O futuro dos pagamentos fala português
Por Tatiana Orofino*
Durante boa parte da história do comércio eletrônico, a lógica foi simples. A tecnologia ajudava, recomendava, organizava informações e reduzia atritos, mas a decisão final continuava sendo humana. Alguém pesquisava, comparava alternativas, escolhia um produto e concluía a compra. Essa dinâmica começa a mudar.
Os avanços recentes da inteligência artificial apontam para um cenário em que agentes digitais deixarão de atuar apenas como assistentes para assumir etapas inteiras da jornada de consumo. Em vez de sugerir um hotel, poderão fazer a reserva. Em vez de indicar um fornecedor, poderão negociar condições e concluir a compra, sempre dentro de parâmetros definidos pelo usuário.
Pode parecer apenas uma evolução dos assistentes virtuais. Na prática, trata-se de uma mudança mais profunda. Quando uma máquina passa a comprar em nome de uma pessoa, a discussão deixa de ser apenas sobre experiência do consumidor e passa a envolver infraestrutura financeira.
Fica uma pergunta: sistemas de pagamento estão preparados para um mundo em que parte das transações será iniciada por inteligências artificiais?
As projeções da McKinsey indicam que, até 2030, entre US$ 3 trilhões e US$ 5 trilhões do consumo global poderão ser influenciados ou executados por agentes autônomos. Não por acaso, grandes empresas de tecnologia já trabalham na criação de protocolos voltados para esse novo modelo de comércio. Ao mesmo tempo, gigantes dos pagamentos correm para adaptar suas redes. Visa, Mastercard, PayPal e American Express anunciaram iniciativas específicas para transações realizadas por agentes de inteligência artificial, sinalizando que enxergam nesse mercado uma das principais fronteiras de crescimento dos próximos anos.
O interesse é fácil de entender. Se os agentes passarem a intermediar uma parcela relevante das decisões de compra, eles se tornarão uma nova camada de relacionamento entre consumidores e empresas. E quem controlar essa camada ocupará uma posição estratégica na economia digital.
Mas existe um desafio importante. A infraestrutura financeira global foi construída para um ambiente em que pessoas autorizam pagamentos. Os mecanismos de autenticação, os modelos de prevenção à fraude e as regras de responsabilização partem desse pressuposto. Quando um software passa a tomar decisões e executar transações, surgem novas perguntas. Quem responde por uma compra equivocada? Como comprovar que um agente estava autorizado a agir? O que acontece quando esse sistema é manipulado ou opera fora dos limites definidos pelo usuário?
As respostas ainda estão sendo construídas. E talvez esse seja o aspecto mais interessante do momento atual. Estamos acompanhando o nascimento de uma nova camada da economia digital. O fato de as principais redes globais de pagamentos já estarem desenvolvendo soluções para agentes autônomos mostra que essa discussão deixou de ser um exercício teórico e passou a fazer parte do planejamento estratégico do setor financeiro.
A questão da fraude ajuda a dimensionar o desafio. Durante décadas, bancos e empresas especializadas aprenderam a analisar o comportamento humano para identificar riscos. Agora será necessário compreender o comportamento de agentes digitais legítimos e distinguir suas ações das realizadas por sistemas comprometidos. O foco deixa de estar apenas na identidade do usuário e passa a incluir também a identidade da máquina.
É justamente nesse contexto que o Brasil pode ter uma oportunidade rara.
Enquanto muitos mercados ainda tentam adaptar estruturas tradicionais baseadas em cartões, o país já conta com uma infraestrutura moderna de pagamentos instantâneos. O PIX nasceu em um ambiente altamente digitalizado, opera em tempo real e foi construído sobre uma arquitetura que favorece integração e automação.
Existe ainda outro diferencial. O Open Finance brasileiro já criou mecanismos que permitem a terceiros autorizados iniciar pagamentos em nome dos clientes. Um iniciador de pagamentos não é um agente de inteligência artificial, mas a lógica regulatória construída nos últimos anos oferece uma base relevante para essa próxima etapa.
Os desafios que permanecem são menos tecnológicos do que institucionais. Será preciso definir responsabilidades, criar mecanismos de auditoria e estabelecer regras claras para a atuação desses agentes. Nesse processo, o Banco Central tende a desempenhar um papel decisivo. Toda grande transformação financeira costuma seguir um roteiro parecido. Primeiro parece uma discussão restrita a especialistas. Depois ganha relevância econômica. Quando percebemos, já alterou hábitos de milhões de pessoas. Foi assim com o internet banking. Foi assim com os pagamentos móveis. Foi assim com o Open Finance. E o Agentic Commerce dá sinais de que seguirá o mesmo caminho.
Ainda há incertezas e muito espaço para experimentação. Mesmo assim, ignorar essa tendência parece um erro. O comércio digital começa a migrar para um modelo em que consumidores delegam decisões a sistemas inteligentes, e essa mudança tem potencial para redefinir a forma como o dinheiro circula na economia.
Se isso acontecer na escala projetada pelo mercado, a próxima revolução dos pagamentos talvez não seja liderada apenas pelas redes globais de cartões. Existe uma possibilidade real de que ela também passe pelo Brasil. E, nesse caso, o Pix pode ocupar um papel muito mais estratégico do que imaginávamos quando ele foi lançado.
*Tatiana Orofino é líder de desenvolvimento de negócios para o setor financeiro na AWS América Latina e assumiu neste ano a liderança do conselho do Women at Amazon, grupo de afinidades global para mulheres, funcionários não binários e aliados, do qual faz parte desde 2021. É graduada em engenharia da computação, com larga experiência em soluções inovadoras para empresas.
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