere que o simples contato com esse tipo de conteúdo já amplia a sensação de vulnerabilidade.
A inquietação se confirma quando o estudo mede a capacidade das pessoas de distinguir o que é verdadeiro do que foi fabricado. Entre os entrevistados que assistiram ao vídeo gerado por IA, apenas 45,3% identificaram corretamente que se tratava de um conteúdo artificial. A maioria, portanto, errou ou hesitou. Entre os brasileiros com 61 anos ou mais, o quadro é ainda mais agudo: só 20,9% reconheceram a origem sintética do vídeo, enquanto 47% acreditaram estar vendo algo verdadeiro.
Mas a desorientação não aparece apenas na dificuldade de reconhecer o falso. Ela também surge no excesso de suspeita. Entre os participantes que viram o vídeo original, 33,9% disseram acreditar que ele havia sido gerado por IA. Só 40,7% o identificaram como autêntico. Em outras palavras, a tecnologia já não produz apenas engano. Produz também um ambiente em que até o real passa a ser posto sob suspeita.
A diferença entre gerações ajuda a entender o tamanho do problema. Entre jovens de 18 a 29 anos, 58,2% conseguiram identificar corretamente o vídeo fabricado. Entre os mais velhos, o índice cai de forma drástica. O abismo sugere algo maior do que uma dificuldade técnica. Mostra como o avanço dessas ferramentas encontra uma população com níveis muito desiguais de repertório digital — e como essa desigualdade pode ter efeito direto sobre o debate público.
Esse é só um lado da questão. O outro aparece quando o estudo deixa de olhar apenas para os conteúdos gerados por IA e passa a observar a própria IA como fonte de informação política. Aí os números chamam ainda mais atenção.
Quando perguntados se consultariam uma ferramenta desse tipo para obter informações ou ajuda para decidir em quem votar, 62,9% dos brasileiros demonstraram algum grau de abertura. Desse total, 22,4% afirmaram que tratariam a IA como uma fonte útil como qualquer outra. Outros 40,5% disseram que consultariam a tecnologia, mas verificariam a resposta em outros lugares.
Só 23,2% disseram preferir fontes humanas, como jornalismo e debates. E apenas 13,9% afirmaram não confiar em IA para informações políticas.
O resultado expõe uma contradição central do estudo. O brasileiro teme a manipulação, mas já começa a incorporar a inteligência artificial à rotina de decisão política. A mesma tecnologia vista como risco aparece também como atalho para entender o cenário eleitoral.
Segundo Carol Luck, coordenadora do Projeto Brief, esse é um dos pontos mais delicados do levantamento. O problema, diz ela, é que as respostas dessas ferramentas não são totalmente confiáveis — algo que as próprias plataformas admitem. Nem sempre fica claro de onde veio a informação, quais fontes foram usadas ou se os dados estão atualizados. Em ano eleitoral, isso pesa mais: a decisão de voto pode passar por respostas automatizadas que induzem ao erro.
Por idade, o grupo mais aberto ao uso direto está entre 30 e 45 anos, com 26,2%. Já os mais jovens, de 18 a 29 anos, lideram outro comportamento: a checagem. Entre eles, 42,8% afirmam que consultariam a IA, mas buscariam confirmação em outras fontes. Entre usuários intensivos da tecnologia — aqueles que a utilizam várias vezes ao dia — a disposição cresce ainda mais. Mais de sete em cada dez dizem que a usariam, em alguma medida, para se informar politicamente.
No recorte ideológico, a direita aparece como o grupo mais aberto ao uso direto da ferramenta: 26,2% dizem que confiariam nela como fonte, contra 20,4% no centro e 19,7% na esquerda. Também lidera a resposta condicional: 43% afirmam que consultariam a IA, mas fariam checagem posterior.
Esses números convivem com outra camada do estudo: a percepção difusa de risco. Mais da metade dos entrevistados, 52,6%, concorda que a inteligência artificial pode ajudar as pessoas a tomar melhores decisões políticas. Ao mesmo tempo, 60,9% veem nela um instrumento capaz de enganar ou manipular. Outros 54% dizem que a tecnologia dificulta distinguir o que é real do que foi criado artificialmente em textos, imagens e vídeos. E 49,4% consideram o conteúdo gerado por IA, por natureza, falso ou enganoso.
Ainda assim, há um consenso mais claro quando o assunto é transparência. Para 83,2% dos entrevistados, é importante saber quando um conteúdo foi criado por inteligência artificial. A demanda não é pela proibição da tecnologia, mas por identificação visível.
Ricardo Borges, coordenador-geral do Projeto Brief, resume a contradição do levantamento: a abertura para consultar IA sobre candidatos é alta e cresce ainda mais entre quem já usa essas ferramentas no dia a dia. O que chama atenção, diz ele, é que essa disposição convive com a desconfiança. As mesmas pessoas que usariam a IA para se informar reconhecem que ela pode enganar.
A polarização política também molda a percepção dos conteúdos, mas não anula o alerta. Entre os participantes que se identificam com a direita, a confiança na fala atribuída a Lula ficou em 25,2% após o vídeo gerado por IA e em 23,5% após o original. Entre os eleitores de esquerda, os índices foram de 62,9% e 64%, respectivamente.
A afinidade ideológica pesa na leitura do conteúdo, como seria esperado. Ainda assim, a preocupação com manipulação eleitoral atravessa o campo político. Entre os eleitores de direita, por exemplo, a percepção de risco subiu de 68,5% no grupo que não viu vídeo algum para 73,2% entre os expostos ao material gerado por IA.
Quando perguntados sobre quem deveria controlar o uso da inteligência artificial na política, os brasileiros apontaram primeiro o Tribunal Superior Eleitoral, citado por 51,6% dos participantes. Depois aparecem o governo federal, com 42,1%, as plataformas digitais, com 38%, os cidadãos, com 24,2%, e organizações da sociedade civil, com 17,8%.
Como a pesquisa foi feita
Realizado entre 25 e 29 de abril de 2026, com 2.483 participantes recrutados via redes sociais em todo o país, o levantamento dividiu os entrevistados em três grupos: controle, expostos ao vídeo gerado por IA e expostos ao vídeo original. Mais do que medir a reação a uma peça específica, o estudo ajuda a desenhar o ambiente em que a política brasileira começa a conviver com a inteligência artificial.
Os dados sugerem que o debate já mudou de patamar. O problema não está apenas no conteúdo falso que circula. Está também no espaço mais amplo de incerteza que se abre quando a maioria das pessoas teme a manipulação, aceita consultar a IA e, ao mesmo tempo, já não consegue ter certeza plena do que vê. Em uma democracia, esse tipo de dúvida não é um detalhe técnico. É parte do próprio terreno em que a confiança pública se sustenta ou se desgasta.
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