O feed morreu? O que a produção infinita diz sobre o futuro da influência

Por Juliana Pio 21 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O feed morreu? O que a produção infinita diz sobre o futuro da influência

*Por Eder Redder

No futuro que já é amanhã, produtores de conteúdo terão acesso a uma capacidade inédita: criar um volume praticamente infinito de conteúdos tecnicamente muito bons. IAs automáticas não apenas vão gerar ideias, roteiros e textos, mas também editar visualmente, ler algoritmos, interpretar audiências e sugerir ajustes contínuos para maximizar performance.

Postar todos os dias ainda hoje é um desafio operacional, porque mesmo usando IA dá trabalho operar, revisar e decidir. Em um futuro muito próximo, as próprias IAs vão sugerir pautas, criar os prompts e gerar conteúdos em ciclos autônomos, ajustando formatos, temas e narrativas em tempo real.

Com isso, a barreira da produtividade cai de forma brutal. Criar deixa de ser difícil. Qualquer pessoa passa a conseguir operar como um “ótimo influenciador” do ponto de vista técnico. É nesse momento que ocorre a ruptura. Quem entrar em uma rede social passará a encarar um volume gigantesco de conteúdos criados por IAs, com boa execução formal, mas com pouca ou nenhuma originalidade real.

Embora o caminho correto (e o mais valioso) seja a intervenção humana, o ponto de vista pessoal e a construção de algo genuíno, o fato é que o volume esmagador de conteúdos genéricos tende a soterrar quem se dedica de verdade.

O efeito é muito parecido com o que já acontece nas buscas do Google. Coisas boas existem, mas ficam escondidas sob uma camada imensa de sites medianos, superficiais e otimizados. Encontrar algo realmente relevante exige muitos scrolls, muita exploração e um esforço cognitivo cada vez menos viável.

Até que algoritmos consigam identificar com precisão o que tem valor humano, original e profundo, a quantidade de exploração necessária será simplesmente impraticável.

É nesse contexto que surge o ponto zero.

Existe um ponto zero silencioso acontecendo agora, e ele não é tecnológico, é estrutural. A produção de conteúdo tende ao infinito, o custo marginal tende a zero, a qualidade média sobe, mas a originalidade relativa despenca.

Quando todo mundo produz bem, “bem” deixa de ser diferencial. É nesse ponto que surge a inflação de conteúdo: quanto mais conteúdo existe, menos cada unidade vale. Não porque ficou ruim, mas porque ficou abundante demais.

O efeito disso não é que as pessoas passam a consumir mais. O efeito real é que elas desistem mais rápido. O feed entra em colapso cognitivo.

O modelo atual foi desenhado para um mundo que já não existe, um mundo em que havia escassez relativa de bons conteúdos, em que a curadoria algorítmica era suficiente e em que a atenção humana parecia elástica.

Hoje, nenhuma dessas premissas se sustenta. O algoritmo não consegue explorar todo o espaço de produção, o usuário não aguenta explorar, e o sistema entra em entropia.

O fenômeno é parecido com o que aconteceu nos mecanismos de busca, mas nas redes sociais ele é mais profundo. Aqui não se trata apenas de informação, mas de tempo, emoção, identidade e pertencimento.

Por um período, as pessoas até se contentam com a superficialidade. Surge um nivelamento confortável, feito de conteúdos agradáveis, pouco conflitantes, pouco profundos, fáceis de consumir e fáceis de esquecer. É o fast food cognitivo.

Mas o cérebro humano não se satisfaz indefinidamente com estímulo sem significado. Ele tolera, ele consome, mas inevitavelmente procura outra coisa.

A partir daí, a audiência aberta se dilui, o alcance médio cai, a sensação de invisibilidade aumenta e creators medianos desaparecem emocionalmente. O feed vira um lugar de muito conteúdo, pouca memória e nenhum vínculo.

Ao mesmo tempo, o algoritmo esgota sua capacidade de gerar sentido. Ele continua excelente em repetir padrões e otimizar o passado, mas estruturalmente incapaz de reconhecer ruptura, sentido profundo e relevância futura. Quando todos otimizam para ele, surge um loop de mediocridade eficiente. O sistema continua funcionando, mas já não produz valor cultural novo.

Não é o fim do conteúdo. É o fim do feed como forma dominante de mediação cultural. No lugar, a curadoria humana volta a ser luxo e status. As pessoas passam a seguir quem escolhe bem, não quem produz muito.

O valor deixa de ser criar e passa a ser filtrar. A atenção migra para micro-mundos, comunidades fechadas, grupos pequenos e espaços com identidade clara, não por elitismo, mas por sobrevivência cognitiva. Nesse ambiente, conteúdo com risco volta a importar. Opinião clara, visão impopular, profundidade real e conflito passam a marcar mais do que formatos otimizados.

É nesse ponto que o papel do creator muda de vez. Em um mundo de produção infinita, criar não é diferencial. Ser referência é.

Influenciadores e produtores de conteúdo passam a depender cada vez mais de um trabalho consistente para alcançar curadores de qualidade, pessoas, comunidades e espaços capazes de reconhecer, sustentar e amplificar o que realmente importa. E é aqui que morre o influenciador mediano que sobrevive apenas como surfista de algoritmo.

Aqueles que hoje dominam técnicas de retenção, mas não constroem nada original, humano ou relevante, serão inutilizados pela saturação.

Paradoxalmente, isso é uma ótima notícia. Boa notícia para quem domina um assunto, para quem tem experiência vivida, visão própria e algo genuinamente relevante a acrescentar. Teremos menos creators, mas muito mais qualidade. Um mundo menos frenético, com menos ruído e mais sentido.

Quando tudo é bom, nada é especial. Quando tudo é produzido, o valor migra para aquilo que não pode ser automatizado: experiência, responsabilidade por uma opinião, risco reputacional, coerência ao longo do tempo e confiança acumulada.

O feed não some, mas vira camada superficial, ruído de fundo, vitrine descartável. O que importa migra para relações, curadorias, comunidades e referências humanas.

Em um mundo onde qualquer pessoa pode produzir conteúdo tecnicamente excelente, a pergunta decisiva passa a ser: quem você escuta quando quer algo que realmente importa?

Essa resposta define quem sobrevive — não como creator, mas como voz.

Vem logo futuro!

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